CONSCIÊNCIA NEGRA
Avenida receberá nome em homenagem às nações africanas
Já praça idealizada pelo ex-vereador Cleber Costa e professor Edson Moreira abrigará o monumento Braço Sagrado dos Orixás
O bairro de Jacarecica, em Maceió, conhecido por suas praias de mar agitado — cenário frequente para surfistas e pescadores — está prestes a ganhar um novo equipamento público. A mais nova praça da região, fruto de um projeto de lei do ex-vereador Cleber Costa e de autoria do saudoso professor Edson Moreira, encontra-se em fase final de construção e será entregue em breve à comunidade.
Em paralelo, outro marco importante chega ao bairro: a tradicional Avenida Litorânea passará a se chamar Avenida das Nações Africanas, homenagem direta à força, memória e resistência do povo afro que moldou a formação cultural de Alagoas. A mudança reforça o compromisso com a valorização da história negra no estado.
A nova praça será ornamentada com o “Braço Sagrado dos Orixás das Águas”, monumento adquirido com recursos próprios pelo professor Edson e por ele resgatado após anos de abandono pela Prefeitura de União dos Palmares. O resgate só foi possível com o apoio da médica Taciana Lopes e do ex-vereador Cleber Costa, que agora lideram a instalação da obra, devolvendo-lhe a visibilidade e o respeito que merece.
Mais do que estruturas físicas, ambos os projetos representam o legado de um homem que dedicou sua vida a defender a ancestralidade afro-brasileira: o historiador, professor e teólogo Edson Moreira, falecido em setembro deste ano. Referência incontornável do movimento negro alagoano, Edson lutou pela valorização da identidade do povo negro e pela preservação da memória africana no território alagoano. Costumava lembrar, com firmeza histórica: “Uma só pedra não foi coloca da no Brasil se não por trabalho escravo.”
A médica Daniela Lopes, amiga e incentivadora de suas iniciativas, reforça a dimensão de sua atuação: “Se a história do povo afro se mantém viva em Alagoas, foi através da luta do professor Edson e família. Ele se doou de corpo e alma até os últimos dias. Vivia em função dessa história. Merece todo reconhecimento.”
As ações que ganham forma em Jacarecica ultrapassam a entrega de uma praça ou a renomeação de uma avenida. Representam o compromisso de manter viva a memória afro-brasileira em Alagoas e reafirmam o impacto de um homem que dedicou sua vida a essa causa. O professor Edson Moreira partiu, mas cada conquista que sai do papel segue ecoando sua luta — e lembrando que a história do povo negro continua pulsando, abrindo caminhos e ocupando os espaços que sempre lhe pertenceram.
Vale ressaltar que, com a nova praça, o monumento dos Orixás e a Avenida das Nações Africanas, o bairro passa a carregar símbolos que dialogam diretamente com a ancestralidade africana que moldou Alagoas. São iniciativas que dão materialidade à herança defendida por Edson Moreira durante toda a vida. Assim, em cada pedra erguida e em cada nome ressignificado, permanece a certeza de que sua voz — e a história que ele protegeu — ainda guiam o presente e iluminam o futuro.
A amiga Daniela se emociona antes mesmo do trabalho ser concluído. Para ela, a entrega desses novos espaços não é apenas uma homenagem: é continuidade. É a prova de que o trabalho incansável do professor Edson Moreira não se perdeu com sua partida. Pelo contrário, floresce nas ruas, nas praças e na consciência coletiva de um estado que aprendeu a reconhecer sua própria ancestralidade. “O legado está vivo — e seguirá vivo enquanto houver quem celebre, respeite e mantenha acesa a história que ele tanto defendeu”, afirmou.
O homem por trás do feriado de 20 de novembro
Enquanto o Dia da Consciência Negra é lembrado nacionalmente em 20 de novembro, Alagoas celebra, nesta mesma data, o Dia da Morte de Zumbi dos Palmares. A distinção existe graças à articulação do professor Edson Moreira, responsável por sugerir ao Governo do Estado a instituição do feriado por meio do Decreto nº 5.724/95.
