Conteúdo do impresso Edição 1366

CASO BRASKEM

Defensoria denuncia MPF por defender sigilo sobre os dados

Órgão nega e diz que apenas questionou Prefeitura sobre eventual classificação quanto ao grau de sigilo previsto na LAI
INSTAGRAM
Ricardo Melro não esconde insatisfação com posicionamento do MPF
Ricardo Melro não esconde insatisfação com posicionamento do MPF

A Defensoria Pública de Alagoas (DPE) denunciou esta semana como comportamento equivocado a posição do Ministério Público Federal (MPF) em Alagoas em defender a possibilidade de classificação como “ultrassecretos, secretos ou reservados” dos dados geológicos e geotécnicos do Caso Braskem em Maceió.

A base de dados é mantida pela própria Braskem em um geoportal desde o início da tragédia ambiental, em 2018, provocada pela mineração de sal-gema na cidade, que provocou subsidências no solo e a destruição de cinco bairros residenciais na capital: Bebedouro, Bom Parto, Pinheiro, Mutange e parte do Farol.

A liberação desses dados é considerada imprescindível para aprofundamento e conclusão de análises técnicas sobre o caso apresentadas num relatório independente produzido por solicitação da Defensoria e com a participação de um grupo de cientistas brasileiros e estrangeiros como Magdalena Vassileva (PhD), Fábio Furlan Gama (Doutor em Ciência), Djamil Al-Halbouni (PhD), Mahdi Motagh (PhD) e Marcos Eduardo Ratwuig (Doutor em Ciência) entre outros. 

O relatório técnico-científico sobre o fenômeno de subsidência que provocou o afundamento do solo nos bairros foi apresentado em agosto de 2025, em audiência pública. O documento sugeriu a revisão do mapa, por parte da própria Braskem, das áreas atingidas pela mineração. O estudo foi iniciado em fevereiro de 2025, após articulação do Núcleo de Proteção Coletiva da Defensoria, que requisitou dados oficiais da Defesa Civil de Maceió para embasar a análise. 

A solicitação de acesso à base de dados foi apresentada em reunião nas dependências do MPF, em novembro de 2025. Porém, afirma a Defensoria, antes mesmo de qualquer manifestação dos órgãos técnicos ou da Braskem, o MPF se posicionou contra, afirmando que o pleito demandaria “amadurecimento”, afastando a possibilidade de acesso direto à plataforma integrada de dados. 

Em momento posterior, o acesso também foi recusado pela Defesa Civil Nacional e Defesa Civil do Município de Maceió sob argumento de não terem ingerência na plataforma da Braskem. Diante disso, a Defensoria Pública de Alagoas provocou formalmente o MPF na expectativa de que o órgão adotasse providências para viabilizar o acesso técnico às informações.

No entanto, a resposta veio em direção oposta: ao invés de defender maior abertura dos dados, o MPF passou a discutir justamente a possibilidade de restrição até então inexistente, de acordo com DPE.

“No Despacho nº 87/2026, o órgão ministerial afirma a necessidade de sigilo e questiona a Prefeitura de Maceió sobre eventual classificação dos dados quanto ao grau de sigilo previsto na Lei de Acesso à Informação (LAI), além da possibilidade de imposição de termos de confidencialidade para pesquisadores independentes”, informa a Defensoria. 

Na avaliação do defensor público Ricardo Antunes Melro, a situação causa perplexidade porque, ao longo de mais de oito anos do desastre, jamais se cogitou restringir acesso à principal base técnica do caso. Segundo ele, justamente no momento em que pesquisadores independentes de alto nível demonstram interesse em revisar metodologias, aprofundar estudos e eventualmente apontar inconsistências técnicas, surge a discussão sobre sigilo das informações. 

A Defensoria sustenta que há uma incoerência evidente: critica-se o relatório independente por suposta insuficiência de dados, mas, simultaneamente, impede-se o acesso integral às informações necessárias para aprofundar os estudos.

