Conteúdo do impresso Edição 1365

EMPREENDEDORISMO

Confeiteira alagoana se destaca em setor concorrido com ajuda das redes sociais

Donna Soares dribla alta competitividade através do Instagram e acelera vendas de sua principal fonte de renda
Por Larissa Cristovão - Estagiária Sob Supervisão 23/05/2026 - 09:18
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Donna Soares dribla alta competitividade através do Instagram e acelera vendas de sua principal fonte de renda
Donna Soares dribla alta competitividade através do Instagram e acelera vendas de sua principal fonte de renda

O celular apoiado na mesa, a iluminação improvisada e um brownie pronto para ser filmado. Em um mercado cada vez mais competitivo nas redes sociais, a alagoana Donna Stephanie Soares Nascimento, de 29 anos, encontrou justamente no improviso o caminho para transformar a confeitaria em negócio e se destacar entre milhares de pequenos empreendedores do setor alimentício. 

Dados da Junta Comercial do Estado de Alagoas (Juceal) mostram que o estado possui atualmente 105.699 negócios liderados por mulheres, um crescimento de 9,21% em relação ao ano anterior. Desse total, 59.838 são Microempreendedores Individuais (MEIs). Entre os segmentos com maior presença feminina está o setor de alimentação, que reúne 12.888 empreendimentos. 

O cenário acompanha uma tendência nacional. Segundo pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), divulgada em 2026, as mulheres representam 52,6% dos estabelecimentos enquadrados como MEI no setor. Entre empresas compostas por sociedades, elas correspondem a 38,3%, enquanto os homens lideram com 56%. 

Em meio a esse universo altamente disputado, Donna conseguiu transformar vídeos gravados sozinha no celular em uma vitrine capaz de fidelizar clientes e manter a agenda lotada. Conhecida nas redes como Donna Soares e à frente da marca Donna do Brownie, ela divide a rotina entre a advocacia, os estudos para concursos e a produção de doces, hoje sua principal fonte de renda. 

Antes mesmo de vender, a confeitaria já fazia parte da sua rotina. Brownies, bolos e sobremesas eram preparados frequentemente para amigos e familiares, que incentivavam a comercialização. “Sempre foi uma coisa que eu gostei muito de fazer, e todo mundo dizia para eu vender”, relembra. 

A primeira tentativa de empreender aconteceu em 2019, quando criou um perfil no Instagram voltado para bolos caseiros, incluindo os populares bolos vulcão e “barcas” de brigadeiro. A iniciativa chegou a viralizar, mas acabou interrompida pela rotina intensa da graduação em Direito. “Eu não estava conseguindo conciliar, aí precisei parar”, conta. 

Anos depois, já formada, a confeitaria voltou a surgir como alternativa, inicialmente para complementar a renda. “O brownie não estava nos planos. Eu comecei como uma forma de pagar viagens para concursos e acabou dando mais certo do que tudo”, afirma. 

O ponto de virada veio após um teste simples nas redes sociais. “Eu fiz um teste no meu Instagram, numa sexta-feira, e vendi 42 brownies de uma vez. Foi quando pensei: ‘meu Deus, isso aqui deu certo’.” 

Sem investimento em anúncios pagos, o crescimento aconteceu de forma orgânica. Com a criação de um perfil próprio, que hoje reúne em torno de mil seguidores, todas as vendas passaram a acontecer pelas redes sociais. “Sem o Instagram, eu provavelmente não teria conseguido crescer. Foi ali que as pessoas começaram a conhecer meu trabalho”, diz. 

A vitrine que não cobra aluguel 

O caso de Donna reflete um movimento maior do empreendedorismo digital no Brasil. Dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) apontam que o país atingiu, no quarto trimestre de 2024, a marca de 10,35 milhões de mulheres donas de negócio. Grande parte desse crescimento passa diretamente pelas redes sociais. Sete em cada dez pequenos negócios já possuem presença digital, sendo o Instagram a principal plataforma utilizada, seguido por Facebook e TikTok. 

Mais do que exposição, as redes sociais passaram a funcionar como espaço de relacionamento e construção de confiança entre pequenos empreendedores e consumidores. Segundo o levantamento CX Trends 2024, 70% dos consumidores afirmam que experiências personalizadas influenciam diretamente na decisão de compra. 