Em 1995, considerando Zumbi um herói nacional — e não apenas símbolo do povo negro — Edson solicitou ao então presidente Fernando Henrique Cardoso que o líder quilombola fosse incluído no Panteão da Pátria. Seu objetivo era claro: garantir a Zumbi o lugar de honra que lhe corresponde entre os grandes vultos da história brasileira.
Assim, na terra que guarda a memória do Quilombo dos Palmares, o 20 de novembro é celebrado como o dia que relembra o martírio do líder quilombola. No restante do país, a data marca a Consciência Negra. Em ambos os casos, a influência de Edson Moreira permanece incontestável.
Outro legado essencial do professor foi transformar sua própria residência, no bairro do Farol, em um Quilombo Real — museu vivo dedicado à cultura afro-alagoana e referência para pesquisadores, estudantes e admiradores da história negra no estado.
Com sua mobilização incansável, Edson Moreira não apenas impulsionou o reconhecimento histórico de Zumbi, como também contribuiu para que autoridades estaduais e federais avançassem na valorização da memória quilombola. A instituição do feriado em Alagoas e a inclusão de Zumbi no Panteão da Pátria refletem a força de sua articulação e o impacto de sua voz. Ao transformar sua própria residência em um Quilombo Real, deixou ainda um espaço permanente de referência e pesquisa. Assim, sua dedicação segue ecoando, preservando a história afro-alagoana e fortalecendo o diálogo sobre identidade e ancestralidade para as futuras gerações.
O QUE É O PANTEÃO DA PÁTRIA?
O Panteão da Pátria e da Liberdade, localizado na Praça dos Três Poderes, em Brasília, é um monumento criado para homenagear oficialmente os heróis e heroínas do Brasil.
No interior do prédio está o Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, feito em aço, onde são inscritos os nomes de personalidades que tiveram contribuição decisiva para a história nacional.
É um espaço de memória, visitação e educação, que reúne figuras como Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Anita Garibaldi e Dandara, preservando seus legados para as futuras gerações.
TRABALHO
O professor Edson Moreira encaminhou ao prefeito de Maceió, JHC, um conjunto amplo de propostas reunidas no ofício “Conscientização Cívica e Cultural”, que destaca ações de preservação histórica, valorização da cultura negra e fortalecimento da identidade maceioense. Algumas foram realizadas e outras estão em andamento. Entre os projetos apresentados estão:
. Mapeamento de Fernão Velho para criação de uma Universidade Popular com cursos de Coco, Cordel, Capoeira, Reisado, Chegança, Vaquejada, Maculelê, Maracatu e Baiana;
. Travessia Cultural da Lagoa Mundaú, com o Trem Cultural Maria Fumaça e vagões temáticos;
. Ônibus Panorâmico da Orla, que hoje faz o trajeto Ponta Verde–Jaraguá;
. Embarcação temática (“Gaiola”) para travessias no Rio São Francisco;
. Memorial dos Folguedos Nordestinos: construção de um espaço com palcos para apresentações e eventos, incluindo um navio de taipa chamado Nau Catarineta;
. Restauração de praças históricas, como a Praça Ganga Zumba, Praça dos Palmares e Praça 13 de Maio;
. Reforma do Coreto da Avenida da Paz;
. Cais do Vergel: divulgação do local onde aviões militares americanos pousavam durante a Segunda Guerra Mundial; atualmente, a Avenida Monte Castelo;
. Reinstalação do Cruzeiro de Cícero no Rosário dos Pretos;
. Projeto Voluntários da História, voltado a adolescentes;
. Criação do Pantheon Africano e inclusão de História e Cultura Afro-Indígena na grade escolar;
. Publicação de obras literárias e entrega de estatuetas de personalidades;
. Resgate de procissões e manifestações tradicionais.
Em uma de suas postagens, o professor Edson destacou a importância que o prefeito JHC deu aos seus projetos, na ocasião em que visitou o Quilombo Real.



