MORTE DE ESTETICISTA
Dono de clínica foi acusado de atrocidades contra pacientes em São Paulo
Cláudia Pollyane estava internada há mais de um ano e teria sido levada para UPA de Marechal 4 horas após o óbito
A morte da esteticista Cláudia Pollyane Farias de Sant’Anna, ocorrida no sábado passado, 9, em circunstâncias misteriosas, expõe graves falhas dos órgãos públicos de fiscalização municipal e estadual e deve servir de alerta a familiares que não acompanham de perto o tratamento dispensado a dependentes químicos em instituições de saúde.
A Clínica Luz e Vida, no município de Marechal Deodoro, onde Cláudia Pollyanne estava internada há um ano e três meses e onde ocorreu sua morte, funciona sem licença emitida pelo poder público e área da saúde.
É uma clínica clandestina em pleno exercício de atividade e que nunca passou por vistoria antes da tragédia, numa total omissão das instituições que deveriam fazer a fiscalização no estabelecimento. Ex-pacientes da clínica afirmam terem sofrido maus-tratos, fome, medicação em excesso e violência física no local.
Cláudia Pollyane teria passado mal na madrugada do dia 9 e levada, pela manhã, à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Marechal Deodoro, onde foi comprovado óbito há pelo menos quatro horas antes da entrada na unidade de saúde. Segundo Boletim de Ocorrência registrado pela prima da paciente, Skarllety Pollyanne Sarmento Farias Barbosa, com informações ‘rasas’ sobre a denúncia, o corpo da esteticista apresentava inúmeros hematomas, seu olho tinha um edema e estava roxo. A morte da esteticista de 41 anos será investigada pela Polícia Civil. Amigos de Cláudia Pollyanne estão mobilizados para descobrir as circunstâncias da sua morte e exigir a punição dos responsáveis. A família da vítima não se pronuncia a respeito desde que o caso foi parar na mídia. Cláudia foi sepultada na última terça-feira, 12, no Campo Santo Parque das Flores, em Maceió.
O proprietário da Clínica Luz e Vida, empresário Maurício Anchieta de Souza, também registrou um boletim de ocorrência sobre a morte de Cláudia Pollyanne no dia do ocorrido. No documento, ele afirma que a paciente estava em surto de abstinência, foi medicada, jantou e foi dormir e que, pela manhã, um colaborador da clínica, ao bater na porta do quarto, foi informado pelas outras pacientes que Cláudia não estava bem. Neste momento, o funcionário a teria levado à UPA do município e lá constataram o óbito.
Antecedentes
Maurício Anchieta e a sócia Jéssica da Conceição Vilela foram alvo de uma ação civil pública, em 2022, promovida pelo Ministério Público do Estado de São Paulo por denúncias de irregularidades na Clínica Comunidade Terapêutica Luz e Vida, direcionada ao tratamento de dependentes químicos e que funcionava de forma clandestina no município de Jarinu. Segundo denúncias do MP de São Paulo (ação nº 94.2022.8.26.0301), foi apurado que a clínica sob a responsabilidade de Maurício Anchieta não permitia “contato telefônico e nem visitas de parentes aos internos, sob o subterfúgio de necessidade de afastamento, o qual seria inerente ao tratamento da drogadição, cobrando pelos serviços mensalidades em torno de R$ 850, além de R$100 para condução dos pacientes a eventuais atendimentos médicos e R$ 80 a título de despesas com lavanderia”.
A ação, resumida nos autos pelo juiz Senivaldo dos Reis Júnior, apontou “haver notícias de maus tratos aos internos, superlotação, restrição de alimentação e que, em várias ocasiões seriam fornecidos alimentos estragados aos internos, uso excessivo de medicamentos, os quais eram ministrados sem prescrição médica”. A denúncia do MP paulista também apontava a ocorrência de abusos psicológicos e ameaças para que internos não relatassem os procedimentos adotados pela clínica aos seus familiares. Uma inspeção realizada pela prefeitura e Vigilância Sanitária de Jarinu ouviu os internos e esses relataram “episódios de graves agressões
físicas e psicológicas, castigos e violência física constantes, alimentação inadequada e restrita, além de precárias condições de higiene”. A clínica foi interditada e a justiça determinou a cassação e dissolução compulsória da pessoa jurídica (Jéssica e Maurício) cancelando em definitivo a inscrição da mesma.
Mesmas práticas
Em Marechal Deodoro, a Clínica Luz e Vida é acusada por ex-pacientes de adotar as mesmas práticas que a clínica paulista. Um deles, que rejeitou se identificar, mas enviou áudios a amigos de Cláudia Pollyanne, disse ter presenciado agressões físicas contra a esteticista e que o espancamentoera comum a todos, assim como outras agressões.
“A gente tinha uma rotina de ficar andando em volta da piscina durante mais de uma hora, embaixo do sol e com fome, em jejum. Também tinha a prática de ficar sentado por mais de duas horas, sem poder levantar. Se durante as refeições a gente derrubasse um caroço de arroz na mesa era motivo de levar tapão na cara e ficar isolado dentro do quarto”, disse. Ao saber da morte de Claudia, outro ex-paciente esteve na quinta, 14,na Delegacia de Marechal Deodoro para denunciar também ter sido vítima de agressões.
Em vídeo compartilhado pelos amigos da esteticista, uma jovem denunciou ter sido vítima de violência sexual dentro da clínica e afirmou que o mesmo se deu com outras pacientes.
Também na quinta, o Conselho Tutelar resgatou na unidade uma adolescente de 16 anos, cuja família é residente em Cacimbinhas.
Outro ex-paciente gravou vídeo onde afirma que na clínica havia espancamento praticado por Maurício e as pessoas eram dopadas de medicamentos. Maurício Anchieta não respondeu ao EXTRA sobre as acusações até o fechamento desta edição.
Na quarta-feira, 13, uma comissão de amigos da esteticista compareceu ao CISP de Marechal Deodoro para cobrar celeridade nas investigações sobre a sua morte. O grupo também esteve no Ministério Público para audiência com a promotora de Justiça Maria Luiza Maia, que afirmou que o caso está sob acompanhamento do órgão.
Os amigos entregaram um dossiê com áudios, prints e imagens de internos e ex-internos da clínica, com relatos de maus-tratos, negligência e condições desumanas no local. Segundo eles, a clínica não possui licença para funcionar, informação confirmada em nota pela Prefeitura de Marechal Deodoro.



