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Professor Francisco Amorim recebe homenagem póstuma e tem memória reverenciada
Criador do ABC das Alagoas dedicou oito anos à construção da obra
O Salão Nobre Presidente Orlando Araújo, no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL), no Centro de Maceió, foi palco, na quarta-feira (25), de um momento histórico e emocionante: a entrega da Comenda Jayme de Altavilla in memoriam ao professor Francisco Reynaldo Amorim de Barros, criador do ABC das Alagoas.
A honraria foi recebida pelo advogado Rodrigo Amorim, sobrinho- -neto do homenageado, que veio de Natal (RN) e não conteve a emoção. Com voz firme, por vezes embargada, afirmou que aquela era “a comenda mais importante da vida de tio Francisco, embora ele não esteja mais conosco”.
Rodrigo fez uma retrospectiva da trajetória do professor, lembrando a dedicação aos estudos, os desafios enfrentados ao morar sozinho no Rio de Janeiro após o falecimento das irmãs e, sobretudo, a paixão pela obra que marcou sua vida. “O ABC das Alagoas não é apenas uma obra literária. É um grande dicionário em construção. O ABC de hoje não é o mesmo de ontem nem será o de amanhã. Começou com dois volumes e hoje, se impresso, ultrapassa cinco. Para ele, nenhum título teria importância como esse. Era a grande paixão dele, preenchia sua rotina”, destacou.
Caçula de cinco irmãos, o professor Francisco não se casou nem teve filhos. Após a aposentadoria, dedicou-se integralmente à pesquisa. Viveu boa parte da vida no Rio de Janeiro, mas retornou a Alagoas no último ano de vida. “Aqui ele voltou a morar em seu último ano, e os senhores deram o que eu e os demais familiares jamais poderíamos dar: um fim de vida homenageado, prestigiado, com o reconhecimento de um grande escritor. Vocês deram a ele um último ano esplendoroso”, afirmou o sobrinho.
O presidente do IHGAL, Jayme Lustosa de Altavilla, relembrou a amizade iniciada há mais de 20 anos, em um encontro no Rio de Janeiro. “Sua vida foi dedicada ao fortalecimento da nossa alagoanidade, à valorização da memória coletiva. Mesmo após sua partida, sua obra e suas ideias permanecem vivas, inspirando novas gerações”, afirmou.
Ele recordou que, em 2005, o ABC das Alagoas foi publicado pelo Senado Federal e, em 2015, ganhou edição revista e ampliada, com mais de 10 mil verbetes. “Não é apenas um livro. É um verdadeiro monumento à memória alagoana, construído palavra por palavra, nome por nome. É a essência de um ato de amor à terra, às pessoas e às histórias grandes e pequenas que compõem a identidade de um povo”, completou.
Membro efetivo do Instituto, Álvaro Queiroz ressaltou que a comenda é destinada a grandes beneméritos da Casa. “Além de ter prestado grande serviço e manter vínculo com Alagoas, publicou essa obra enciclopédica, aberta, que vai sendo revista continuamente. Ele frequentava o Instituto, foi homenageado em vida e agora recebe essa comenda póstuma”, relembrou.
O presidente da Academia Alagoana de Letras, Alberto Rostand Lanverly, afirmou que o professor Francisco “é o retrato de Alagoas” ao conceber um registro histórico dessa dimensão. “Mais que uma homenagem ao professor, é Alagoas que está sendo homenageada por esse trabalho conhecido nacional e internacionalmente e que continua sendo ampliado”, declarou, lembrando ainda que a Casa de Jorge de Lima foi o último local onde o homenageado esteve, já que ali ocorreu o velório.
O cirurgião e professor João Batista Neto destacou que a honraria, a mais insigne do Instituto — conhecido como Casa de Alagoas, fundada em 2 de dezembro de 1869 —, representa a gratidão da Terra dos Marechais ao professor. “Não nasceu em Alagoas, mas desenvolveu uma obra de caráter afetivo e de esplendor monumental sobre nossa geografia, nossa história, nossa gente e nossos heróis.” Lembrou ainda que o conteúdo pode ser consultado gratuitamente no site oficial da obra, atualmente dirigido pela pesquisadora Gisela Pfau de Carvalho, e profetizou: “Daqui a 300 anos essa obra continuará sendo consultada”.
Gisela Pfau, atual coordenadora do ABC das Alagoas, conheceu o professor há quase duas décadas. Trabalhou e pesquisou ao lado dele e recebeu a missão de dar continuidade ao projeto. “É um trabalho extraordinário. Ele usou recursos próprios para pesquisar, numa época de cópias, películas e e-mails. Quando recebeu o primeiro lote impresso, foi pessoalmente a cada município entregar exemplares nas bibliotecas”, relembrou.
Compuseram a mesa de honra, além do presidente Jayme Lustosa de Altavilla, George Sarmento Júnior, Luiz Otávio Gomes, Arnaldo Paiva Filho e Rodrigo Amorim.
O HOMENAGEADO
Francisco Reynaldo Amorim de Barros nasceu em São Paulo, mas, ainda bebê, foi levado para Alagoas, estado com o qual construiu profunda ligação ao longo da vida. Viveu principalmente em Maceió e passou parte da infância e juventude em Capela, União dos Palmares e Viçosa.
Pesquisador dedicado à preservação da memória histórica e cultural do estado, criou o ABC das Alagoas, obra de referência na valorização da identidade alagoana e na democratização do conhecimento sobre municípios, personagens e tradições locais. Faleceu em 9 de novembro de 2023, aos 89 anos, em Maceió, deixando legado permanente para a cultura de Alagoas.
O ABC DAS ALAGOAS
É considerado uma das obras mais importantes para a preservação da memória histórica e cultural do estado. Mais do que um livro, funciona como instrumento de registro da identidade alagoana, reunindo informações sobre municípios, personagens, tradições e acontecimentos históricos de forma organizada e acessível ao público.
Escrito em linguagem clara e didática, o trabalho aproxima leitores, estudantes e professores da história local, contribuindo para o fortalecimento do sentimento de pertencimento e valorização cultural. Ao democratizar o conhecimento e tornar a história regional acessível além do meio acadêmico, a obra ajuda a combater a invisibilidade histórica de Alagoas e consolida o estado como protagonista de sua própria trajetória cultural e social.



