É professor adjunto da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), cirurgião especializado em cirurgia digestiva e membro do Conselho Editorial do Journal of Gastrintestinal Surgery OPEN (EUA). Graduou-se em medicina pela Ufal (1980) e é mestre em gastroenterologia cirúrgica pela Escola Paulista de Medicina/Unifesp. Atua como docente e cirurgião na área de cirurgia digestiva da Ufal.

Conteúdo Opinativo

Entre Cervantes, moinhos de vento e os lençóis no Maranhão


Texto de Ana Maria Cavalcante – Pediatra e Mestra em Saúde da Criança

Estávamos de volta dos Lençóis Maranhenses quando eu desejei compartilhar algumas impressões além da surpresa ecológica, do inesperado Saara inundado de piscinas de águas límpidas e mornas em várias nuances de cor, cinza, às vezes azul-turquesa, às vezes verde-esmeralda, tão visualizado.

Vinha imaginando como conciliar tamanha beleza e força natural, dunas de areia branca e lagoas cristalinas, com um imenso parque de usina eólica avistado por lá. Um choque de realidades antagônicas, a natureza e o mundo moderno. Impossível não lembrar Miguel de Cervantes, o engenhoso Don Quixote e os moinhos de vento ou gigantes ferozes.

Uma vez um louco cavaleiro investiu corajosamente sua lança contra imensas pás rodantes em moinhos de vento, os gigantes, como os via em sua ilusão – resultado de tantos romances de cavalaria que leu. De fato, os parques eólicos afetam o meio ambiente, a migração das aves, os pássaros chocam-se contra as hélices, o solo é fragilizado e a poluição compromete a qualidade de vida das pessoas. Muda o ecossistema e vêm os impactos ambientais, sociais e econômicos. Do parque eólico implantado nos Lençóis Maranhenses resta saber se há política ambiental efetiva de compensação para o empreendimento, numa área que é patrimônio natural da humanidade.

Aquele exército de gigantes com hélices imensas parece aguardar uma ordem de investir contra a beleza maranhense. E tal paraíso parece aguardar uma ordem desavisada, sob a proteção de Don Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança. Há de vencer a beleza? Desarmada de armas comuns, aguarda resiliente os moinhos gigantes de vento.

Deixemos as questões ambientais e voltemos a Barreirinhas, uma graça, cidade-margem do Rio Preguiças, que a leva até o Atlântico, e a foz é linda. Cidade de entrada para o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. Voltemos até a condução que nos transportava de Barreirinhas até São Luiz.

Não havia idade no grupo e todos ansiavam por repetir o arroz de cuxá, o doce de buriti, últimas compras de ímãs de geladeira - são lindos os de lá-, uma passadinha na esquina Bob Marley e, para tanta gente disposta, um show de Mastruz com Leite.

Aí veio a paralização em Rosário. A rota viária única e obrigatória que passa pela cidade estava interditada por cerca de duas horas e vamos dar nomes aos bois, aqueles que causaram estrago à nossa última noite maranhense: pessoas lideradas por Orleans Brandão, pré-candidato a governador, que apresentaria propostas sobre o futuro do Estado do Maranhão. Passavam caravanas com bandeiras, lanchinhos em isopor, garrafas de água mineral. Por isso eu, Dulcineia sem Quixote, fiquei asfixiada no transporte até o evento terminar. Por isso a cidade, num instante, ficou coberta de lixo!...

Passou!... Chegamos a São Luiz cansados, querendo uma chuveirada e permanecer sob lençóis. Ao invés de Mastruz com Leite, apenas um chá de camomila. Sem o boi-bumbá!...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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