INOVAÇÃO
Estudante da Ufal cria app que facilita vendas entre alunos e comerciantes no campus
Lu Eats surge como alternativa ao modelo tradicional de delivery e aposta na comunidade acadêmica para crescimento
Natural de Girau do Ponciano, Agreste de Alagoas, o estudante Luiz Fernando Tenório Silva, de 27 anos, decidiu transformar uma necessidade vivida na prática em solução tecnológica. Aluno de Engenharia Química da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), ele é o criador do Lu Eats, um aplicativo que funciona como uma espécie de “iFood universitário”, conectando lanchonetes do Campus A. C. Simões, em Maceió, e estudantes que vendem alimentos de forma independente.
A ideia nasceu ainda durante sua passagem pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde cursou Nanotecnologia por cinco anos. Foi lá que teve sua primeira experiência como vendedor de tortiletes.“Eu sentia falta dessa conexão com os clientes. Às vezes eu estava em sala de aula, precisava vender, mas não tinha como”, relembra.
Ele conta que foi nesse período que desenvolveu soluções improvisadas para continuar vendendo e que hoje ajudam a explicar a criação do aplicativo. “Teve uma época que eu montei uma mesinha, deixava os tortilletes lá com plaquinha de preço e ia para a aula. O pessoal chegava, pegava e pagava sozinho. Era muito raro ter problema”, conta.
De volta a Alagoas e cursando Engenharia Química há cerca de dois anos, estando entre o sétimo e oitavo período, ele decidiu tirar o projeto do papel. “Quando vi o pessoal vendendo aqui na Ufal, pensei: ‘Cara, vou fazer algo para ajudar a comunidade’”.
Desenvolvimento solo e desafios técnicos
O Lu Eats foi desenvolvido em aproximadamente seis meses e sem apoio institucional. Todo o processo da programação ao modelo de negócio foi conduzido de forma independente. “É um projeto totalmente solo. O maior desafio foi programar mesmo, lidar com bugs. Às vezes funcionava para mim, mas não para outras pessoas”, explica.
Apesar das dificuldades, o resultado já começa a evoluir positivamente: o aplicativo conta com cerca de 200 usuários ativos e 16 vendedores cadastrados, poucos dias após o lançamento.
Como funciona o Lu Eats
O sistema foi pensado para ser simples e acessível. O cliente pode acessar tanto pelo aplicativo quanto pela versão web, sem necessidade de download. Já os vendedores também têm a opção de utilizar ambas as plataformas, mas com vantagem para o app, que envia notificações em tempo real.
Na prática, o Lu Eats funciona como um catálogo digital. O usuário visualiza os produtos disponíveis no campus, faz o pedido e ele é enviado diretamente para o WhatsApp do vendedor. A entrega ou retirada é combinada entre as partes.
Um dos diferenciais está no modelo de cobrança: ao contrário de grandes plataformas, o aplicativo não cobra comissão sobre vendas. Após 60 dias gratuitos, os vendedores pagam apenas R$ 0,75 por dia de uso e somente quando realizam vendas. “Não faz sentido cobrar uma taxa alta de quem está tentando ganhar dinheiro dentro da universidade”, afirma Luiz Fernando.
Sem investimento em marketing, o crescimento do Lu Eats depende, principalmente, do engajamento dos próprios usuários. E,segundo o desenvolvedor, a resposta tem sido positiva, especialmente por parte dosvendedores. “Eles abraçaram muito a ideia. Eu achei que poderia haver competição, mas foi o contrário. Eles estão ajudando a divulgar e até a identificar problemas no sistema”, diz.
O aplicativo também já começou a receber atualizações. Entre as novidades em teste estão um sistema de fidelidade para clientes e uma funcionalidade de rastreamento por GPS, semelhante aos apps tradicionais de entrega.
Expansão e visão de futuro
Embora o foco inicial seja a Ufal, Luiz Fernando já planeja expandir o Lu Eats para outros campi e universidades, inclusive fora de Alagoas. A estratégia, no entanto, continua baseada na colaboração entre estudantes.
“Universidade é um ambiente onde as pessoas se ajudam. Quero aproveitar isso para crescer”, afirma. Mais do que um negócio, ele define o projeto como uma mistura de propósito pessoal, experimento e solução prática. “É algo que eu queria ter tido quando vendia. Também é uma forma de testar ideias e ver até onde pode chegar.”
Falta de apoio e incentivo
Ao EXTRA, o estudante também destacou a ausência de estruturas de incentivo ao empreendedorismo dentro da universidade, como incubadoras de empresas.
“Falta um espaço para apoiar quem tem ideias. Muita gente quer empreender, mas não sabe por onde começar. Se tivesse esse suporte, surgiriam muito mais projetos”, avalia.
Ele cita como exemplo a experiência que teve fora de Alagoas. Durante o período em que estudou na UFRJ, teve contato com um modelo mais estruturado de apoio a iniciativas estudantis.
“Lá existem as chamadas incubadoras de empresas. Você apresenta sua ideia e recebe suporte, às vezes até financeiro, além de espaço físico e orientação para desenvolver aquilo e transformar em um negócio de verdade”, explica.
Na visão de Luiz Fernando, esse tipo de estrutura faz falta na Ufal. Ele reconhece a existência de projetos e grupos acadêmicos, mas considera que ainda não há um suporte integrado voltado ao empreendedorismo.
“A gente até tem algumas iniciativas, como ligas acadêmicas e projetos específicos, mas falta um local dedicado a isso, onde as pessoas possam desenvolver ideias com acompanhamento, com professores ajudando a direcionar”, pontua.
Enquanto isso, ele segue apostando na iniciativa própria e na força da comunidade acadêmica para fazer o Lu Eats crescer.
Com poucos dias de funcionamento e já com adesão significativa, o aplicativo dá os primeiros passos rumo a um objetivo maior: transformar a forma como estudantes compram e vendem dentro da universidade.



