EDUCAÇÃO
Alunos de colégio da Ufal denunciam problemas na gestão e no ensino
Falta de aulas, saída de profissionais e possível suspensão do ensino infantil preocupam pais
Pais e responsáveis por alunos do Colégio de Aplicação Professora Telma Vitória (CApTV), ligado à Universidade Federal de Alagoas (Ufal), questionam decisões relacionadas à gestão e ao funcionamento da unidade. Entre os pontos denunciados estão a falta de um Conselho Escolar em funcionamento por cerca de quatro anos, mudanças na organização do ensino, saída de professores e a possibilidade de suspensão do Ensino Fundamental a partir de 2027.
A situação se agravou em julho deste ano, após supostas denúncias de assédio moral contra professores do colégio. Diante do cenário, a unidade informou que a Secretaria Municipal de Educação (Semed) cancelou a parceria com a Ufal e comunicou a devolução dos profissionais cedidos ao CApTV. Além do comunicado do colégio sobre a retirada dos professores, a direção da unidade encaminhou, no mesmo período, à Reitoria da Ufal um documento informando a decisão de suspender o Ensino Fundamental a partir do próximo ano.
Segundo o material apresentado pelos pais, as famílias ainda aguardavam uma reunião com a administração central da universidade para discutir os impactos das medidas e o futuro da unidade.
A preocupação com a continuidade escolar, porém, começou antes. Em novembro de 2025, os responsáveis foram informados de que o segundo ano do Ensino Fundamental seria oferecido em apenas uma turma. Na época, havia duas turmas de primeiro ano, totalizando 28 crianças, enquanto seriam disponibilizadas 20 vagas para a etapa seguinte. A possibilidade de que oito estudantes ficassem sem vaga e fossem submetidos a sorteio provocou reação dos pais, que passaram a buscar diálogo com a Reitoria, a Ouvidoria e o Ministério Público Federal.
Outro ponto questionado é a ausência de um Conselho Escolar em funcionamento durante aproximadamente quatro anos. A questão chegou ao Ministério Público Federal, que instaurou um procedimento preparatório e, posteriormente, expediu recomendação à Ufal. Em 2026, foi publicado um ato criando um Conselho Escolar Pro Tempore, mas, segundo o documento das famílias, a efetiva posse e o funcionamento do órgão ainda eram pendências.
Os responsáveis também relatam preocupação com mudanças no regime e nos turnos de funcionamento do Ensino Fundamental. Segundo o material, as alterações tiveram impacto especialmente sobre crianças que dependem de rotinas estruturadas, incluindo estudantes que realizam terapias em horários fixos. Para os pais, decisões dessa natureza afetam não apenas a organização escolar, mas também a rotina das crianças e de suas famílias.
Professora questiona devolução
A saída de profissionais sem justificativas é citada entre os problemas levantados antes mesmo da decisão da Semed. Um dos casos é o da professora Isabel Ferreira Freitas, servidora efetiva da Rede Municipal de Educação de Maceió que atuava no CApTV.
Em manifestação encaminhada à Ouvidoria da Ufal, Isabel relata que foi devolvida à Secretaria Municipal de Educação em 14 de maio de 2026, sem que, segundo ela, tivesse sido apresentada uma justificativa administrativa, pedagógica ou funcional formal. A professora afirma ainda que foi retirada imediatamente dos grupos institucionais de comunicação da escola.
“No dia da devolução eu fui retirada de todos os grupos de WhatsApp da instituição, sem direito até de me despedir das famílias e das crianças”, afirmou Isabel.
A professora ainda relata que foi impedida de entrar na unidade em julho, quando precisou comparecer ao colégio para assinar um documento. Segundo ela, ao chegar, foi mantida do lado de fora pelo segurança, sob a chuva e sem guarda-chuva, enquanto aguardava uma autorização da gestão para entrar. “Expliquei que não havia problema em aguardar a autorização, mas pedi apenas para entrar até o segundo portão, a fim de me proteger da chuva. Ainda assim, ele informou que não poderia abrir o portão sem a autorização da gestão da escola. Diante da situação e do constrangimento causado, optei por ir embora.”
No documento, Isabel afirma também que recebeu manifestações de famílias que demonstraram surpresa e incompreensão diante de sua saída. De acordo com o relato apresentado à Ouvidoria, os responsáveis não apontaram insatisfação com a atuação profissional da professora e ainda destacaram o trabalho desenvolvido por ela junto às crianças. A professora pediu que a Ouvidoria apurasse a ausência de fundamentação formal para sua devolução, os procedimentos adotados e sua exclusão dos espaços institucionais de comunicação. Também solicitou a análise da legalidade da medida.
Famílias pedem transparência
Com a possibilidade de suspensão do Ensino Fundamental em 2027, os responsáveis aguardam uma definição da Ufal sobre o futuro da etapa e sobre a situação dos estudantes que já estão matriculados. Também permanecem em discussão questões relacionadas à gestão da unidade, ao Conselho Escolar e à saída de profissionais.
As famílias afirmam que buscam esclarecimentos da universidade sobre as decisões que afetam o funcionamento do CApTV. Entre as dúvidas estão as razões para a suspensão do Ensino Fundamental, as alternativas avaliadas pela instituição e como será garantida a continuidade escolar dos alunos.
“Não queremos o fim do CApTV/UFAL. Queremos que ele seja fortalecido. Não queremos confronto com a escola ou com a UFAL. Queremos diálogo, transparência, participação e, acima de tudo, a garantia de que nossas crianças não serão prejudicadas por problemas administrativos que não foram criados por elas”, afirmaram.
Outro lado
Em nota, a Ufal informou que o Gabinete da Reitoria (GR) está acompanhando as ocorrências relatadas, todas elas já sob os cuidados dos setores competentes e que estão sendo feitas tratativas que garantam a manutenção do Captv. Confira a nota na íntegra:
A respeito dos questionamentos recebidos sobre denúncias envolvendo a gestão do Colégio de Aplicação Telma Vitória (Captv), a Gestão Central da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) esclarece que o Gabinete da Reitoria (GR) está acompanhando as ocorrências relatadas, todas elas já sob os cuidados dos setores competentes.
No que diz respeito às relações do Captv com a Secretaria Municipal de Educação (Semed) de Maceió, fica esclarecido que vêm sendo feitas tratativas da Reitoria com Semed e o Gabinete do Prefeito, todas as partes empenhadas na construção de um caminho técnico, legal e administrativo que não gere interferência sobre as atividades do colégio de aplicação e que garantam a manutenção do Captv.
Desse modo, tão logo estejam concluídas essas discussões técnicas entre as partes, será agendada reunião para apresentar à comunidade usuária as soluções alcançadas.



