TRAGÉDIA DE DELMIRO
Policial preso por matar colegas em viatura obteve precatório de R$ 49 mil e suspensão de pagamento de pensão à filha
Agente que executou dois colegas conseguiu decisões favoráveis na Justiça semanas antes do crime
Preso em flagrante na manhã da quarta, 20, suspeito de matar dois colegas dentro de uma viatura da Polícia Civil em Delmiro Gouveia, no Sertão de Alagoas, o agente Gildate Góes Moraes Sobrinho havia obtido, dias antes do crime, decisões favoráveis na Justiça envolvendo questões financeiras e patrimoniais. Uma delas garantiu ao policial a inclusão de um precatório de R$ 49.519,66 contra o Estado de Alagoas no orçamento estadual de 2027. A outra suspendeu o pagamento de pensão alimentícia à filha, em uma ação de exoneração de alimentos julgada pela Vara de Família de Arapiraca.
As informações constam em decisões publicadas pelo Tribunal de Justiça de Alagoas (TJAL). A decisão relacionada ao precatório foi assinada em 18 de maio de 2026 pela juíza auxiliar da Presidência do TJAL e coordenadora de Precatórios, Carolina Sampaio Valões da Rocha Coêlho. No documento, o tribunal reconhece a regularidade jurídica e contábil
da requisição expedida em favor de Gildate Góes Moraes Sobrinho contra o Estado.
O crédito, classificado como de natureza alimentar, foi atualizado em R$ 49,5 mil e deverá integrar o orçamento estadual de 2027, obedecendo à ordem cronológica de pagamento dos precatórios. A decisão também determina o destaque de 20,5% do valor total para pagamento de honorários advocatícios destinados a escritórios e empresas citados nos autos. Outro trecho chama atenção pelo enquadramento do policial na condição de beneficiário com direito a pagamento super preferencial — modalidade reservada a idosos em precatórios alimentares, conforme normas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Pouco mais de um mês antes, em 14 de abril deste ano, Gildate também conseguiu na Justiça a suspensão imediata do pagamento de pensão alimentícia à filha. A decisão foi assinada pelo juiz André Gêda Peixoto Melo, da Vara de Família de Arapiraca, em ação movida pelo policial contra a herdeira. Nos autos, Gildate alegou que a filha, atualmente com 29 anos, já ultrapassava a chamada “idade universitária”, possuía ocupação profissional e mantinha união estável, motivo pelo qual não haveria mais necessidade de
manutenção da obrigação alimentar.
Ao conceder tutela de urgência, o magistrado entendeu que havia probabilidade do direito alegado e destacou que a manutenção da pensão “não fazia sentido” diante da idade da filha e da possibilidade de exercício de atividade laboral. A decisão determinou ainda comunicação imediata ao Estado para implementação da exoneração dos descontos.
O crime
O policial foi preso nesta quarta-feira por assassinar os também policiais civis Yago Gomes Pereira, de 33 anos, natural de Sergipe, e Denivaldo Jardel Lira Moraes, de 47 anos,
natural de Pernambuco. Segundo as investigações iniciais, os três retornavam de uma ocorrência quando os disparos foram efetuados dentro da viatura oficial da Polícia Civil. As vítimas foram atingidas na cabeça e morreram ainda no local.
Após o crime, equipes da Polícia Militar isolaram a área enquanto a Polícia Civil e a perícia criminal iniciaram os levantamentos técnicos. Informações preliminares apontam
que Gildate apresentava falas desconexas após o duplo homicídio. A hipótese de um possível surto psicológico está entre as linhas investigadas pelas autoridades.
O caso foi registrado como homicídio qualificado no Foro de Delmiro Gouveia e segue sob investigação. Dados do Portal da Transparência de Alagoas mostram que Gildate Góes Moraes Sobrinho ingressou no serviço público estadual em julho de 2012. Atualmente, ocupava o cargo de agente da Polícia Civil com função de chefia de unidade, vinculado ao regime estatutário do Estado de Alagoas.
O salário bruto do servidor, segundo os registros públicos estaduais, era de R$ 16.285,84. A Polícia Civil ainda apura a motivação do crime e tenta esclarecer as circunstâncias que
antecederam os disparos dentro da viatura.



