Conteúdo do impresso Edição 1318

JESSÉ SOUZA

‘Moralismo anticorrupção só serve para atacar governos populares’

Sociólogo afirma que o ‘pobre de direita’ é produto de manipulação simbólica e humilhação social
Por José Fernando Martins 07/06/2025 - 06:00
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REPRODUÇÃO
Jessé Souza em entrevista ao CM Cast
Jessé Souza em entrevista ao CM Cast

Em visita a Maceió, o sociólogo Jessé Souza, autor de O Pobre de Direita, foi entrevistado esta semana no CM Cast, podcast do portal Cada Minuto apresentado pelos jornalistas Carlos Melo e Ricardo Mota, quando falou sobre os conceitos centrais de sua obra e a realidade política brasileira. Provocador, ele defendeu que parte da população age contra seus próprios interesses por estar “imbecilizada” por discursos produzidos pela elite e disseminados pela mídia.

“O pobre de direita é aquele que, mesmo sendo alvo das políticas de exclusão e humilhação, vota em quem representa a causa da sua pobreza”, afirmou. Segundo Jessé, o título do livro incomodou uma parcela do público, mas cumpre o objetivo de provocar uma reflexão sobre os mecanismos de dominação simbólica no Brasil. “Não se trata de chamar o pobre de burro, mas de entender como sua inteligência é sequestrada por ideias elitistas travestidas de bom senso”.

Para ele, a chave de leitura da política brasileira está no sentimento de humilhação social. “A humilhação não é algo racionalizado. Ela se sente. Quando você percebe que não tem acesso à saúde, à educação, à cultura, você entende que não é digno, que não pertence. Isso afeta profundamente o reconhecimento social das pessoas”, disse, ao destacar que a busca por dinheiro e poder está relacionada à tentativa de compensar essas ausências.

Jessé localiza a ascensão do “pobre de direita” no contexto do golpe parlamentar de 2016, com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. “A elite quis reabsorver os ganhos salariais dos trabalhadores e barrar o processo de inclusão. Dilma queria baixar os juros, combater privilégios. Isso é imperdoável para uma elite que vive de renda e para uma classe média que monopoliza o conhecimento e o status”, argumentou.

O sociólogo criticou também o papel da classe média branca e das camadas urbanas que, segundo ele, reproduzem valores excludentes e racistas. “O presidente Lula colocou negro na universidade, e o canalha branco de classe média não suportou. Não dá para dizer em público ‘não quero preto na USP’, mas é isso que estava por trás do ódio”, disparou. Para Jessé, o moralismo anticorrupção foi seletivo e serviu apenas para atacar governos populares. “Cadê os histéricos da corrupção quando Michel Temer ou Aécio foram flagrados? Silêncio total”, concluiu.

Na continuação da entrevista, Jessé aprofundou a discussão sobre os mecanismos de compensação simbólica que moldam o comportamento político da população mais vulnerável. “Quem não sabe quem o está empobrecendo tende a culpar a si mesmo. Isso leva à depressão, ao alcoolismo, à baixa autoestima. E aí surgem as ofertas simbólicas da extrema direita e do fundamentalismo religioso, que dão a esse humilhado uma migalha de salvação identitária”, explicou.

Segundo ele, para quem não tem nada, ser lembrado de que é heterossexual e não homossexual, por exemplo, já funciona como uma forma de compensação. “Pode parecer risível, mas para esse cara, isso é tudo. Muitos dos evangélicos negros que entrevistei dizem que o maior medo é que o filho vire gay na escola. Não se preocupam com educação, saúde, emprego, se preocupam com isso. Como se identidade de gênero fosse algo ensinado”, afirmou.

Jessé também comentou sobre o racismo internalizado. “Ser negro, no Brasil, nunca foi apenas uma questão de cor da pele. É uma questão de valores. Quando um negro vota em alguém que promete matar pretos, ele sabe que está votando contra si mesmo. Mas esse é o mecanismo de embranquecimento: aceitar os valores do opressor como se fossem seus”, destacou.

Para ele, a elite mantém invisível seu verdadeiro poder ao deslocar o conflito para dentro da própria classe trabalhadora. “O que esse pessoal que ganha entre dois e cinco salários mínimos encontra é uma compensação psíquica às custas dos que ganham entre zero e dois, que são majoritariamente pretos. Essa lógica estrutura o ‘pobre de direita’”, explicou.

Jessé define esse grupo — de quem ganha entre dois e cinco salários mínimos — como o perfil mais suscetível ao discurso da nova direita. “Não é o miserável, é quem está num degrau acima, mas ainda vulnerável. Esse grupo votou em massa em Lula em várias regiões, mas também flerta com discursos autoritários. Por isso eu fiz uma divisão regional. Num país racista como o nosso, é fundamental olhar quem está de fato se beneficiando do jogo”, finalizou.

SOBRE JESSÉ SOUZA

Jessé José Freire de Souza nasceu em Natal (RN) a 29 de março de 1960. É um sociólogo, advogado, professor universitário, escritor e pesquisador brasileiro, que atua nas áreas de Teoria Social, pensamento social brasileiro e de estudos teórico-empíricos sobre a desigualdade e as classes sociais no Brasil contemporâneo. É autor também dos livros A Ralé Brasileira, A Radiografia do Golpe, A Elite do Atraso e A Classe Média no Espelho.

Em 2 de abril de 2015 foi nomeado presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Pediu demissão do cargo em maio de 2016, quando Michel Temer assumiu interinamente a Presidência, depois do afastamento da presidente Dilma por ocasião do processo de impeachment.



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