BOLSA DE VALORES

Após oito altas seguidas, Ibovespa cai 0,77%

Dólar sobe 1,12% com exterior
Por Estadão Conteúdo 17/05/2023 - 04:20
A- A+
Divulgação
Dólar e Real, relação de altos e baixos
Dólar e Real, relação de altos e baixos

O Ibovespa conseguiu operar em boa parte do dia acima da marca d'água, evitando então realização de lucros e estendendo a série de ganhos pelo que seria a nona sessão, sequência não vista desde o intervalo entre 14 e 26 de fevereiro de 2018, de acordo com o AE Dados. Hoje, oscilou entre mínima de 108.085,20, do fim da tarde, e máxima de 110.151,03 pontos, pico intradia desde 16 de fevereiro, saindo de abertura aos 109.029,12 pontos. O giro financeiro foi a R$ 28,1 bilhões nesta terça-feira. Na semana, o índice da B3 passa ao negativo (-0,25%) e, no mês, avança 3,60% - no ano, a perda acumulada está em 1,40%. No fim do dia, marcava nesta terça-feira baixa de 0,77%, aos 108.193,68 pontos.

Petrobras (ON +2,24%, PN +2,49%) foi a surpresa positiva da sessão entre as ações de maior peso e liquidez na B3, com a reação favorável do mercado à mudança na política de precificação dos combustíveis. Apesar da quebra de frequência em relação à referência externa, o desdobramento foi interpretado pelo lado positivo, de que contribuirá para a redução da volatilidade nos preços domésticos. "O mercado talvez estivesse se preparando para receber algo pior do que veio", diz Rodrigo Jolig, co-CEO e diretor de investimentos da Alphatree Capital, acrescentando que, depois de uma série tão extensa de ganhos para o Ibovespa, o índice passou hoje por uma acomodação, realizando lucros.

Na ponta do índice da B3, além das duas ações de Petrobras, destaque também para Hapvida (+8,25%) - com balanço trimestral -, Rede D'Or (+6,72%) e Raízen (+3,18%). No lado oposto, Magazine Luiza (-22,83%), após balanço trimestral pior do que o esperado, com prejuízo líquido de R$ 391 milhões entre janeiro e março, à frente de BRF (-9,17%) e 3R Petroleum (-7,53%) na sessão. Entre as blue chips, o dia foi ruim para os grandes bancos, em especial BB (ON -2,88%), e para o setor metálico (Vale ON -2,06%, Gerdau PN -2,67%).

"A mudança na política de preços da Petrobras já era algo dado, mas não se sabia qual seria o novo modelo a ser adotado. Já se sabia do abandono da política de paridade internacional. O que se propõe agora é que a Petrobras seja competitiva, mas, ao mesmo tempo, que os preços sejam bons para os compradores, os refinadores e distribuidores de combustíveis. A queda para os preços pode não ser tão relevante, porque não há um abandono do preço externo, mas sim uma abordagem mais subjetiva, que pretende ser criteriosa para a formação de preços ainda que sem frequência específica, evitando altas repentinas como no início da guerra Rússia-Ucrânia", diz Paulo Luives, economista da Valor Investimentos.

"Há espaço no preço do petróleo que favorece esse corte de preços dos combustíveis no Brasil, em conjunto com a apreciação do real, da taxa de câmbio, nessas últimas semanas. Mas a nova regra para os preços da Petrobras precisa ser melhor compreendida, especialmente em contexto de eventual forte depreciação do câmbio ou de repique nos preços do petróleo no mercado internacional", diz Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos, referindo-se à possibilidade, em conjunturas externas menos propícias, de "internalização de prejuízos", prejudicando a saúde financeira da Petrobras.

Assim, mais cedo, mesmo sem grande fôlego para ampliar uma sequência vitoriosa ainda menos frequente do que a de oito ganhos - desde agosto de 2003, há quase 20 anos, foram apenas sete vezes em que o Ibovespa, sem deixar cair, conseguiu empilhar ao menos nove ganhos diários, de acordo com o AE Dados -, o índice da B3 conseguia se desconectar de mais um dia de cautela em Nova York. Por lá, ainda prevalecem as incertezas em torno da elevação do teto da dívida federal americana, com efeito para a curva de juros dos Estados Unidos. Um eventual 'default', embora improvável, afeta diretamente a perspectiva do mercado para a taxa de juros de referência do Federal Reserve no fechamento do ano.

