ECONOMIA
Dólar se aproxima de R$ 5,00 com exterior após indicadores fracos na China
Ibovespa encerrou o dia em baixa de 0,55%, aos 116.171,42
O dólar à vista emendou nesta terça-feira, 15, a terceira sessão consecutiva de alta no mercado doméstico de câmbio e voltou a se aproximar do nível de R$ 5,00, em mais um dia de fortalecimento da moeda norte-americana em relação a divisas emergentes e de países exportadores de commodities. Dados fracos da indústria e do varejo na China divulgados aumentaram as preocupações com a desaceleração da segunda maior economia do mundo, que não arrefeceram nem mesmo com a decisão do Banco do Povo da China (PBoC) de reduzir várias de suas taxas de juros. Além disso, houve nova rodada de alta das taxas dos Treasuries longos à tarde, o que pressionou ativos de risco mundo afora.
Como na segunda-feira, o real apresentou nesta terça o segundo pior desempenho entre seus principais pares, apenas atrás do peso colombiano. Mesmo com a rodada forte de depreciação das moedas latino-americanas em agosto, o peso colombiano ainda apresenta ganhos de aproximadamente 15% em relação ao dólar no ano, seguido pelo peso mexicano (12%) e pelo real (5%).
O diretor de investimentos da Alphatree Capital, Rodrigo Jolig, observa que o mercado estava tecnicamente bastante posicionado em "moedas de carrego" no fim do verão no Hemisfério Norte, em referência a divisas de países latino-americanos com taxas de juros elevadas. Segundo Jolig, havia a expectativa de que o governo chinês adotaria medidas mais fortes para estimular o crescimento neste ano e que as taxas dos Treasuries permaneceriam comportadas.
"Mas os dados da China estão decepcionante bastante. E os yields dos Treasuries estão abrindo, com a perspectiva de juro neutro subindo e taxas de juros mais altas por mais tempo nos EUA. Como o mercado estava tecnicamente muito posicionado no carrego, houve uma correção", diz o diretor da Alphatree. "Esse movimento de depreciação está ainda bem controlado. Mas já começa haver preocupação de que possa haver uma correção maior em algum momento. O principal ponto de desconforto são os Treasuries longos."
Em alta firme na comparação com divisas emergentes, o dólar apresentava no fim da tarde ligeiro avanço em relação ao euro e ao iene, o que levava o índice DXY a trabalhar acima da linha dos 103,200 pontos, próximo da máxima da sessão, aos 103,274 pontos. A taxa da T-note de 10 anos acelerou à tarde e voltou a superar o nível de 4,20%. Indicadores norte-americanos divulgados pela manhã mostraram sinais divergentes. As vendas no varejo cresceram 0,7% na margem em julho, acima do esperado (0,4%). De outro lado, o índice de atividade industrial Empire State caiu para -19,0 em agosto, quando a previsão era de baixa de 0,6.
Embora o ambiente externo esteja por trás da onda de depreciação do real, operadores citam o desconforto com o cenário doméstico como um fator que contribui para recomposição de posições cambiais defensivas. Há preocupação com os desdobramentos da rusga entre o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL) e o atraso na votação final do arcabouço fiscal.
Lira e líderes partidários se reuniram nesta terça e definiram que o encontro para discutir as alterações feitas pelo Senado no projeto de lei do arcabouço fiscal será na próxima segunda-feira, 21, segundo o relator da matéria, deputado Cláudio Cajado (PP-BA).
O episódio do "apagão" de energia que atingiu quase todos os Estados brasileiros pela manhã foi monitorado, mas não teve influência na formação da taxa de câmbio.
Taxas de juros
Em mais um dia de cautela nos mercados internacionais, os juros futuros avançaram nesta terça-feira também afetados por questões domésticas. Do exterior, novos dados frustrantes da economia da China e vendas do varejo acima do esperado nos Estados Unidos reforçaram a postura defensiva dos agentes. Internamente, saiu o temido, mas visto como necessário, aumento dos preços de combustíveis, num dia que ainda teve apagão no País e mais ruídos envolvendo a relação entre a Câmara e o Executivo. Assim, as apostas para a política monetária ficaram mais conservadoras
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2024 fechou em 12,460%, de 12,452% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2025 subiu de 10,45% para 10,50%. O DI para janeiro de 2027 projetava taxa de 10,20% (10,15% na segunda-feira) e a do DI para janeiro de 2029 avançava para 10,72%, de 10,68%.
