SAÚDE EM RISCO
Transtornos mentais disparam e afastam quase 3 mil do mercado de trabalho em Alagoas
Jornadas excessivas estão entre os pincipais fatores de adoecimento mental de profissionais
Alagoas registrou em 2024, a concessão de 2.917 afas tamentos por problemas de saúde mental, de acordo com dados do Ministério da Previdência. O número representa cerca de 0,6% do total de afastamentos no Brasil, que somaram 472.328 casos, colocando o estado na 20ª posição entre as 27 unidades da federação.
Em todo o país, os afastamen tos por causas psicológicas cres ceram 134% entre 2022 e 2024, segundo levantamento do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Reações ao estres se (28,6%), transtornos de ansiedade (27,4%) e episódios depressi vos (25,1%) lideram os motivos de concessão dos benefícios.
Entre os estados do Nordeste, Alagoas apresenta o segundo menor número de concessões em 2024. Foram 2.917 afastamentos no estado, ficando atrás apenas do Piauí, que registrou 2.224 casos. Estados com maior volume, como Bahia (12.997), Pernambuco (8.104) e Ceará (6.820) lideram as estatísticas na região.
Dados do Ministério da Previdência reforçam a predominância da ansiedade e da depressão entre os principais transtornos que motivam esses afastamentos no país. Juntas, essas duas condições somam mais de 255 mil concessões de benefícios em 2024: foram 141.414 casos de ansiedade e 113.604 de episódios depressivos. Os números superam, com larga margem, os registros das demais doenças mentais, como o transtor no depressivo recorrente (52.627) e o transtorno afetivo bipolar.
O psiquiatra alagoano Dieggo Melo afirma que esse crescimento está relacionado a múltiplos fatores, como predisposição genética, vivências traumáticas na infância, uso de substâncias, desestrutura familiar e, principalmente, as condições do próprio trabalho. “Cargas horárias extensas, alto nível de exigência e múltiplas de mandas, são os principais fatores. Além disso, a própria insatisfação com a profissão e a falta de alternativas no curto prazo para mudar de área de atuação, sem comprometer a renda, pode transformar o trabalho em um estressor crônico”, explica o médico.
Ele aponta também falhas na cultura trabalhista brasileira como agravantes do problema. “Há um esvaziamento dos direitos trabalhistas com contratações via MEI e ausência de vínculo. Isso expõe o trabalhador a abusos, sem segurança ou garantias mínimas e ainda a viver refém dessas medidas. É adoecedor”, diz.
Entre os transtornos mais frequentes nos ambientes de trabalho estão a ansiedade, a depressão e a síndrome de burnout. Segundo o especialista, esses quadros afetam funções básicas como memória, concentração e até a capacidade de se alimentar ou manter a higiene. “Em casos graves, pode haver ideação suicida. Essas pessoas precisam ser afastadas e cuidadas”, explicou. Este ano o termo ‘’burnout’’, em especial, tem ganhado atenção e necessita de todo cuidado. Mas o psiquiatra alerta: “Não se entra em burnout por acaso. É resulta do de sinais ignorados por muito tempo, tanto pelo trabalhador quanto pelo empregador”.
“Estamos falando de níveis extremos de exigência externa e auto exigência também. A classificação internacional de doenças (CID-11) recomenda inclusive a comprovação de causalidade nes ses casos, ou seja, é preciso provar que o trabalho é o principal fator causador de estresse emocional e, portanto, do adoecimento mental pelo burnout para que se estabeleça este diagnóstico’’, relatou.



