Conteúdo do impresso Edição 1262

DISPUTA

Esgoto do Salgadinho vai parar na Justiça

Governo e Prefeitura brigam pelo destino da maior fonte de poluição
prefeitura de Maceió
Salgadinho, riacho símbolo da poluição em Maceió, vira pauta na política alagoana
Salgadinho, riacho símbolo da poluição em Maceió, vira pauta na política alagoana

O Governo e a Prefeitura de Maceió buscam um consenso para a execução da maior obra de saneamento básico da capital: o Renasce Salgadinho, que promete diminuir – mas não zerar – a poluição no riacho Salgadinho, o maior esgoto a céu aberto jogado sem tratamento na praia da Avenida, chegando também aos municípios do litoral sul.

Existe um pano de fundo: as eleições. O governador Paulo Dantas (MDB) e o prefeito JHC (PL) são de grupos rivais. Jota disputa a reeleição este ano e projeta uma guinada num futuro próximo, em 2026: concorrer e vencer o Governo, situação que o calheirismo nem vai querer e promete combater até o fim.

As obras do Renasce Salgadinho foram parar na Justiça Federal porque, para serem concluídas, o projeto precisa ser conectado ao emissário submarino, administrado pela BRK, empresa que comprou os serviços de água e esgoto da região metropolitana pelos próximos 35 anos.

Por que o emissário? Porque o esgoto, após tratamento, é lançado no mar. O que mais preocupa? Existe um limite de vazão operado pelo emissário. Se for ultrapassado, a estrutura erguida sobre as águas na praia do Sobral pode ser danificada.

Daí vêm as questões burocráticas: o Instituto do Meio Ambiente (IMA) exige licenciamento; a Prefeitura, por sua vez, corre contra o relógio.

Em 13 de março, os lados sentaram-se na mesma mesa em reunião no Ministério Público Federal, chamado para buscar uma conciliação. A procuradora da República Juliana de Azevedo Santa Rosa Câmara pediu que os lados fizessem concessões em busca de um acordo. A Prefeitura disse que enviaria o processo de licenciamento ambiental, vazão e os parâmetros físico-químicos dos efluentes; o IMA prometeu avaliar rapidamente os impactos do Renasce Salgadinho no emissário.

Nova reunião, desta vez na 4ª Vara da Justiça Federal, onde tramita a ação civil pública, em 1º de abril. O IMA alegou que os documentos apresentados pela Prefeitura eram insuficientes. Novos encontros estão sendo agendados. E a questão do momento é: a vazão.

Em documento de 22 de março, o gerente de licenciamento do IMA, Rodrigo Henrique Nascimento Lopes Paiva, pede a repactuação do contrato, porque a vazão aumenta em 50% a capacidade do emissário submarino. Anota o gerente em seu parecer, enviado à Procuradoria Geral do Estado e obtido pelo EXTRA: “Essa contribuição adicional acarretará em uma modificação na composição dos efluentes, e em uma necessidade de readequações, levando em consideração incrementos no tratamento que hoje é realizado, bem como na sua disposição final, onde impactará diretamente o leito oceânico”.

Projeto

O Renasce Salgadinho prevê gastar R$ 76,4 milhões para diminuir os níveis de poluição do maior rio de esgoto em direção às praias da cidade.

A proposta é instalar jardins flutuantes nos riachos Pau D’Arco e Reginaldo, que correm para o Salgadinho; além disso, usar o emissário submarino para tratar o esgoto e jogá-lo em alto mar. A gravidade impede que as águas retornem para a praia da Avenida.

Inclui também a criação de travessias, zonas de convívio, calçadas requalificadas e acessíveis, além de pavimentação asfáltica da avenida Humberto Mendes, recuperando as margens do rio que está “engolindo” a pista. Obras que contemplarão também a requalificação ambiental dos riachos do Reginaldo, Pau d’Arco, do Sapo, Gulandi e Águas Férreas.

O método funciona no verão; no inverno, como as moradias continuarão a despejar esgoto ao longo do canal, além de lixo, as águas de uma chuva mais forte arrastarão tudo novamente para o mar.

A proposta não inclui um programa de educação ambiental aos moradores que têm casas às margens do riacho; tratamento de esgoto, lixo ou restos de construção jogados no canal; programa habitacional transformando casebres improvisados à beira do Reginaldo em lugares dignos para seres humanos.

A proposta é a volta ao passado, quando a Avenida da Paz era o endereço mais valorizado da capital. Morar, aliás, em frente à praia da Avenida era privilégio dos ricos do passado: o primeiro prédio para moradores construído em Maceió, o São Carlos, abrigava as maiores fortunas de Alagoas.

Salvador Lyra, pai do usineiro João Lyra, tinha sua mansão próxima ao riacho Salgadinho numa época em que se podia tomar banho e pescar nele; do outro lado do riacho, o hotel Atlântico, da família Miranda, cuja suspeita nos tempos da ditadura militar era que ele tinha comunicação com navios ou submarinos soviéticos. O poeta Jorge de Lima morava bem perto da ponte dos Fonseca, por onde passava o Salgadinho, antes de seu curso ser alterado e num tempo em que a praça Sinimbú se chamava Euclydes Malta, que esteve à frente do Governo alagoano por mais de uma década, no início do século passado.


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