MINISTRO DO STF

Revista Piauí revela ligações entre Vorcaro e entorno de Nunes Marques

Mensagens e encontros são detalhados em investigação sobre o Banco Master
MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL
Ministro Kassio Nunes
Ministro Kassio Nunes

Uma reportagem publicada pela revista Piauí revelou uma série de contatos entre o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), e pessoas próximas ao ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF). A investigação, baseada em mensagens de WhatsApp, registros telefônicos, documentos judiciais e dados financeiros, aponta encontros, pedidos de favores e transferências de recursos durante o período em que processos de interesse do banco tramitavam na Justiça.

Segundo a Piauí, Newton Ramos e Vorcaro trocaram 463 mensagens e realizaram 40 chamadas pelo WhatsApp entre março de 2024 e abril de 2025. Em uma das conversas, o desembargador convidou o banqueiro para um encontro com o ministro: "Queria ver se tomávamos um vinho eu, vc e o Min Kassio". Em outra ocasião, perguntou: "Consegue almoçar com nosso amigo amanhã? Eu, vc e ele." A investigação identificou pelo menos nove encontros articulados por Ramos, embora nem todos tenham sido confirmados.


Outro ponto da reportagem envolve Kevin Marques, filho do ministro, que participou de duas reuniões na sede do Banco Master, em São Paulo, em 2024. Conforme dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) citados pela piauí, o banco transferiu R$ 6,6 milhões à empresa Consult entre agosto de 2024 e julho de 2025.

Desse valor, aproximadamente R$ 282 mil foram repassados a Kevin. Em uma mensagem enviada a Vorcaro, o então diretor jurídico do banco, Luiz Rennó, compartilhou o contato do filho do ministro e perguntou: "Esse aqui – 500 mil mês – mantém?". As conversas não esclarecem se o valor mencionado correspondia a pagamentos destinados a Kevin.

Os contatos ocorreram durante a tramitação de processos relacionados a precatórios de usinas de açúcar e álcool adquiridos pelo Master, cuja carteira era estimada em R$ 10 bilhões pela Polícia Federal. Em outubro de 2024, Nunes Marques mudou seu posicionamento anterior e votou favoravelmente à Destilaria Alcídia, desempatando o julgamento na Segunda Turma do STF por 3 votos a 2. Após o resultado, Vorcaro comemorou em uma mensagem: "Ganhamos STF!". Segundo a piauí, Rennó também enviou ao banqueiro uma mensagem com a expressão "Dominado aqui", acompanhada do contato de Kevin Marques.

A investigação também revelou um contrato entre o Master e o escritório de advocacia de Camilla Ramos, esposa do desembargador. O documento previa honorários de 5% sobre os benefícios econômicos de doze ações envolvendo usinas, que somavam aproximadamente R$ 8,5 bilhões. O escritório poderia receber até R$ 427 milhões. Em uma conversa sobre processos de interesse do banco no TRF1, Vorcaro perguntou a Newton Ramos se havia novidades. O desembargador respondeu: "Por enquanto não, amigo", acrescentando: "Mas to em cima."

As mensagens também registram cobranças relacionadas a pagamentos. Em agosto de 2025, Rennó informou a Vorcaro que havia uma pendência envolvendo a Consult e afirmou: "Muito importante tbem." Posteriormente, compartilhou novamente o contato de Kevin Marques e escreveu: "Esse aí. Único 'meu' que faltou." Pouco depois, comunicou: "Foi pago." A reportagem não demonstra que os pagamentos tenham sido realizados como contrapartida por decisões judiciais.

Procurado pela Piauí, Nunes Marques negou irregularidades e afirmou que "nunca autorizou ninguém a falar em nome dele". O ministro também declarou que nunca recebeu pedidos de Vorcaro e negou conflito de interesses no julgamento da Destilaria Alcídia. Kevin Marques, por sua vez, afirmou que "não prestou serviço ao Banco Master nem recebeu dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro". Segundo ele, os valores recebidos da Consult eram referentes a serviços jurídicos nas áreas tributária e administrativa.

Newton Ramos declarou que não interferiu em processos relacionados ao escritório da esposa e afirmou que os diálogos com Vorcaro eram de caráter privado, sem relação com sua atuação como magistrado. Camilla Ramos e seu escritório confirmaram a relação profissional com o Master desde 2024, mas negaram atuação no processo da Destilaria Alcídia e afirmaram que não receberam honorários de êxito previstos no contrato. As informações foram reveladas pela revista piauí, que reconstituiu os contatos e as movimentações financeiras a partir de documentos e mensagens obtidos durante a apuração.


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