No caso de Donna Soares, essa proximidade acontece de forma espontânea: vídeos gravados nos bastidores da produção, atendimento direto aos clientes e interação constante nas redes sociais. 

Foi explorando tendências do TikTok e do Instagram que ela conseguiu ampliar sua visibilidade. Um vídeo inspirado em uma trend ultrapassou 60 mil visualizações e impactou diretamente nas vendas. “Eu fiz sem pretensão nenhuma. Quando vi, tinha muita gente assistindo. Isso acaba puxando todo o resto”, relata.

Crescimento acelerado e improvisado 

O potencial das redes sociais ficou ainda mais evidente durante a Páscoa. Mesmo sem planejamento, Donna quase desistiu de produzir para a data, mas decidiu testar a venda de forma limitada poucos dias antes. “Eu pensei em não fazer, mas ficou um negócio na minha cabeça: ‘faz pelo menos um pouco’. Lancei sem muita expectativa”, conta. 

A estratégia foi simples: um cardápio reduzido, divulgado apenas uma semana antes da data. Ainda assim, a resposta foi imediata. A chamada “pré-Páscoa” esgotou rapidamente e os pedidos continuaram chegando nos dias seguintes. Ao contabilizar as encomendas, veio o susto: apenas para o domingo de Páscoa, havia mais de 40 clientes diferentes, muitos com múltiplos pedidos. “Eu parei e pensei: ‘meu Deus, eu não vou dar conta’. Aí fechei a agenda”, relembra. 

No total, em cerca de duas semanas, foram aproximadamente 90 encomendas, mais de 200 mini ovos e mais de 50 ovos tradicionais, produzidos praticamente sozinha. Sem preparo antecipado, a rotina virou uma maratona. “Eu não me preparei. Era assar, montar, rechear e entregar tudo no mesmo dia. Foi um caos”, afirma. As ideias para os produtos também nascem das próprias plataformas digitais. “Eu fico muito no Pinterest, TikTok… é dali que vêm as ideias”, diz. 

Entre algoritmos e comunidade 

Para reduzir a dependência exclusiva do Instagram, Donna passou a investir na construção de um público fiel. Um grupo VIP no WhatsApp, que hoje reúne mais de 100 clientes, tornou-se parte central da estratégia. “O grupo cria um senso de comunidade. As pessoas se sentem privilegiadas por receber primeiro e isso ajuda muito nas vendas”, explica. A estratégia acompanha o comportamento do consumidor brasileiro. 

Segundo o levantamento CX Trends 2024, o WhatsApp aparece como principal canal de relacionamento no pós-venda para 54% dos consumidores. Além disso, a recomendação espontânea segue tendo forte impacto nas vendas. “Quando não é publicidade, as pessoas confiam mais”, afirma. 

Hoje, o volume de pedidos ocupa praticamente todos os dias da semana com produções para aniversários, eventos e encomendas personalizadas. Ainda assim, os desafios permanecem. A logística de entrega aparece como uma das principais dificuldades para a expansão do negócio. “Minha maior dificuldade hoje é a entrega. Motoboy, organização… crescer depende muito disso”, diz. A oscilação na demanda também faz parte da rotina. Após períodos de alta, como a Páscoa, há quedas perceptíveis nas vendas. “Depois da Páscoa, eu senti uma queda. Parece que muita gente está focada em dieta, emagrecimento”, observa. 

Mais do que tendência, alternativa de crescimento

Para muitas mulheres, a presença digital deixou de ser apenas uma estratégia de divulgação e passou a funcionar como alternativa real de crescimento profissional diante das limitações de investimento e estrutura. Segundo o Instituto Rede Mulher Empreendedora, 62% das mulheres avaliam o impacto da digitalização como positivo para seus negócios. 

No caso de Donna Soares, o crescimento já aponta para novos planos, como a criação de um espaço fixo de produção e a entrada em plataformas de delivery. Para quem deseja começar, ela defende equilíbrio entre dedicação e leveza. “Hoje, se você quiser vender na internet, você consegue, mas precisa se dedicar”, afirma. 

Ao reduzir barreiras de entrada e ampliar o alcance de pequenos negócios, as redes sociais vêm consolidando um novo modelo de empreendedorismo, especialmente entre mulheres que encontraram no ambiente digital uma forma acessível de disputar espaço em mercados cada vez mais concorridos.


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