Aqui, além das questões relacionadas aos preços praticados pela Petrobras - que hoje anunciou cortes dos valores cobrados das distribuidoras para a gasolina, o diesel e o gás de cozinha, a partir de amanhã -, os investidores acompanham também os mais recentes sinais sobre o arcabouço fiscal, e de forma mista: por um lado, alguns mecanismos que sugerem um pouco mais de controle e responsabilidade sobre as contas públicas, e, de outro, a possibilidade de que os gastos venham a crescer no curto prazo, avaliam analistas.

Dólar


Após uma sequência de cinco pregões consecutivos de queda, em que acumulou desvalorização de 2,46% e rompeu o piso de R$ 4,90, o dólar encerrou a sessão desta terça-feira, 16, em alta de 1,12%, cotado a R$ 4,9428, com máxima a R$ 4,9542 no início da tarde. Operadores atribuem o tropeço do real a movimentos naturais de correção e realização de lucros, em meio à onda de fortalecimento da moeda americana no exterior com indicadores positivos da economia dos EUA. Divisas emergentes e de países exportadores de commodities, incluindo pares do real como peso chileno e colombiano, também devolveram ganhos recentes sob impacto de dados abaixo do esperado de produção industrial e de vendas no varejo na China.

Por aqui, como já ventilado nos últimos dias, o texto do novo arcabouço fiscal apresentado pelo relator do projeto na Câmara, deputado Claudio Cajado (PP-BA), trouxe regras mais rígidas e gatilhos (trava de gastos) em caso de descumprimento da meta fiscal. A volta da necessidade de contingenciamentos também agradou. Analistas ouvidos pelo Broadcast ponderaram que, embora o parecer do relator seja mais duro que a proposta original do governo, representa folga para gastos no curto prazo, é muito dependente de aumento das receitas e não garante a estabilização da relação dívida líquida/PIB.

"Estamos vendo o dólar hoje se fortalecendo de forma global. No cenário doméstico, pode ter um pouco de estresse também com o arcabouço fiscal, apesar de o relator incluir gatilhos e diminuir exceções. Mas essa alta do dólar aqui parece mais um repique de curto prazo após várias quedas seguidas", afirma o líder de renda variável da Manchester Investimentos, Marco Noernberg.

Lá fora, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes - operou em alta moderada ao longo do dia, acima da linha dos 102,500 pontos, em meio às tensões que permeiam os debates para aumento do teto da dívida americana. Entre indicadores, a produção industrial dos EUA avançou 0,5% em abril na margem, quando se esperava estabilidade Já as vendas no varejo avançaram 0,4% no mês passado, abaixo do previsto (0,8%).

As taxas dos Treasuries avançaram, com a T-note de 10 anos superando 3,50%, o que contribui para tirar fôlego de divisas emergentes. À tarde, o presidente do Fed de Nova York, John Willians, afirmou que a inflação segue muito alta, mas já se move "gradualmente na direção correta". O presidente do Fed de Chicago, Austan Goolsbee, alertou que é "muito prematuro" antever corte de juros ainda neste ano, como aventado por uma ala do mercado.

"O câmbio hoje está tendo um pouco de realização de lucros do 'trade' comprado em real. Esse movimento é desencadeado por dois fatores: números de atividade abaixo do esperado na China e indicadores fortes nos EUA, que levaram a curva de juros para cima outra vez lá fora, em especial o Treasury de 10 anos", afirma o economista-chefe da Integral Group, Daniel Miraglia, para quem o mercado se equivoca ao precificar cerca de 25% de chance de mais uma alta dos juros pelo Fed. "Trabalhamos com probabilidade de 50% de alta de nova alta de juros. A crise dos bancos regionais não vai provocar desaceleração da economia americana".

Juros


Os juros futuros fecharam o pregão desta terça-feira, 16, em alta, mais intensa nos trechos intermediário e longo, em um dia de realização de ganhos após a queda das taxas nas últimas semanas. A redução do apetite global por risco em um dia de surpresas negativas com dados de atividade da China e Estados Unidos e a avaliação de que o novo arcabouço fiscal foi menos endurecido do que o esperado favoreceram a abertura da curva.

