Embrapa
Pesquisa alerta para presença de transgênicos em sementes crioulas
Estudo identificou proteínas geneticamente modificadas em 34% das amostras analisadas no Semiárido
Uma pesquisa desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) identificou a presença de proteínas geneticamente modificadas em 34% das amostras de sementes analisadas na fase anterior do Projeto Agrobiodiversidade do Semiárido (AgrobioSA). O resultado acende um alerta sobre os riscos à conservação das sementes crioulas, variedades tradicionais cultivadas e preservadas por agricultores familiares ao longo de gerações.
O projeto atua em sete territórios distribuídos entre Alagoas, Bahia, Paraíba e Piauí. Com investimento superior a R$ 3 milhões até 2027, a iniciativa pretende beneficiar aproximadamente 2 mil famílias, incluindo agricultores familiares, assentados, indígenas e comunidades quilombolas.
Coordenado pela Embrapa Alimentos e Territórios, sediada em Alagoas, em parceria com a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o projeto combina pesquisas científicas com conhecimentos tradicionais para preservar a diversidade agrícola do Semiárido.
Em 2026, quatro experimentos participativos foram implantados para avaliar pelo menos 20 variedades crioulas de milho nos estados participantes. Até o momento, aproximadamente 100 materiais passaram por testes para identificação da presença de transgênicos.
Segundo o coordenador do projeto, Fernando Curado, a contaminação genética representa um dos principais riscos à conservação dessas sementes. A preocupação está relacionada à possibilidade de perda de características tradicionais das variedades mantidas pelas comunidades rurais.
Em Alagoas, a Rede Sementes da Resistência reúne mais de 60 bancos comunitários. As atividades envolvem agricultores de municípios como Estrela de Alagoas, Igaci, Craíbas, Palmeira dos Índios, Delmiro Gouveia, Inhapi e Poço das Trincheiras.
Esses bancos funcionam como espaços coletivos de armazenamento, troca e multiplicação de sementes. Ao todo, o AgrobioSA prevê ações de monitoramento e fortalecimento de 122 Casas e Bancos Comunitários de Sementes nos quatro estados.
No Sítio Poço Doce, em Piranhas, a agricultora Maria Francisca relata que a comunidade mantém mais de 100 variedades, incluindo sementes de milho, feijão e espécies da Caatinga. O trabalho também contribui para a produção de alimentos e a recuperação ambiental.
Outra iniciativa ocorre em Delmiro Gouveia, onde um campo de multiplicação de sementes crioulas foi instalado em agosto deste ano. A área está sendo monitorada com o objetivo de renovar os estoques comunitários e ampliar a disponibilidade das variedades tradicionais.
Catálogo reúne 47 variedades de sementes em Alagoas
Uma parceria entre o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e a Embrapa Alimentos e Territórios também resultou na elaboração do catálogo Sementes da Resistência. A publicação identifica 47 variedades de sementes crioulas cultivadas em 21 comunidades de cinco municípios alagoanos.
O levantamento permite registrar características dos materiais, identificar onde são cultivados e facilitar sua conservação e multiplicação.
Para a agricultora Vera Lúcia, moradora da comunidade Serra Bonita, em Palmeira dos Índios, o catálogo representa o reconhecimento de um patrimônio agrícola preservado pelas famílias.
“Pela primeira vez tivemos as nossas sementes catalogadas e apresentadas em uma publicação. Era um sonho dos guardiões e guardiãs de sementes”, afirmou.
Além do trabalho de catalogação, os pesquisadores realizam avaliações de produtividade, adaptação ao clima e características das variedades. As atividades permitem identificar quais sementes apresentam melhor desempenho nas condições ambientais do Semiárido.
O projeto também pretende estruturar uma Rede de Proteção do Milho Crioulo, com protocolos de monitoramento da presença de transgênicos e ações para reintroduzir variedades conservadas nos bancos de germoplasma da Embrapa.
Para Fernando Curado, preservar as sementes crioulas significa proteger não apenas a biodiversidade, mas também a autonomia produtiva e a segurança alimentar das famílias agricultoras.
A iniciativa busca assegurar que as sementes continuem sob os cuidados das próprias comunidades, permitindo que sejam cultivadas, selecionadas e transmitidas às próximas gerações.



