MOVIMENTO NEGRO EM LUTO
Alagoas se despede de Edson Moreira
Professor era guardião da memória e da história viva do povo negro
Foi com livros, fé, dedicação, ousadia e coragem que Edson Moreira ergueu, no coração de Maceió, um quilombo onde a história negra não apenas resistia — ela florescia. Professor, historiador, teólogo e guardião da memória afro-brasileira, ele fez da própria casa, no bairro do Farol, em Maceió, um santuário de ancestralidade e luta: o Quilombo Real.
A história do professor Edson se confunde com a história de seu povo. Guerreiro, lutou pela vida. Porém, na terça-feira, 3, aos 83 anos, Edson partiu, deixando um legado que transcende o tempo: o de um homem que transformou sua vida em tributo à liberdade, à educação e à dignidade do povo negro.
Com coragem e convicção, Edson Moreira enfrentou décadas de descaso institucional e silêncio histórico. Nunca se calou diante das injustiças e nem desistiu de gritar aos quatro cantos que Zumbi vive, que sua gente é guerreira. Sem apoio governamental, sem patrocínio e muitas vezes sem reconhecimento, ele tirou do próprio bolso os recursos para manter vivo o Quilombo Real, a história do povo negro, suas memórias.
Lutou para que Zumbi dos Palmares não fosse apenas uma figura esquecida nos livros, mas um símbolo nacional de resistência. Foi um dos primeiros a propor oficialmente o 20 de novembro como feriado em homenagem a Zumbi, muito antes de a data ser reconhecida em nível federal. Sua atuação como educador ultrapassou os muros da escola: ele ensinava nas ruas, nos terreiros, nas igrejas, nas rodas de conversa. Onde houvesse alguém disposto a ouvir, ele semeava consciência.
Com recursos próprios, Edson eternizou em pedra e ferro aquilo que muitos tentaram apagar da memória nacional. Financiou a criação de estátuas de Ganga Zumba, Zumbi dos Palmares e da Mão Santa — símbolo espiritual da proteção e da fé afro-brasileira. O Quilombo Real não carrega apenas traços físicos, mas marcas de uma luta ancestral que ele se recusou a deixar morrer.
O professor Edson nunca esperou homenagem para si. Ele construiu sua história com as próprias mãos, com o próprio bolso e com a convicção de que o povo negro merecia ser lembrado com dignidade e grandeza. Em reconhecimento à sua trajetória, no ano passado recebeu uma menção honrosa proposta pelo ex-vereador Cleber Costa, aprovada pela Câmara Municipal de Maceió. O gesto simbólico veio como um raro aceno institucional à importância de sua luta. Com saúde abalada, a honraria foi recebida com humildade e emoção por quem sempre acreditou que a memória negra merece respeito oficial.
Professor Edson partiu, mas sua história continua viva. Seja nos monumentos adquiridos com recursos próprios, seja nas rodas de conversa, seja em cada pequeno gesto seu. Quem passa pela Praça dos Palmares percebe a presença da estátua do herói nacional Zumbi dos Palmares, presente do professor Edson que enfatiza o líder negro como aquele que salvou milhares de escravizados.
Na praia de Cruz das Almas, no local em que o Brasil em linha reta mais se aproxima da África, tem a estátua de Ganga Zumba, tudo graças à intervenção do professor. Inclusive, a estátua ficou desaparecida por quatro anos, episódio esse que levou o professor Edson a sofrer um AVC (Acidente Vascular Cerebral). Mas foi essa mesma praça que viu o professor vibrar em cada celebração do Dia das Flores, data em que a comunidade das matrizes africanas de Alagoas homenageia suas divindades. Projeto idealizado por ele e colocado em prática a cada início de ano.
Da Serra da Barriga Edson foi um defensor. Sua intervenção foi fundamental para o tombamento em 13 de maio de 1988. Na Serra da Barriga, doou a escultura de Zumbi. O “Braço sagrado dos orixás das águas” doado pelo professor Edson foi abandonado por anos pela Prefeitura de União dos Palmares. Em março deste ano, com a ajuda da médica Taciana Lopes e do médico Cleber Costa, o professor resgatou o monumento. A previsão é que até dezembro deste ano a mão de pedra em granito seja colocada em uma praça no bairro de Jacarecica.
Com a partida do professor Edson, Alagoas fica mais silenciosa, mais órfã e mais desafiada. A ausência de Edson Moreira não é apenas a perda de um educador — é o apagamento de uma voz que ecoava há décadas em defesa da cultura afro-brasileira, da memória de Palmares e da dignidade do povo negro. Sem ele, o estado perde um dos seus principais guardiões da ancestralidade, alguém que não apenas contava a história, mas a vivia, a preservava e a ensinava com paixão e coragem.
De fato, Edson Moreira não foi apenas um homem, foi um movimento. Um elo entre passado e presente, entre fé e história, entre resistência e esperança. Sua partida não encerra uma trajetória e sim inaugura um compromisso. Cabe agora a Alagoas, e a todos que foram tocados por sua voz e sua coragem, manter viva a chama que ele acendeu. Porque enquanto houver memória, haverá quilombo. E enquanto houver luta, Edson Moreira seguirá presente, como símbolo, como mestre, como eterno guardião da dignidade negra.
Alagoas se despede de um símbolo e herda uma missão.
Adeus ao homem das três raças
Antes de o corpo do professor Edson baixar à sepultura no Cemitério Parque das Flores, teve música afro e poesia de Jorge de Lima. O ator Chico de Assis falou do quanto o amigo se preocupava com sua gente. Falou de seu olhar antropológico, de seu amor pela Serra (Palmares), do carinho por sua Lucinha, filhos e demais familiares, da irmandade com o mestre Zumba.
E com dor no peito, mas com um coração pulsando de emoção, declamou Serra da Barriga: “buchuda, redonda, de jeito de mama, de anca, de ventre de negra. Mundaú te lambeu...”. Para completar a emoção, em coro, o público se despediu do professor Edson, do Edinho, com música e aplausos através do Canto das Três Raças (Clara Nunes).
“Negro entoou, um canto de revolta pelos ares, do Quilombo dos Palmares, onde se refugiou”.
Agora, Alagoas chora. Mas também agradece. Obrigada, professor Edson Moreira. Que os tambores nunca deixem de tocar em sua homenagem.
Aplausos!



