MATA GRANDE
Pesquisadores buscam registros inéditos da fauna na Serra do Parafuso
Expedição científica usa armadilhas fotográficas para estudar espécies ameaçadas
Desde esta sexta-feira (28), uma equipe de três pesquisadores está em expedição na Serra do Parafuso, em Mata Grande, a 272,9 quilômetros de Maceió. O objetivo é aprofundar os estudos sobre a fauna local, incluindo macacos-prego-galego, gatos-mouriscos e outras espécies. Para registrar a presença desses animais, os pesquisadores instalaram cinco câmeras trap — armadilhas fotográficas acionadas por sensores térmicos que capturam imagens tanto de dia quanto à noite.
O estudo deve durar de 12 a 15 dias, período após o qual os equipamentos serão recolhidos para análise das imagens. A fim de atrair os animais para as lentes, são utilizados atrativos como água e milho.
Uma das maiores expectativas da equipe é flagrar onças-pardas, espécie criticamente ameaçada e cuja presença já foi registrada em Sergipe e Pernambuco. Em Alagoas, no entanto, há um hiato na distribuição desses felinos. Para entender mais sobre a pesquisa e suas possíveis descobertas, o EXTRA conversou com Marcos Araújo, bólogo e diretor-presidente do Instituto SOS Caatinga.
EXTRA ALAGOAS - Quais são os objetivos específicos do estudo sobre os macacos-prego-galego e os gatos-mouriscos?
MARCOS ARAÚJO - O projeto dos felinos tem por objetivo estudar aspectos ecológicos das populações desses animais na região, elucidando quais espécies de fato utilizam os habitats, como estão suas relações e seus papéis desempenhados no ecossistema, através da estimativa do tamanho das suas respectivas populações, dentre outras, auxiliando nas medidas de conservação a serem aplicadas para as espécies.
Atualmente, o Projeto Galego foca em criar uma interface entre pesquisa sobre ecologia comportamental, sociedade e meio ambiente, de modo a favorecer a conservação in situ do macaco-prego-galego no Nordeste brasileiro e, em Alagoas, especificamente no bioma da Caatinga. O projeto tem contribuído com a formação de pesquisadores locais e tem ido de encontro com o Plano de Ação Nacional para Conservação dos Primatas do Nordeste.
EA - Além de água e milho, há outros atratores utilizados para estimular a aproximação dos animais?
MA - A prática de utilização de atratores é bem variada de acordo com a espécie, podendo usar além dos materiais citados, urina de presas para atrair predadores, pois existem produtos comercializados com esse fim, semelhante a perfumes, dentre outros.
Já os macacos-prego-galego exibem uma dieta onívora, com alimentação baseada principalmente em frutas, mas também podem comer folhas, sementes, vertebrados e invertebrados. Para estimular a aproximação desses animais utilizamos ceva (uma plataforma para alimentação) com porções de espigas de milho, cana-de-açúcar, jaca, manga e dendê, que são disponibilizadas livremente para atração dos macacos-galegos.
EA - Por que a Serra do Parafuso foi escolhida como local de pesquisa?
MA - Os macacos-prego-galego vêm sendo estudados há décadas na Mata Atlântica pela professora Drª Bruna Bezerra e seus alunos de doutorado e mestrado, mas quando falamos dos macacos-galegos na Caatinga, o cenário é outro. Há poucos trabalhos voltados para os macacos-galegos na Caatinga, uma vez que essas populações foram recentemente descobertas no Sertão de Alagoas.
Os macacos-pregos, em geral, têm a capacidade de utilizar ferramentas para auxiliar na alimentação, e os resultados da nossa pesquisa recém-publicada colocam os macacos-prego-galego na lista de primatas que utilizam pedras como ferramentas, destacando a adaptabilidade da espécie na exploração dos recursos da Caatinga. No bioma da Mata Atlântica, esses primatas foram observados usando gravetos para pescar cupins, onde essa espécie tem sido amplamente estudada. No caso dos pequenos felinos, até o momento, não existem trabalhos publicados realizados na região.
EA - Existe alguma estimativa de quantos indivíduos das espécies-alvo ainda habitam a região?
MA - Não existe até o momento uma estimativa populacional para as espécies-alvo na região em questão, haja visto que pouquíssimos estudos, por outros pesquisadores, foram realizados até o momento. Nossa equipe iniciará os trabalhos na Serra do Parafuso logo mais.
EA - Como os dados coletados poderão contribuir para a conservação da fauna local?
MA - Através da coleta de dados, obteremos informações importantes sobre a fauna local, seja angariando conhecimento sobre as espécies ou informações que auxiliarão na tomada de decisões e na implementação de estratégias de conservação da área.
EA - Há possibilidade de encontrar espécies raras ou até desconhecidas na região?
MA - Existe a possibilidade. Não somente a área específica do estudo, mas o Bioma Caatinga como um todo enfrenta desafios quanto ao conhecimento científico produzido, por ser ainda pouco estudado quando comparado a outros biomas. Quanto mais pesquisas forem desenvolvidas, maior a probabilidade de encontrarmos espécies raras ou desconhecidas pela ciência ainda.
EA - Quais desafios a equipe pode enfrentar durante a expedição?
MA - A Caatinga possui muitos desafios, dentre eles, a alta temperatura representa uma dificuldade na execução das atividades, devido à exaustão pelo calor extremo. A obtenção de algumas ferramentas para a pesquisa, com alto custo, também é considerada um desafio, visto sermos uma Organização Não-Governamental que obtém financiamento para as atividades através de doações advindas de pessoa física.
EA - Quais são as instituições envolvidas na pesquisa? Há apoio governamental ou de outras ONGs?
MA - Atualmente, o Instituto SOS Caatinga possui parceria no desenvolvimento das pesquisas com a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Mesmo possuindo os títulos de utilidade pública estadual e municipal, não contamos com nenhum apoio governamental.
EA - Como o público poderá ter acesso aos resultados do estudo após a análise das imagens?
MA - Como produto das pesquisas em desenvolvimento, teremos a produção de teses de mestrado e doutorado, além da publicação de artigos em revistas científicas e nas mídias sociais.



