ELEIÇÕES 2020

Coronelismo político continua vivo no interior de Alagoas

Disputa de poder entre famílias tradicionais é a principal razão para histórico de violência
Por Bruno Fernandes 13/11/2020 - 16:37
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Cortesia ao Jornal Extra de Alagoas
Carro do então vereador Neguinho Boiadeiro foi alvejado
Carro do então vereador Neguinho Boiadeiro foi alvejado

Alagoas é um dos estados com mais registros de crimes com ligações políticas, segundo dados divulgado nesta semana em um levantamento conduzido pelas organizações não-governamentais (ONGs) Terra de Direitos e Justiça Global. Os números revelam ainda que mesmo com as restrições impostas às campanhas municipais pela pandemia do novo coronavírus, 2020 é o quarto ano mais violento da política brasileira no período democrático.

A pesquisa mapeou 327 casos de violência política em todo o País a partir de notícias extraídas de veículos de comunicação. Foram registrados 125 assassinatos e atentados, 85 ameaças, 33 agressões, 59 ofensas, 21 invasões e 4 casos de prisão ou tentativa de detenção de agentes políticos. De acordo com o relatório, o Nordeste registra o maior número de casos, 55 ocorrências no total. Maranhão e Ceará tiveram 11 registros cada, seguidos de Pernambuco (8), Paraíba (7), Bahia e Alagoas (6), Rio Grande do Norte (3), Piauí (2) e Sergipe (1).

Em Alagoas, nos últimos quatro anos foram registrados dois assassinatos e um atentado na cidade de Batalha, além de um assassinato em Craíbas. O número de ameaças chegou a dois, mas esses dados podem sofrer mudanças até o dia do pleito neste ano, marcado para o domingo, 15.

O caso mais recente de ameaça, por exemplo, não está incluso no último relatório pois aconteceu na noite de sábado, 7, quando o filho do atual prefeito de Olivença, pequeno município sertanejo, foi jurado de morte com uma arma encostada em sua boca e agredido no rosto. Dayvid Pereira Silva, conhecido pelo apelido de Deivinho, registrou o ocorrido na 1ª Delegacia Regional de Delmiro Gouveia.

Saindo do campo da ameaça e indo às vias de fato, um dos casos mais emblemáticos dos últimos anos foi o assassinado do vereador da cidade de Batalha Adelmo Rodrigues de Melo, conhecido como Neguinho Boiadeiro, ocorrido em novembro de 2017. Ele foi alvejado por disparos de arma de fogo em seu carro, junto com seu segurança particular. O assassinato voltou a desencadear uma onda de violência política já conhecida na cidade.

No mês de dezembro do mesmo ano, o vereador Tony Carlos Silva de Medeiros, conhecido como Tony Pretinho, foi morto na porta de sua residência no mesmo município. José Márcio Cavalcante, conhecido como Baixinho Boiadeiro e filho de Neguinho Boiadeiro, foi apontado como um dos autores do crime. A morte teria sido motivada por vingança. A família de Neguinho Boiadeiro, no entanto, ainda aguarda a elucidação do caso e a identificação dos mandantes e autores do crime.

De acordo com o relatório, nos casos em que foi possível a identificação de suspeitos, todos os apontados como responsáveis pelos assassinatos e atentados são do sexo masculino. Ainda segundo o documento, o método mais comum de assassinato em Alagoas é através de arma de fogo e tem como maioria das vítimas vereadores ou pré-candidatos a cargos políticos. Dentre os casos mapeados, destaca se a forma rotineira com que a extrema violência é utilizada na execução de assassinatos e atentados. A violência é excessiva em diferentes contextos, quer em crimes motivados por disputas políticas, partidárias e econômicas, quer em situações em que o crime é motivado por ódio e discriminação a determinados grupos.

Vale ressaltar que o levantamento não inclui casos passionais e latrocínios envolvendo políticos. A base principal do trabalho é formada por informações de tribunais de Justiça, cartórios, organizações de direitos humanos e canais de partidos e entidades comunitárias.

Outro exemplo dessa violência em Alagoas aconteceu no dia 2 deste mês. O ex-vereador José Eugênio de Almeida, do município alagoano de Paulo Jacinto, também foi assassinado enquanto almoçava em casa com a família. José Eugênio atuava na campanha do filho Dedé de Almeida (DEM) à Câmara Municipal.

No Brasil, ao longo do período monitorado, 1.574 pessoas foram mortas por conflitos políticos. O monitoramento do revelou também que, de janeiro até agora, no Brasil ocorreram 81 assassinatos motivados por disputas de poder no País. Desde a Lei de Anistia, em 1979, os anos de eleições para prefeitos e vereadores em 2016 (100 mortes), 2012 (94) e 2008 (82) registraram os maiores números de homicídios na área.

Coronelismo é a resposta

O histórico de violência em Alagoas não é recente. Pelo contrário, é antigo e data dos tempos do coronelismo muito presente em cidades do interior durante as décadas de 40 e 50 e que, em algumas cidades, duram ou deixaram marcas permanentes até hoje. A análise é do cientista político Marcelo Bastos, segundo o qual antigas famílias no poder causam esse tipo de violência. “Alagoas colhe o que aconteceu no passado”, explica.

“Não é de hoje que temos essa fama a nível nacional com crimes de mando. Nas décadas de 50, 60 isso acontecia muito devido à rivalidade entre famílias tradicionais que tínhamos na política alagoana e devido à impunidade. Na verdade, tínhamos uma impunidade que campeava e quando a impunidade existe as coisas não têm limite”, afirma Marcelo. “Era normal vermos deputados sendo assassinados e emboscadas no interior”.

Analista político, Marcelo Bastos

Segundo o cientista, a maior prova de que o passado ainda perdura existe no mapeamento político de Alagoas. “Se mapearmos o estado todo, na maioria das cidades sempre existe duas ou três famílias tradicionais que ficam se revezando no poder e em certas épocas chegam às vias de fato”.

Devido ao histórico de violência também nos dias de pleito, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou que as Forças Armadas auxiliem as forças de segurança locais em diferentes cidades, durante o primeiro turno das eleições municipais. A relação dos municípios, no entanto, não foi divulgada.

Apresentada pelo Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas, a solicitação de apoio das forças federais visa “garantir o livre exercício do voto, bem como a normalidade da votação e da apuração dos resultados das eleições”. Segundo o presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, as localidades que receberão apoio federal para garantir que o processo eleitoral transcorra de forma ordeira e tranquila “apresentam histórico de conflitos em pleitos anteriores ou de conflitos entre facções criminosas, além de reduzido efetivo policial local e difícil acesso às algumas das localidades”.

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