“Qual pesquisador sério, de reconhecimento internacional, se dedicará a um estudo dessa magnitude, sem qualquer finalidade comercial ou lucrativa, movido exclusivamente por interesse científico e compromisso social, para, ao final, ser impedido de divulgar suas conclusões em revistas e periódicos especializados? Cria-se, assim, um paradoxo evidente: busca-se rigor técnico, mas afastam-se aqueles que poderiam assegurá-lo”, afirma o defensor público Ricardo Melro.

MPF rebate defensor

Outro trecho de despacho do MPF chamou atenção da Defensoria. O documento afirma ser necessário debater o caráter sensível dos dados “principalmente quando terceiros estranhos à Administração Pública desejam acessá-los em tempo real”. Segundo a DPE, os “terceiros estranhos” mencionados seriam justamente os pesquisadores independentes interessados em analisar tecnicamente o fenômeno. 

A Defensoria argumenta, porém, que existe uma contradição elementar nessa lógica: a Braskem também não integra a Administração Pública. “Ora, a Braskem, com seus consultores, não só abriga e controla integralmente os dados, como também possui acesso amplo e irrestrito para produzir os estudos que lhe convenha. Pergunta-se: ela é Administração Pública ou terceira estranha?”, questiona o defensor.

Em resposta, o MPF afirma que não defendeu a imposição de sigilo sobre os dados relacionados ao Caso Braskem e que, tampouco determinou qualquer classif icação das informações somo “ultrassecretas, secretas ou reservadas”. 

Esclarece que o Despacho nº 87/2026 trata da necessidade da Prefeitura de Maceió e da Defesa Civil Municipal informarem formalmente se os dados geológicos e geotécnicos disponíveis em plataforma de monitoramento possuem alguma classificação legal de sigilo, nos termos da Lei de Acesso à Informação.

“Portanto, o despacho não classifica os dados como sigilosos, nem recomenda a imposição de sigilo. Por outro lado, o despacho reafirma os princípios da transparência e do amplo acesso à informação previstos na Lei de Acesso à Informação”.

Concentração de dados 

A Defensoria considera outro ponto especialmente grave em relação à plataforma de dados, que é a concentração do conjunto mais “sensível de informações técnicas sobre o maior desastre de mineração em área urbana do mundo continuar justamente na esfera do agente diretamente interessado na narrativa técnica do evento”. 

A DPE chega a comparar a situação à clássica metáfora da “raposa tomando conta do galinheiro”. Ou seja, a causadora do dano gerindo o próprio dano. Segundo o órgão, o interesse público recomenda caminho inverso: mais transparência, maior escrutínio técnico e ampliação do conhecimento científico independente sobre o fenômeno. 

O MPF, por sua vez, informa que requisitou esclarecimentos técnicos e jurídicos aos órgãos responsáveis pela gestão das informações para subsidiar a análise e deliberação futura sobre a forma adequada de acesso aos dados, inclusive pedidos de pesquisadores externos ao CAT, o Comitê de Acompanhamento Técnico sobre o Caso Braskem. 

“Importante destacar que os dados anteriormente solicitados ao CAT após definição de f luxo de compartilhamento de informações técnicas já foram disponibilizados, mas os pesquisadores optaram por não acessar 12 dos 13 documentos solicitados. Na sequência, a discussão passou a envolver pedido de acesso integral ao portal de dados geológicos e geotécnicos, questão que demandou esclarecimentos técnicos e jurídicos dos órgãos competentes quanto à possibilidade e a forma adequada de disponibilização dessas informações, sendo esse, portanto, o contexto do Despacho nº 87”, informou o MPF quando questionado pelo EXTRA.

Ainda segundo o MPF, em resposta ao ofício expedido, a Prefeitura de Maceió procedeu à análise jurídica da demanda, afirmando não haver classificação de sigilo, sendo necessário apenas “o cumprimento das formalidades administrativas de identificação e confidencialidade, as quais visam resguardar a integridade de um sistema de alerta voltado à proteção de vidas”, disse o órgão. 

Ricardo Melro comenta que a palavra final sobre o sigilo dos dados, agora, está nas mãos da Prefeitura de Maceió e do prefeito Rodrigo Cunha. “Será preciso decidir se a cidade seguirá o caminho da ampliação da transparência, do escrutínio técnico independente e do acesso público às informações sobre o desastre, ou se adotará uma política de blindagem, com restrição, sigilo e confidencialidade justamente quando pesquisadores independentes demonstram interesse em aprofundar a compreensão do fenômeno”. 

