A queda

João Lyra: de deputado mais rico do Brasil e magnata da cana à falência

Processo de falência bilionário chega a 2025 com disputa por veículo modeo Fiat Uno
Agência Câmara dos Deputados
O ex-deputado federal, ex-senador e ex-usineiro João Lyra
O ex-deputado federal, ex-senador e ex-usineiro João Lyra

O vasto império milionário do ex-proprietário de usinas, ex-senador e ex-deputado João Lyra, atualmente se manifesta de forma sutil nas movimentações do processo de falência da massa falida da Laginha Agroindustrial. 

Na última, que ocorreu em 6 de outubro, a Justiça avalia a entrega de dois Fiat Uno Mille Economy que foram arrematados, além de tratar de penhoras, habilitação de herdeiros e da restauração de matrículas de fazendas que foram destruídas por enchentes. 

São trâmites administrativos que expõem a magnitude da ruína de um dos maiores grupos empresariais do Nordeste, cuja trajetória mescla poder político, fortuna e decadência. Por décadas, João José Pereira de Lyra foi o rosto mais icônico do poder das usinas em Alagoas. 

Originário do Recife, estabeleceu-se em Alagoas como um empresário e político de destaque, erguendo um império que combinava cana-de-açúcar, etanol e poder. Entrou no Senado entre 1989 e 1991, e cumpriu dois mandatos como deputado federal (2003–2007 e 2011–2015). 

Nas eleições de 2010, registrou à Justiça Eleitoral um patrimônio que ultrapassava R$ 240 milhões — o maior de todos os parlamentares do Brasil. Era, formalmente, o “deputado mais rico do país”. 

Seu grupo, a Laginha Agroindustrial S.A., tinha sob sua direção cinco usinas: Laginha, Guaxuma e Uruba, localizadas em Alagoas; Triálcool, na cidade de Canápolis; e Vale do Paranaíba, em Capinópolis, no estado de Minas Gerais. 

No seu melhor momento, tinha mais de 15 mil funcionários e era um dos principais produtores de açúcar e etanol do Brasil. O grupo mantinha jornais, estações de rádio, concessionárias e empresas de transporte. 

A partir de 2008, com a elevação das dívidas, a diminuição dos preços do açúcar e o término dos incentivos fiscais, começou a se formar o declínio de Lyra. Em 2008, a Laginha Agroindustrial entrou em recuperação judicial.

Usina Laginha, localizada em Alagoas - Foto: MST

Em 2014, a Justiça declarou o grupo como falido , com dívidas de cerca de R$ 2 bilhões. Nos anos seguintes, ocorreram leilões malsucedidos, brigas judiciais e bloqueios de bancos, fornecedores, ex-funcionários e até mesmo do Estado. 

A falência afetou o prestígio político e a reputação de João Lyra. O homem que, em seus dias de glória, simbolizava a influência financeira de uma elite industrial, passou seus últimos anos de vida envolto em processos judiciais, ações trabalhistas e investigações. 

Faleceu em agosto de 2021, aos 90 anos, em Maceió, em decorrência da covid-19. Os vestígios do império permanecem registrados nos documentos. A Justiça busca equilibrar a pressão dos credores, a preservação do patrimônio e a utilização produtiva das terras.

O emblema da queda também está presente nos pormenores. Em um determinado momento, João Lyra era conhecido por sua relação com aeronaves, colunas de vapor, campanhas milionárias e seu poder em Brasília. 

Atualmente, encontra-se mencionado em documentos relacionados a contratos de arrendamento agrícola, alvarás para pagamento e veículos danificados em pátios de custódia judicial. 

Política

A trajetória política de Lyra começou em 1982, quando se tornou primeiro suplente de senador pelo PDS, na chapa liderada por Guilherme Palmeira, que foi eleita com 259.581 votos (56,17%). Lyra assumiu o mandato no Senado Federal em janeiro de 1989, após a eleição de Palmeira para a Prefeitura de Maceió, no pleito municipal de 1988.

Em 1986, já filiado ao PMDB, Lyra disputou novamente uma vaga no Senado. Naquela eleição, o voto vinculado havia sido extinto, mas o sistema de sublegendas ainda estava em vigor. Pela Frente Popular concorreram Lauro Farias e Freitas Neto; no PMDB, Mendonça Neto e o próprio João Lyra dividiram uma legenda, enquanto Téo Vilela e Rubens Vilar formaram outra.

O PFL lançou Divaldo Suruagy, Mendes de Barros e João Azevedo. Os eleitos foram Suruagy, com 334.137 votos (27,63%), e Téo Vilela, com 298.185 votos (27,53%). João Lyra terminou em quarto lugar, com 121.709 votos (10,06%).

João Lyra, o ex-deputado mais rico do Brasil - Divulgação

Nas eleições de 1990, Lyra tentou o Senado mais uma vez, desta vez pelo PSC de Roraima, obtendo 15.053 votos (9,61%), o que lhe garantiu a quinta colocação entre as três vagas em disputa. O retorno à política nacional viria em 2002, quando foi eleito deputado federal por Alagoas pelo PTB, com 112.949 votos — a maior votação entre os nove eleitos naquele pleito. Sua campanha, marcada por forte estrutura financeira, garantiu uma expressiva presença eleitoral em todo o estado.

Em 2006, Lyra tentou o Governo de Alagoas, novamente pelo PTB. Liderou as pesquisas no início da campanha, mas perdeu força durante a corrida eleitoral. Terminou em segundo lugar, com 400.678 votos (30,51%). Apesar da campanha milionária, teve desempenho considerado fraco nos debates e na propaganda de TV, especialmente no encontro final da TV Gazeta.

Quatro anos depois, em 2010, concorreu pela segunda vez ao cargo de deputado federal, também pelo PTB, obtendo 111.104 votos e ficando em quarto lugar entre as nove vagas alagoanas.


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