alerta de analista

Apoio de Javier Milei a Flávio com sua visita ao Brasil 'é arriscado'

"É evidente que Milei decidiu conviver com essas forças conservadoras", diz Oscar Laborde
© Foto / X / @JMilei
Javier Milei
Javier Milei

Milei vai visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está em prisão domiciliar, e apoiar a candidatura de Flávio, no Brasil, em uma viagem que também inclui as posses de Keiko Fujimori no Peru e de Abelardo de la Espriella na Colômbia. "Participar de campanha sendo presidente de outro país é arriscado", disse um especialista à Sputnik.

O presidente argentino Javier Milei está intensificando a construção de alianças ideológicas em nível regional: ele apoiará a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no Brasil, comparecerá às posses de Keiko Fujimori no Peru e de Abelardo de la Espriella na Colômbia e se reunirá com Daniel Noboa no Equador para avançar nos acordos bilaterais pendentes entre os dois países.

A parada mais significativa será no Brasil, em 25 de julho. Milei visitará São Paulo para a proclamação do filho de Bolsonaro como candidato à presidência — que terá como principal adversário o presidente Luiz Inácio Lula da Silva — e, em seguida, viajará para Brasília para visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2023), que está em prisão domiciliar humanitária (em razão de problemas de saúde) após ser condenado a 27 anos de prisão por seu papel na tentativa de golpe que se seguiu à sua derrota eleitoral em 2022.

A visita ocorre em um momento crucial de sua situação jurídica. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, prorrogou indefinidamente sua prisão domiciliar por razões humanitárias uma semana antes de Milei confirmar a viagem.

O anúncio gerou uma reação imediata do governo brasileiro. O secretário-geral da Presidência, Guilherme Boulos, publicou uma crítica direta nas redes sociais: "Ótima notícia! Javier Milei anunciou que virá ao Brasil para participar da campanha de Flávio Bolsonaro. Ele é o presidente mais impopular da América Latina. O que ele pensa que tem para ensinar ao povo brasileiro?"

A medida acarreta um custo diplomático potencialmente alto. O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina, e a coordenação bilateral é fundamental para setores como o automotivo e o energético. Uma possível mudança de governo em Brasília alteraria o cenário do Mercosul, mas, até lá, a relação com Lula acumula tensões sem um canal institucional ativo entre os dois presidentes.

A agenda continua em 28 de julho, quando Milei viaja a Lima para a posse de Keiko Fujimori como presidente do Peru. Após sua vitória no segundo turno, confirmada no dia 3 de julho, o argentino foi um dos primeiros chefes de Estado a parabenizá-la e conversou com ela no mesmo dia para anunciar uma "nova etapa" nas relações entre os dois países.

A próxima parada será o Equador, onde Milei se reunirá com o presidente Daniel Noboa para avançar nos acordos de cooperação em comércio, segurança e investimento que estão pendentes desde a visita de Noboa a Buenos Aires em agosto de 2015. Em seguida, em 7 de agosto, ele chegará a Bogotá para a posse de Abelardo de la Espriella, após sua vitória nas eleições colombianas.

Uma jogada arriscada?

"É evidente que Milei decidiu se aproximar e conviver com essas forças conservadoras", disse Oscar Laborde, analista internacional e diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos (IDEAL), à Sputnik. "Participar de uma campanha eleitoral enquanto se é presidente de outro país é arriscado. Além disso, o líder desse outro país é seu adversário", alertou.

Laborde questionou a ideia de qualquer coordenação real entre governos com ideologias semelhantes. "Não há qualquer ideia de coordenação entre si; em vez disso, todos se coordenam radialmente com os Estados Unidos", argumentou. A esse respeito, acrescentou: "Não vejo essa harmonização acontecendo na América Latina, nem vejo uma agenda compartilhada além da afinidade com Washington".

Para Laborde, o que prevalece é a insatisfação dos cidadãos com os governos, independentemente de suas inclinações políticas. "A constante é que existe insatisfação pública com os governos, e é isso que leva as pessoas a votarem na oposição", afirmou.

"Nas últimas dez eleições, a direita venceu oito. Mas, em ambos os casos, a oposição venceu por uma grande margem: não foi o progressismo ou a direita que venceu, mas sim o partido que não estava no poder", destacou. "Houve sucessos para a direita, mas eles são mais atribuíveis à vitória da oposição do que a uma afinidade ideológica comum", esclareceu.

Consultado por esta publicação, o analista internacional Juan Venturino considerou que o roteiro responde a uma estratégia de posicionamento. "Dessa forma, Milei emerge como o principal expoente desse espaço político: ele era um político desconhecido antes de se tornar presidente, vence a eleição, e isso o transforma em um caso de sucesso e uma surpresa para o mundo", enfatizou.

Venturino alertou que esse papel tem limites. "A forma como a ideologia libertária é apresentada é muito maniqueísta, a ponto de ter gerado reclamações de diversas embaixadas por não simpatizar com certas ideias políticas", lembrou.

Brasil, o voto que define a região

Laborde ofereceu uma perspectiva de longo prazo sobre o ciclo político. "Entre 2019 e 2023, houve uma onda progressista: venceu no México, Uruguai, Brasil, Argentina, Chile, Bolívia e Peru. No entanto, não foi irreversível", observou. "Agora há vitórias da direita, mas não acho que este seja um ciclo definitivo", alertou.

Para o especialista, o que caracteriza a região é a alternância constante. "A característica definidora desta etapa é a luta, não a hegemonia de um único grupo político. O vencedor perde e o perdedor vence", afirmou. "Isso tem sido uma constante na política latino-americana há mais de uma década", enfatizou.

O especialista apontou que o fator determinante em cada eleição é a rejeição ao governo vigente. "Quem vence é de direita, mas eram da oposição. Quem venceu antes era progressista, mas também estava na oposição. O que prevalece é a insatisfação", observou. "Isso tem sido uma constante na política latino-americana nos últimos anos", acrescentou.

Venturino concordou que o resultado em Brasília será decisivo. "O Brasil tem uma perspectiva muito particular: disse aos Estados Unidos que tinha uma agenda diferente, que estava comprometido com o BRICS e que não iria recuar. Foi o Brasil que disse 'não' a Washington quando este tentou impor sua agenda à região", observou.

Segundo o especialista, as plataformas digitais serão fundamentais na disputa. "Com muito dinheiro investido em mídias sociais, elas influenciaram pelo menos uma parcela do eleitorado, e são esses eleitores que, no fim das contas, ganham uma eleição. Já vimos isso em outras eleições na região", alertou.

Por Sputinik Brasil


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