Segundo o órgão denuncia, após mais de oito anos do desastre, jamais se cogitou transformar a principal base de dados do Caso Braskem em material sigiloso. “A discussão surge exatamente no momento em que cientistas externos pedem acesso para revisar metodologias, validar conclusões e eventualmente apontar inconsistências técnicas. A decisão da Prefeitura terá impacto não apenas administrativo, mas científico, institucional e político”.

Consultores da Braskem no CAT

Além da questão do acesso à plataforma de dados da Braskem, a Defensoria Pública de Alagoas denuncia o fato do MPF ter validado a atuação de consultores particulares da Braskem no Comitê de Acompanhamento Técnico (CAT) e requisitou esclarecimentos formais à Defesa Civil Municipal. 

Em resposta, informa a DPE, foi encaminhada manifestação do Comitê de Acompanhamento Técnico, na qual afirma expressamente que a empresa GeoProjetos e a consultoria ACCMS, estão representadas, entre outros, pelos professores Luiz Guilherme de Mello e Tarcísio Barreto Celestino, que integram formalmente sua estrutura de assessoramento técnico desde 2020, sendo a GeoProjetos incorporada em março de 2021. 

“Trata-se dos mesmos profissionais e da mesma empresa que mantêm ou mantiveram vínculos de consultoria com a Braskem”, lembra a DPE.

De acordo com o órgão, mais grave, contudo, é a própria justificativa apresentada para a presença dessas consultorias no CAT. 

"Com efeito, os integrantes do CAT, na informação trazida pela Defesa Civil de Maceió, afirmam expressamente que “a composição e a estrutura de apoio técnico do Comitê foram definidas no Protocolo de Atuação apresentado nos autos do Procedimento Administrativo nº 1.11.000.000295/2021-18”, que tramita no MPF, acrescentando que tal estrutura foi posteriormente atualizada no âmbito desse mesmo procedimento. 

“Vale dizer: a Defesa Civil Municipal trouxe aos autos informações que trazem o Ministério Público Federal para o centro deste problema, na medida em que os próprios integrantes do CAT acabam por dividir com o Parquet a responsabilidade institucional pela incorporação desses consultores à estrutura técnica”, comenta o defensor Ricardo Melro. 

Em decorrência, afirma, evidenciaa-se que “parcela relevante da produção técnica utilizada para subsidiar decisões públicas vem sendo influenciada por consultores que, simultaneamente, mantêm relações profissionais com a empresa responsável pelo evento danoso, a Braskem, e com o poder público, situação chancelada e desenvolvida no âmbito de procedimento conduzido pelo Ministério Público Federal”.

Ricardo Melro lembra que, conforme informado pelo CAT, os professores Luiz Guilherme de Mello e Tarcísio Barreto Celestino participaram da reunião técnica realizada nas dependências do MPF, em novembro de 2025, na condição formal de consultores do próprio Comitê.

“Ocorre que a ata da mesma reunião registra que ao menos um deles também se apresentou, naquele encontro, como assessor da Braskem. Embora o registro formal mencione expressamente apenas um dos profissionais vinculados à Braskem, ambos são sócios e atuam conjuntamente na mesma estrutura consultiva (empresa ACCMS), o que evidencia unidade de atuação técnica. Na prática, estavam presentes na mesma reunião, nas dependências do Ministério Público Federal, simultaneamente vinculados ao âmbito público (CAT) e ao privado (Braskem), no contexto da mesma discussão técnica”. 

Na avaliação do defensor, esse dado assume especial relevância quando analisado em conjunto com os elementos anteriormente expostos. “De um lado, verifica-se a limitação de acesso à base de dados por pesquisadores independentes, seja pela não disponibilização integral das informações, seja pela introdução de condicionantes e potenciais restrições decorrentes da classificação de sigilo. De outro, constata-se que contribuições técnicas oriundas de consultores que mantêm vínculos profissionais com a empresa responsável pelo evento são formalmente incorporadas à estrutura de assessoramento técnico que subsidia as análises institucionais”, critica.


Encontrou algum erro? Entre em contato