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De aliado dos Calheiros a vice de Flávio: confira trajetória de Gaspar
Reportagem da BBC News Brasil detalha relações do deputado com famílias tradicionais
O deputado federal Alfredo Gaspar (PL), candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro (PL), construiu sua trajetória política a partir de uma carreira no Ministério Público de Alagoas e de relações com importantes grupos políticos do estado. Uma reportagem publicada pela BBC News Brasil neste sábado (24) detalha as ligações do parlamentar com as famílias Collor e Calheiros, sua atuação no Congresso Nacional e episódios que marcaram sua passagem pela política.
Antes de ingressar na vida eleitoral, Gaspar já mantinha vínculos familiares com figuras tradicionais da política alagoana. Seu pai, Carlos Alberto Pinheiro de Mendonça, trabalhou nas Organizações Arnon de Mello, pertencentes à família Collor, e coordenou a campanha de Fernando Collor ao Governo de Alagoas em 2010. O deputado também é casado com Adriana Andrade, filha de Moacir Lopes de Andrade, que governou Alagoas entre 1989 e 1991.
Formado em Direito, Alfredo Gaspar ingressou no Ministério Público em 1996 e ocupou funções importantes no combate ao crime organizado. Coordenou o Grupo Estadual de Combate às Organizações Criminosas (GECOC) e presidiu o Grupo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (GNCOC).
Durante sua atuação no Ministério Público, participou de investigações envolvendo figuras políticas alagoanas. Entre elas, a ex-prefeita de Piranhas Mellina Freitas, acusada de irregularidades envolvendo aproximadamente R$ 16 milhões em obras públicas, e o presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Victor, denunciado em um processo relacionado a supostos desvios de recursos do Legislativo estadual. Este último caso acabou arquivado.
Apesar dessas investigações, Gaspar também integrou governos ligados ao grupo político de Renan Calheiros. Foi secretário de Defesa Social na administração de Renan Filho e, posteriormente, secretário de Segurança Pública de Alagoas. Em 2020, disputou a Prefeitura de Maceió pelo MDB, partido de Renan Calheiros. Terminou o primeiro turno na liderança, com 110.234 votos, equivalentes a 28,87% dos votos válidos, mas foi derrotado por João Henrique Caldas, o JHC, na segunda etapa da eleição.
Dois anos depois, foi eleito deputado federal e passou a concentrar sua atuação parlamentar em temas relacionados à segurança pública e ao combate à corrupção. Segundo levantamento da BBC, aproximadamente metade de seus 140 discursos na Câmara abordou essas questões, enquanto cerca de 52% das manifestações fizeram críticas ao presidente Lula, ao PT ou à esquerda.
Gaspar ampliou sua projeção nacional ao assumir a relatoria da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, instalada para investigar irregularidades envolvendo benefícios previdenciários. Seu relatório final, posteriormente rejeitado, propôs o indiciamento de ex-ministros, parlamentares e outros investigados.
A reportagem também analisou a produção legislativa do deputado. Durante o mandato, Gaspar assinou 116 proposições, sendo autor de 44 delas. Entre as propostas estão o endurecimento das penas para crimes contra agentes públicos e a obrigatoriedade de indenizações individuais às vítimas de desastres provocados por empresas, como o caso da Braskem em Maceió. Embora algumas iniciativas tenham avançado na Câmara, nenhuma proposta de sua autoria havia se transformado em lei até a publicação da reportagem.
Outro episódio abordado pela BBC envolve uma denúncia de estupro de vulnerável apresentada durante os trabalhos da CPMI do INSS. A acusação foi levantada pelo deputado Lindbergh Farias (PT), mas não foi acompanhada de provas suficientes para justificar a abertura de investigação, segundo decisão do Supremo Tribunal Federal.
Alfredo Gaspar negou a acusação e afirmou ter sido alvo de uma denúncia falsa. Após manifestação da Procuradoria-Geral da República, o ministro Gilmar Mendes determinou o arquivamento do pedido de investigação, por ausência de elementos indiciários suficientes.
A reportagem também destaca questionamentos sobre aproximadamente R$ 6 milhões em emendas parlamentares destinadas por Gaspar ao município de São José da Laje, na Zona da Mata alagoana, em 2024. Uma auditoria do Tribunal de Contas da União identificou problemas relacionados à rastreabilidade dos recursos, transferidos por meio das chamadas emendas Pix. Conforme os auditores, a prefeitura movimentou valores para outras contas municipais, dificultando a identificação da aplicação do dinheiro.
Na ocasião, Alfredo Gaspar informou que destinou os recursos após solicitação do então prefeito Rodrigo Valença e apresentação de um plano de trabalho. O parlamentar sustentou que a execução das despesas e a prestação de contas são responsabilidades exclusivas da administração municipal.
A Procuradoria-Geral da República arquivou um pedido apresentado por Lindbergh Farias para investigar a responsabilidade do deputado. Posteriormente, o ministro Flávio Dino determinou que a Polícia Federal apurasse possíveis irregularidades em emendas parlamentares identificadas na auditoria do TCU, incluindo a transferência destinada a São José da Laje.
A escolha de Alfredo Gaspar como candidato a vice-presidente de Flávio Bolsonaro representa uma nova etapa de sua trajetória política, marcada pela passagem por diferentes grupos partidários de Alagoas. Antes de integrar a chapa presidencial, o deputado aparecia à frente de Renan Calheiros em pesquisas de intenção de voto para o Senado.



