Conteúdo do impresso Edição 1365

FRAUDE

Golpe do falso advogado explode no Brasil e faz vítimas em ações judiciais

Criminosos usam dados reais de processos, perfis falsos no WhatsApp e Pix para enganar pessoas
Assessoria
Pix é sucesso no Brasil
Pix é sucesso no Brasil

Um golpe sofisticado, silencioso e cada vez mais frequente tem preocupado advogados, autoridades e milhares de brasileiros que aguardam decisões judiciais ou pagamentos na Justiça. Conhecido como golpe do “falso advogado”, o esquema utiliza informações verdadeiras de processos judiciais para enganar vítimas e induzi-las a transferir dinheiro via Pixsob a falsa promessa de liberação de valores.

A fraude já se tornou uma das principais preocupações da advocacia no país. Somente em 2025, mais de 14,6 mil denúncias formais relacionadas ao golpe foram registradas na Ordem dos Advogados do Brasil.

O crescimento do crime acompanha a popularização do Pix, o acesso facilitado a dados processuais públicos e o avanço das ferramentas de inteligência artificial capazes de clonar vozes.

Segundo especialistas, os criminosos acessam sistemas públicos da Justiça, como os portais de consulta processual dos tribunais, identificam ações que envolvem pagamentos ou indenizações e entram em contato com as vítimas utilizando fotos e nomes reais de advogados. A mensagem costuma trazer informações detalhadas do processo, como número da ação, nome do juiz, valores envolvidos e fase processual, o que transmite credibilidade imediata.

A estratégia, no entanto, segue um roteiro semelhante: o golpista informa que o dinheiro foi liberado, mas afirma que existe uma pendência para a retirada dos valores, como supostas taxas judiciais, impostos ou custos de alvará. O pagamento, geralmente solicitado via Pix, precisa ser feito com urgência para evitar “perda do prazo” ou “bloqueio do valor”.

De acordo com especialistas em direito digital, o golpe é eficiente justamente porque explora emocionalmente pessoas que aguardam há meses ou anos por uma decisão favorável da Justiça. Entre os principais alvos estão aposentados com ações previdenciárias, trabalhadores em processos trabalhistas, herdeiros envolvidos em inventários e pessoas que esperam indenizações.

A vulnerabilidade, afirmam os especialistas, não está ligada à falta de conhecimento, mas à expectativa emocional criada em torno do recebimento do dinheiro. Ao receber informações corretas sobre o próprio processo, a vítima tende a acreditar que o contato é legítimo.

O advogado João Marques, especialista em Direito Bancário, alerta que os escritórios precisam tratar a comunicação com clientes como uma questão de segurança. “É fundamental informar proativamente os clientes sobre a existência desse golpe, estabelecer canais de confirmação fora do WhatsApp e nunca solicitar pagamentos sem validação por outro meio. O criminoso se aproveita justamente da ansiedade e da expectativa de quem aguarda uma decisão judicial”, afirma.

Segundo ele, muitos escritórios passaram a adotar protocolos internos mais rígidos após o aumento dos casos. “Nenhum pagamento deve ser solicitado exclusivamente por aplicativos de mensagem sem confirmação prévia por um canal já conhecido pelo cliente”, reforça.

Outro fator que ampliou o alcance do golpe foi o uso de inteligência artificial para clonagem de voz. Em muitos casos, a vítima recebe áudios que reproduzem a voz do próprio advogado, aumentando ainda mais a sensação de autenticidade. Ferramentas atuais conseguem criar imitações convincentes a partir de poucos segundos de áudio disponível na internet.

Especialistas apontam que a própria transparência do sistema judicial brasileiro acabou criando um ambiente favorável para esse tipo de fraude.
Isso porque os sistemas processuais permitem consultas públicas que revelam dados das partes, advogados, magistrados e movimentações processuais.

Embora o acesso à informação seja considerado uma conquista democrática e um instrumento de fiscalização do Judiciário, o modelo também expõe dados sensíveis que podem ser utilizados por criminosos.

Em alguns casos, os golpistas chegam a enviar cópias de peças processuais, decisões falsas e documentos com timbres oficiais para convencer a vítima de que a cobrança é verdadeira.

Sinais de alerta

Especialistas orientam que qualquer cobrança antecipada para liberação de valores judiciais deve ser vista com desconfiança.

Advogados e tribunais não solicitam depósitos via Pix para liberar dinheiro de processos.

Outros sinais de alerta incluem pedidos para transferência em contas de terceiros, mensagens com tom de urgência extrema e dificuldade do suposto advogado em confirmar as informações por outros canais.

A recomendação é nunca realizar pagamentos sem antes confirmar diretamente com o advogado pelos contatos já conhecidos anteriormente, evitando responder apenas ao número que iniciou a conversa.

Já o Pix não criou o golpe, mas facilitou a ação criminosa. Como as transferências são instantâneas, o dinheiro pode ser pulverizado  rapidamente entre várias contas, dificultando o bloqueio e a recuperação dos valores.

O Banco Central implementou o chamado Mecanismo Especial de Devolução (MED), que permite solicitar o bloqueio de recursos em casos de fraude. No entanto, especialistas alertam que a recuperação do dinheiro depende principalmente da rapidez com que a vítima percebe o golpe e aciona o banco.

Em muitos casos, quando a fraude é identificada, os recursos já foram movimentados para outras contas, tornando a devolução mais difícil.


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