Apesar do combo negativo tanto aqui quanto no exterior, a alta das taxas foi limitada, porque a curva já tinha mostrado na segunda abertura relevante e, ainda os preços das commodities caíram, o que suaviza a pressão vinda do dólar, que nesta terça flertou com o nível de R$ 5 (R$ 4,9977 na máxima), sobre a inflação. O petróleo fechou em baixa, assim como os grãos, mas o minério de ferro subiu.
O estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, afirma que a abertura da curva local se dá sobretudo pela cautela vinda do exterior. Na esteira dos recentes números fracos da balança comercial, da deflação e dos problemas no setor imobiliário, na segunda saíram dados decepcionantes da indústria na China, que preocupam o investidor quanto ao fôlego do país asiático. "Mesmo o corte de juros realizado pelo BC não foi suficiente para impedir um novo dia de aversão ao risco", disse. Nos EUA, a preocupação é inversa, com dados forte do varejo sugerindo economia aquecida e que o Federal Reserve poderá retomar o aperto monetário após a esperada pausa em setembro.
No Brasil, a Petrobras anunciou reajustes de 16,2% para a gasolina e de 25,8% para o diesel, a partir da quarta-feira. Para a inflação ao consumidor, o que mais afeta é a gasolina, que vai subir R$ 0,41 por litro, com impacto no IPCA estimado em cerca de 0,40 ponto porcentual, dividido entre agosto e setembro
A escalada do petróleo somada à piora do câmbio nos últimos dias fez disparar a defasagem ante os preços internacionais e a elevação do preço interno era vista como inevitável. De todo modo, acabou inibindo as apostas na aceleração do ritmo de cortes da Selic no Copom de setembro. De acordo com Rostagno, os DIs embutiam nesta tarde -56 pontos-base para a Selic no próximo encontro, ou 76% de chance de nova dose de 0,50 ponto porcentual contra 24% de probabilidade de queda de 0,75. Na segunda-feira, esse quadro era de 70% e 30%, respectivamente.
Em evento na sede da Frente Parlamentar do Empreendedorismo (FPE), o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou que tentativas de se reduzir a Selic no passado em um processo pouco crível tiveram o efeito inverso, gerando aumento de juros. Ele alertou para o risco de se cortar os juros curtos e provocar uma elevação na curva de juros. "Se eu não consigo fazer uma queda de juros com credibilidade, eu não vou atingir meu objetivo. O objetivo da queda de juros é gerar liquidez", afirmou.
Outro ponto de atenção é o aumento do desconforto com os ruídos políticos, acentuados na segunda-feira pelas declarações do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, segundo o qual a Câmara está com um poder que ele nunca tinha visto. O presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), e líderes partidários remarcaram a reunião para discutir as alterações feitas pelo Senado no projeto de lei do arcabouço fiscal para próxima segunda-feira, 21, segundo o relator da matéria, deputado Cláudio Cajado (PP-BA). De acordo com o parlamentar, ainda não existe "compromisso" para o prazo de votação do projeto.
Bolsa
O aumento anunciado pela Petrobras, de manhã, para os preços da gasolina e do diesel contribuía para o desempenho das ações da estatal nesta terça-feira - quase totalmente revertido, contudo, no fechamento (ON -0,21%, PN +0,72%). Mesmo quando ambas as ações ainda subiam, o sinal não era o suficiente para impedir que o Ibovespa chegasse, nesta terça, à 11ª queda consecutiva, igualando séries negativas de fevereiro de 1984 e de junho de 1970.
A referência da B3 oscilou dos 116.033,15, do fim da tarde, aos 117.697,25 pontos, e encerrou o dia em baixa de 0,55%, aos 116.171,42, fechando assim a primeira quinzena deste agosto sem obter sequer um ganho diário no mês. O giro financeiro subiu a R$ 26,6 bilhões nesta terça-feira.
