Conteúdo do impresso Edição 1315

SÍTIO ARQUEOLÓGICO

Escavações na AL-101 Norte revelam ocupações de 500 anos

Descoberta enriquece patrimônio arqueológico alagoano
Por Odilon Rios 17/05/2025 - 06:00
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Identificação de vestígios
Identificação de vestígios


Arqueólogos descobriram vestígios líticos e cerâmicos atribuídos a ocupações pré-coloniais durante as obras de escavação da duplicação da AL-101 Norte. O estudo destes fragmentos indica que há 500 anos indígenas tupi-guarani e aratu habitavam a região, aproveitando as águas – na época limpas – e os peixes dos rios Jacarecica, Pratagy, do riacho Doce e das praias. Também caçavam mamíferos, aves e répteis nas matas ao mesmo tempo protegidos pela segunda maior barreira de corais do mundo, tornando quase impossível a invasão dos europeus pelo mar.

O sítio arqueológico continha vestígios líticos e cerâmicas, como lascas e núcleos de sílex, artefatos de pedra polida (como machadinhas) e fragmentos atribuídos a ocupações pré-coloniais, datados dos anos 1500 e 1530, ou seja, após a descoberta do Brasil por Pedro Álvares Cabral e antes da criação das Capitanias Hereditárias, marcando o início da colonização europeia.

“Essa diversidade material contribui para a compreensão da ocupação pré-colonial da região litorânea de Alagoas, demonstrando a presença de diferentes grupos indígenas na região ao longo do tempo”, explica o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Este sítio foi descoberto em janeiro de 2025 durante as escavações para a duplicação da AL-101 Norte, obra que vai do bairro de Jacarecica, em Maceió, até a cidade da Barra de Santo Antônio. Tanto as escavações quanto as análises do material coletado indicam que, na região, havia grupos horticultores, talvez produzindo tubérculos e outros gêneros alimentícios, ocupando o topo de um tabuleiro de 70 metros de altura, a 1km do mar, talvez um ponto de observação e segurança. Segundo o Iphan, os fragmentos cerâmicos são das tradições arqueológicas tupi-guarani e Aratu, que ocuparam o local em diferentes períodos, através de grupos distintos, realizando trocas inclusive de tecnologia.

“A localização do sítio pode agregar novos dados sobre a tecnologia cerâmica e lítica (inclusive estratégias de abastecimento de matéria-prima), além do padrão do assentamento dos grupos pré-históricos ceramistas que ocuparam a zona da mata alagoana. Por outro lado, enquanto bem cultural brasileiro, esse sítio enriquece o patrimônio arqueológico alagoano, possibilitando que cidadãos e cidadãs conheçam o processo de povoamento do atual estado de Alagoas antes da colonização e criem vínculos de identidade com esse tipo de patrimônio”, detalha o instituto.

Quando os portugueses chegaram ao litoral da Bahia já existiam povos habitando o litoral nordestino. Entre eles, os tupi-guarani, que se estendem por toda a América do Sul, e os Aratu, vivendo próximo às matas e rios, cuja tradição remonta ao século 9, ou seja, mais de meio século antes da invasão europeia. Pesquisas mais recentes indicam que eles produziam artefatos de cerâmica, incluindo vasos em formato de pera invertida. Era uma sociedade fortemente agrícola.

Povos protegidos pela Costa dos Corais, com 130 quilômetros de extensão, entre Alagoas e Pernambuco, a segunda maior do mundo e uma barreira natural contra a invasão de caravelas ao menos por este pedaço do litoral.

Só que a segurança durou pouco, pois no século 16 os indígenas começaram a ser exterminados pelos canhões e arcabuzes. E a chacina foi ainda mais sangrenta em Alagoas após a nau que levava o primeiro bispo do Brasil, dom Pero Fernandes de Sardinha, e 90 acompanhantes naufragar onde hoje é a cidade de Coruripe e os indígenas da região devorarem toda a tripulação, no dia 16 de junho de 1556. Por ordem da Igreja, em dois anos milhões de indígenas foram exterminados no litoral nordestino.

O destino das terras? Nas mãos dos colonizadores, derrubando as matas e plantando cana-de-açúcar, assim até hoje.


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