Alagoas Negra Restaurada

TJ restaura processos que revelam luta de escravizados por liberdade em AL

Projeto é desenvolvido pelo Laboratório de Conservação e Restauro do Judiciário
Por TJAL 20/05/2026 - 08:59
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Caio Loureiro
Historiadoras Mariana Marques e Hilda Monte analisam documentos que remetem ao período da escravidão em Alagoas
Historiadoras Mariana Marques e Hilda Monte analisam documentos que remetem ao período da escravidão em Alagoas

De páginas desgastadas pelo tempo emergem histórias de pessoas que lutaram pela própria liberdade no período da escravidão, em Alagoas. Anna é uma dessas personagens. Em 1884, ela reuniu o valor necessário para pagar a sua alforria e solicitou curador para as tratativas judiciais. Em depoimento a um escrivão, evocou a Lei do Ventre Livre para fundamentar o seu pedido.

Ao final do processo, Anna conquistou a tão sonhada liberdade. A história dela é uma das inúmeras narrativas preservadas em processos históricos que estão sendo restaurados pelo Tribunal de Justiça de Alagoas (TJAL).

O projeto 'Alagoas Negra Restaurada' vem sendo desenvolvido há um ano pelo Laboratório de Conservação e Restauro (Lacor) do TJAL. Nos registros, é possível perceber não apenas a brutalidade da escravidão, mas também humanidade, resistência e conhecimento jurídico por parte da população escravizada.

"Existe todo um movimento negro na Alagoas Colonial que está fora daquela lógica que a gente sempre entende de resistência negra, do escravo fugindo pro quilombo ou fazendo algum tipo de manifestação. Essa luta é uma luta judicial. A população negra acessava a justiça para poder solicitar o seu direito", afirmou a coordenadora do Lacor, Mariana Marques.

A coordenadora cita o caso do escravizado João, que entrou com ação na Justiça em 1885. Ele requereu a própria liberdade com fundamento na Lei Feijó, de 7 de novembro de 1831. "Essa foi a primeira lei que tentou acabar com o tráfico transatlântico de negros africanos da costa da África para o Brasil", explicou Mariana.

João, segundo o processo, foi traficado após a promulgação da lei, em um navio à vela, indo parar na Bahia. O Lacor trabalha atualmente na restauração de mais de 100 documentos envolvendo a escravidão. "As fontes primárias existentes apresentam uma realidade valiosa e pouco conhecida da participação efetiva de negros e negras enquanto detentores de poder e conhecimento acerca de seus parcos direitos na busca de suas alforrias", disse Mariana.

Para Hilda Monte, pesquisadora, historiadora e paleógrafa do TJAL, o que mais chama atenção nos documentos é o sofrimento dos escravizados. "Eles têm muitas dificuldades de defesa nos processos, mas não desistem. Falam, clamam, resistem com o que têm em mãos".


O sistema judicial, lembrou Hilda, era favorável aos senhores e proprietários. "Esses quase nunca eram punidos por violarem as leis".

A juíza Bruna Fanny, que também atua na coordenação do Lacor, afirmou que o Judiciário teve papel na manutenção da escravidão no Brasil. "Em um primeiro momento, é preciso reconhecer, sim, o Judiciário como agente legitimador do sistema escravocrata, o que era formalmente previsto, pautado nesse sistema positivista, de legalidade estrita".

Houve, posteriormente, uma mudança social e jurídica. "A visão histórica dos processos revela uma evolução pela qual passou o sistema jurídico como um todo, em que se ultrapassou a mera observância da lei para ir além e verificar a compatibilidade com os valores orientadores da sociedade e do ordenamento jurídico, tais como o vetor central do respeito à dignidade humana, da igualdade, da proporcionalidade, razoabilidade e humanidade das penas".

A juíza destacou a importância do projeto do Lacor. "Esses documentos registram nomes, rotas, resistências, famílias separadas, alforrias concedidas ou negadas. Para pesquisadores, movimentos sociais e comunidades descendentes de escravizados, esse acervo é insubstituível. É o retrato de vidas, de pessoas que viveram e construíram a história do nosso estado".

O desembargador Tutmés Airan, que preside as comissões de Gestão Documental e de Memória do TJAL, também avalia como positiva a preservação do material. "A escravidão precisa ser lembrada para que nunca mais se repita". Após o trabalho de preservação e restauro, o Lacor deve repassar todo o acervo para o Setor de Digitalização do Arquivo Judiciário, para que seja disponibilizado a pesquisadores e interessados. O laboratório também planeja expor o material no Centro de Cultura e Memória (CCM) do TJAL.

No museu, localizado no Centro de Maceió, já são exibidos documentos relacionados à escravidão em Alagoas, como cartas de alforria e contratos mercantis de compra e venda de escravizados.

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