ENTREVISTA

Djonga: Milton Nascimento, Maceió e o dever do rap em entrevista exclusiva

Ativista na luta antirracista, rapper se apresenta neste sábado em Maceió
Por Nara Almeida - Estagiária 15/05/2026 - 18:10
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Reprodução/Instagram
"A cada ano eu tenho mais vontade do próximo projeto" diz Djonga ao EXTRA
"A cada ano eu tenho mais vontade do próximo projeto" diz Djonga ao EXTRA

Um dos nomes mais influentes do rap nacional atualmente, desde o começo, Djonga logo se mostrou como um artista que impactaria a cena. Seu álbum de estreia “Heresia” lançado em 2017 foi um marco. Apreciado pela crítica e pelo público pela identidade inovadora e mensagens incisivas com teor de protesto político.

Ativista na luta antirracista, muitas de suas faixas são consideradas hinos do movimento. Pautas como protagonismo negro e críticas ao sistema político do País são debatidos também fora dos palcos.

O nome do novo álbum “Quanto mais eu como, mais fome eu sinto", revisita seu passado difícil em que chegou a sofrer com a escassez. Agora, como artista consagrado, faz um paralelo com outros tipos de fomes, mais simbólicas e espirituais. Nas composições, explora temas como ancestralidade, desigualdade social, racismo, sucesso e autoconhecimento.

As faixas trazem participações de gigantes da música brasileira, como o também mineiro Milton Nascimento, além de Samuel Rosa e Los Hermanos.

Viajando o país com a turnê de seu oitavo álbum “Quanto mais eu como, mais fome eu sinto", em entrevista ao EXTRA, o rapper mineiro reflete sobre música com Milton Nascimento, começo da carreira, fome de fazer música, racismo e o dever social do rap.

Maceió se tornou um lugar importante para ele. O artista confessou estar ansioso para se apresentar e mandou um recado aos fãs. O show acontece neste sábado, 16, na Space, no estacionamento do Maceió Shopping, na Mangabeiras.

EXTRA: Você é uma pessoa politizada e chegou a cursar história, as letras das suas músicas transmitem isso. Você acredita que o rap é inseparável do dever político e social?

Djonga: Acho que a gente como como gente no mundo, como ser é inseparável desse dever político e social. É natural, a gente só tá aqui como sociedade e como ser humano, porque a gente fez muita política, porque a gente debateu muito vários temas que são caros para gente durante séculos e séculos. Então, tem hora que até me incomoda um pouco colocar só o rap nessa posição, porque fica parecendo a gente fosse uma uma classe à parte da sociedade de um jeito meio negativo, tá ligado? Nós somos só as pessoas que talvez entendam um pouco mais da importância disso. Mas se você faz arte, de um modo geral, você tem que estar envolvido nisso. Na verdade, mais do que se você faz arte, se você é gente no mundo, é importante.

EXTRA: A faixa com o Milton Nascimento é uma das mais marcantes do álbum. Pode nos contar um pouco da história por trás desse convite e como foi o processo criativo? O que Milton Nascimento significa para você?

Djonga: Eu e o Milton, a gente começou nossa relação ali de troca bem tímida em 2017, quando eu lancei o Heresia. E nesse processo ali para 2018, final de 2018 e nem 19, o Agostinho tinha me chamado para fazer um projeto com o Milton.

E eu fiquei, tipo assim, falei: "Como que eu somo na carreira de um cara desse tamanho? Como que eu faço uma parada que não seja qualquer coisa?”

Foi muito tempo depois, se for pensar bem. De 2025 a 2018, quase 7 anos depois. Mas a parada saiu do jeito mais mais lindo. Quando eu fiz o convite, ele falou: "Óbvio? Estou esperando.” E o Tofani fez a melodia do refrão. A gente canetou ali, na vibe mais parecida do que a gente conseguia chegar do Milton. E lá no dia foi a coisa mais linda do mundo, foi emocionante estar no estúdio com cara daquela idade, com tanta vontade, com tanta garra de fazer música.

EXTRA: Em 2025, você lançou o álbum Quanto Mais Eu Como, Mais Fome Eu Sinto. Queria pensar a fome aqui de forma mais simbólica. Relembrando o início da carreira, do que você tinha mais fome naquela época? E agora, que você já é um artista consolidado, o que mudou na sua fome?

Djonga: Eu não sei, eu acho que essa fome tá no sentido simbólico. Graças a Deus não falta nada para mim materialmente falando, mas parece que cada ano eu tenho mais vontade do próximo projeto, da próxima música, tá ligado? Eu acho que o que muda é isso. Quanto mais anda para frente, mas parece que tá faltando alguma coisa. É num sentido quase metafísico, sabe? Não é uma coisa exatamente material, porque material, quando eu conquistei quase tudo que eu queria.


EXTRA: Recentemente, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais homenageou você e te presenteou com uma placa que reconheceu sua trajetória pela luta contra o racismo e valorização da cultura negra. Pra você, o que esse reconhecimento significa?

Djonga: Esse reconhecimento da assembleia, eu acho que não devia ser só para mim não, devia ser para tudo quanto é cidadão que constrói a cidade que a gente vive. O povo que vota para a galera tá lá, e de alguma forma no meu discurso eu quis deixar isso claro porque sou muito grato ao carinho que a Ana Paula teve comigo, mas é uma homenagem que nosso povo merece muito mais e em atitudes dentro da política, enfim. Nós estamos aqui para fazer esse meio do caminho quando der também, sabe? E para minha família foi um momento maravilhoso. Eu acho que é muito orgulho para uma mãe, para uma avó, para um pai ver o filho ali naquela situação, sabendo de onde a gente veio.

EXTRA: Você esteve aqui em 2017, há quase 10 anos, quando estava no começo da carreira. Que recordações você tem daquela época e o que o público pode esperar para o show de sábado?

Djonga: O Sabadão vai ser lindo. Eu tô muito ansioso. Maceió é um lugar muito importante para mim. Já fui aí algumas vezes. Olha que louco, você falando de 2017, primeira vez que eu fui aí, mas acho que já foi mais umas duas ou três. Tenho muitos amigos aí, amigos que passaram a fazer parte da nossa família e sempre que eu vou aí, sou muito bem recebido, me divirto bastante. E tô assim ansioso para fazer esse show. O que a galera pode esperar é que a gente vai apresentar todas as músicas do álbum. É uma proposta diferente dos outros shows, porque quando eu fui era mais eu e DJ só, agora a gente tem coral, tem sopro, performance, a parada é diferente, telão, imagem. A gente preparou esse show com muito carinho e vamos passar pelos clássicos também. Eu acho que mesmo quando você lança um disco novo ou um projeto novo, você não pode esquecer dos clássicos. Então, os clássicos todos vão estar lá, os hits vão estar lá. A gente vai se divertir sem hora para acabar. Só fala comigo.

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