Na semana, o Ibovespa recua 1,60% no combinado das duas primeiras sessões, colocando as perdas do mês a 4,73% e limitando o avanço do ano a 5,87% - na última sessão de julho, o Ibovespa, então bem perto dos 122 mil pontos, acumulava ganho de 11,13% em 2023. De lá para cá, a aversão a risco se impôs essencialmente desde o exterior com a retração do investidor estrangeiro, que vinha se mantendo na ponta compradora na B3, adquirindo até então, em geral, dos institucionais e domésticos
A sequência de dados ruins sobre o ritmo de atividade e o recente comportamento deflacionário dos preços na China fizeram acender a luz amarela para a segunda maior economia do globo, a que o Brasil e a B3 têm exposição significativa pelo peso das commodities para o País como para a Bolsa. Incertezas quanto ao grau de ajuste da política monetária nos Estados Unidos - ou seja, até que ponto o Federal Reserve ainda poderá elevar a taxa de juros de referência, tendo em vista os dados disponíveis até o momento - também resulta em ajustes nos Treasuries e nas ações listadas em Nova York.
Nesta terça, os três principais índices de Nova York fecharam o dia em baixa, acentuando a correção em direção ao fechamento (Dow Jones -1,02%, S&P 500 -1,16%, Nasdaq -1,14%) - levando consigo o Ibovespa -, com perdas no mês que chegam agora a 4,98% para o que concentra as ações de tecnologia (Nasdaq), mais expostas aos juros americanos. A sessão desta terça-feira também foi negativa para as principais bolsas europeias.
Na China, dados de produção industrial, vendas do varejo e investimentos em ativos fixos vieram abaixo do esperado, alimentando os receios em torno da desaceleração econômica. Nos Estados Unidos, por sua vez, índice de atividade industrial também ficou aquém da previsão, e apesar de as vendas no varejo norte-americano terem surpreendido positivamente, a avaliação de parte do mercado, ainda que minoritária, é de que o resultado tende a ser insuficiente para mudar expectativa por novo aumento de 25 pontos-base nos juros do Federal Reserve, em setembro.
Em evento organizado pela XP em Brasília, a head de economia para América Latina do JPMorgan, Cassiana Fernandez, disse nesta terça que o banco revisou a projeção de crescimento da China em 2024, para 4%. Para os Estados Unidos, porém, a atividade não é vista mais como um problema e o foco, agora, está na inflação, acrescentou Cassiana. Segundo ela, o Fed provavelmente terá de manter a taxa de juros em patamar elevado por tempo mais longo do que o imaginado inicialmente.
No Brasil, ainda que o modo bombeiro tenha sido acionado no mesmo dia, os investidores seguem atentos a eventuais sequelas no relacionamento do governo com a Câmara dos Deputados, após o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ter questionado o que considera como excesso de poder na Casa.
Com a alta do dólar na sessão, que o reaproximou do limiar de R$ 5, destaque para a queda nas ações das companhias aéreas Gol (-12,50%) e Azul (-6,60%), na ponta perdedora do Ibovespa na sessão. No canto oposto, Vibra (+7,77%), BRF (+6,90%) e Natura (+5,48%). Entre as ações de maior liquidez na B3, o dia foi ainda negativo para Vale (ON -0,99%) e para o setor metálico (CSN ON -0,65%), assim como para os grandes bancos, à exceção de Bradesco PN (+0,26%).
Nesta terça-feira, o presidente do Banco Central disse que o reajuste nos combustíveis, promovido pela Petrobras, terá impacto na inflação - ele estima que possa afetar o IPCA em 0,40 ponto porcentual, entre agosto e setembro. "Hoje teve um aumento grande em combustíveis. O impacto da gasolina é direto, na cadeia. Ainda terá algumas revisões com o reajuste de hoje", disse Campos Neto.
O presidente do BC disse também que o Brasil tem feito um "pouso suave" na inflação com pouco custo para o crescimento da economia, e voltou a citar revisões, para cima, nas projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2023. Campos Neto observou, no mesmo evento, que o Brasil é um dos poucos países com inflação encaixada para os próximos anos.
Em nota, a Ativa Investimentos avaliou como positivo o aumento dos preços do diesel e da gasolina anunciado nesta terça-feira pela Petrobras, da ordem de 25% e 16%, respectivamente. A corretora, porém, manteve a recomendação neutra para os papéis da estatal. O reajuste vale a partir da quarta, 16, nas refinarias da companhia.
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