Na comparação com o ajuste desta segunda-feira, 15, o DI para janeiro de 2029 avançou 11,2 pontos-base, de 11,448% para 11,560%, em linha com as altas do DIs para janeiro de 2027 (11,153% para 11,260%), 2025 (11,667% para 11,730%) e 2024 (13,303% para 13,310%). O spread entre os contratos para janeiro de 2025 e janeiro de 2029, principal métrica de inclinação, passou de -21,9 pontos-base para -17 pontos-base.

A aversão ao risco deu a tônica do ambiente de negócios nesta terça-feira, após uma leva de dados econômicos dos EUA sugerir pouco espaço para que o Federal Reserve (Fed) comece a cortar juros em breve. A produção industrial do país cresceu 0,5% em abril ante março - acima da mediana dos analistas consultados pela FactSet (0,0%) -, enquanto as vendas do varejo avançaram 0,4% na margem, abaixo do consenso (0,8%).

Os rendimentos dos Treasuries operaram em alta ao longo do dia, pressionando as taxas domésticas. O fortalecimento global do dólar diante da perspectiva de uma política monetária apertada por mais tempo nos EUA levou a moeda americana a encerrar o dia com ganho de 1,12% em relação ao real, cotada em R$ 4,9428, o que também favoreceu o avanço dos DIs longos.

"Os dados sugeriram que o BC americano não deve ter espaço para cortar juros este ano, conforme o mercado vem precificando, e isso levou a um ajuste, com a T-Note de dois anos subindo por lá", diz o estrategista-chefe do Banco Mizuho do Brasil, Luciano Rostagno. "Os dados econômicos piores na China também reduzem o apetite por ativos de países ligados a commodities, o que acaba aumentando o prêmio na parte longa da curva."

No front doméstico, investidores passaram o dia avaliando o substitutivo do projeto de lei complementar do novo arcabouço fiscal, divulgado pelo deputado Cláudio Cajado (PP-BA) no início da madrugada. O texto atendeu a preocupações do mercado ao manter os relatórios bimestrais de monitoramento das despesas e receitas e a possibilidade de contingenciamento do Orçamento, mas foi lido como menos restritivo do que o esperado.

Para agentes do mercado, uma das principais preocupações é que o contingenciamento das despesas não vai atingir a política de valorização real do salário mínimo e o pagamento do Bolsa Família, preservados no relatório final. Economistas também alertaram que o texto diminuiu as restrições para o crescimento dos gastos no curto prazo ao determinar uma alta real de 2,5% para 2024, no teto dos limites da regra.

"Com a PEC da transição, que inflou a base de gastos e as despesas discricionárias para um patamar muito elevado, essa proposta dá ao governo uma capacidade de expansão de gasto nesse ciclo político, até 2026, que é praticamente inédita desde que tivemos a Lei de Responsabilidade Fiscal", afirmou o sócio-fundador da Oriz Partners e ex-secretário do Tesouro Nacional Carlos Kawall em entrevista ao Broadcast.

Para a estrategista-chefe da MAG Investimentos, Patrícia Pereira, a falta de mecanismos de controle mais fortes no relatório do arcabouço aumentou o risco fiscal e explica o movimento de abertura da curva na sessão, sobretudo nos trechos mais longos. Para a analista, a falta de punições mais severas em caso de descumprimento das metas também pesou sobre o movimento dos juros.

"O aumento do prêmio de risco para 2029 tem a ver com uma deterioração institucional, porque você trocou a regra do teto de gastos, que mantinha alguma rigidez, e as travas previstas hoje deixam muito na discricionariedade do Executivo. E a gente sabe que o governo atual não vai usar a discricionariedade para ser mais austero", afirma a analista.

Neste cenário, a redução dos preços de combustíveis anunciada pela Petrobras - de R$ 0,40 no litro de gasolina A, R$ 0,44 no litro do diesel tipo A, e R$ 0,69 no quilo do GLP - acabou não tendo impacto nos DIs, apesar do seu caráter desinflacionário.

Publicidade


Encontrou algum erro? Entre em contato