direito da mulher

Pesquisadoras alertam que ataques ao voto repetem discurso histórico

Especialistas afirmam que declarações reproduzem argumentos utilizados desde o século XIX
Tomaz Silva/Agência Brasil
 Pesquisadoras alertam que ataques ao voto feminino repetem discurso histórico e ameaçam direitos das mulheres
Pesquisadoras alertam que ataques ao voto feminino repetem discurso histórico e ameaçam direitos das mulheres

Os recentes ataques ao voto feminino no Brasil reacenderam o debate sobre a permanência de discursos machistas que historicamente buscaram limitar a participação das mulheres na vida política. Pesquisadoras ouvidas pela Agência Brasil afirmam que as declarações reproduzem uma lógica patriarcal presente desde a formação da República e representam uma reação aos avanços conquistados pelas mulheres ao longo de mais de um século de luta por direitos.

Entre os episódios citados está a declaração do influenciador Paulo Figueiredo, que afirmou que "mulher vota estatisticamente mal, principalmente as solteiras", comparada por estudiosas a discursos proferidos por parlamentares durante a Assembleia Constituinte de 1891, quando o sufrágio feminino foi rejeitado sob o argumento de que a participação política retiraria das mulheres sua suposta vocação para o ambiente doméstico. Segundo especialistas, a semelhança entre os discursos demonstra que a resistência ao protagonismo feminino continua presente na sociedade brasileira.

Para a professora Fernanda Abreu, da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), qualquer manifestação que questione o direito das mulheres ao voto afronta diretamente a Constituição Federal, que assegura o sufrágio universal e proíbe qualquer forma de discriminação por motivo de sexo. Ela afirma que, além de inconstitucionais, discursos dessa natureza podem configurar ilícitos e já motivam discussões sobre medidas a serem adotadas junto à Procuradoria-Geral da República.

A pesquisadora Cibele Tenório, da Universidade de Brasília (UnB), destaca que os ataques atuais se inserem em um contexto de machismo estrutural e representam uma tentativa de desestimular a participação política feminina. Ela lembra que a conquista do voto foi resultado de décadas de mobilização liderada por sufragistas como Almerinda Gama, Leolinda Daltro e Bertha Lutz, que enfrentaram resistência institucional, campanhas de ridicularização e barreiras legais para garantir o direito das mulheres à cidadania plena.

Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que, nas eleições de 2026, as mulheres representam a maioria do eleitorado brasileiro, com mais de 83,8 milhões de eleitoras aptas a votar. Para as estudiosas, justamente por esse protagonismo numérico, declarações que desqualificam o voto feminino podem funcionar como instrumento de intimidação política e integrar um movimento de reação aos avanços obtidos pelas mulheres nas últimas décadas.

As pesquisadoras ressaltam que o direito ao voto feminino foi oficialmente garantido pelo Código Eleitoral de 1932 e consolidado na Constituição de 1934, tornando o Brasil um dos primeiros países do Ocidente a assegurar esse direito. Elas defendem que preservar essa conquista exige investimentos em educação, fortalecimento da participação política das mulheres e valorização da memória das líderes que protagonizaram a luta pelo sufrágio feminino.

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