JOGO DO PODER
Sem rival, Renan Filho deve ter campanha ‘mais barata’
Ministro vai para terceira eleição ao governo, após lideranças ‘limparem’ cenário
O acordo em Brasília garantiu ao ministro dos Transportes, Renan Filho, assumir uma campanha ao governo para o próximo ano mais barata, não de graça, frise-se. E, como no passado recente, quem surgir será fácil de vencer.
Foi assim em 2014 quando Renan disputou e ganhou o primeiro mandato de governador. Por decisão do então governador Teotonio Vilela Filho, aliado histórico de Renan-pai, o escolhido para a sucessão foi o desconhecido assessor palaciano Júlio Cezar quando o posto era reivindicado pelo então vice de Téo Vilela, José Thomáz Nonô. De propósito, Téo pavimentou o caminho para Renan Filho.
O deputado federal Arthur Lira (PP) empurrou o pai, o senador Benedito de Lira (PP), para disputar o comando do Executivo. Com oito candidatos na disputa, o baixo desempenho (calculado pelo governo) de Júlio Cezar e o próprio desgaste de Biu de Lira facilitaram a vitória de Renan no primeiro turno.
Em 2018 foi ainda mais fácil. Renan disputou a reeleição, mas Lira filho não teria como lançar Lira pai ao governo já que ele disputaria a reeleição ao Senado. Com 17 partidos, Renan obteve 77,30% dos votos, muito mais que o segundo lugar, 11,06%, do desconhecido Josan Leite, do PSL, navegando na onda que elegeu Jair Bolsonaro à Presidência da República.
A escolha de Paulo Dantas para um mandato tampão e, em seguida, reeleito, foi mais arriscada. Dantas era um parlamentar desconhecido, de agenda restrita ao Sertão, mas ganhou o apoio do presidente da Assembleia, Marcelo Victor. A primeira vitória foi em uma eleição indireta, ou seja, votos entre os próprios deputados. A reeleição foi em voto direto. Diferença de exatos 74.294 eleitores no 2º turno para o então senador Rodrigo Cunha. Mesmo assim, valeu: os Calheiros elegeram seu sucessor.
Dantas anunciou que termina o mandato e vai apoiar para a sucessão Renan Filho. Se vencer, e o cenário está preparado por antecipação para isso, vai ao terceiro mandato. Levando em conta o período republicano, o feito dos Calheiros é inédito.
O primeiro governador, nomeado pelo então presidente da República, Deodoro da Fonseca, foi o irmão Pedro Paulino da Fonseca (1889-1890), que conseguiu indicar o sucessor Manuel de Araújo Góis (1890-1891) para, em seguida, o próprio Pedro Paulino voltar ao poder em 1891 (por dois meses), passando o bastão novamente para Manuel de Araújo (ficou quatro meses) até um governo provisório.
De 1900 a 1903, foi a vez de Euclides Malta, o primeiro eleito diretamente. Apoiou para a sucessão Joaquim Malta (1903-1905), o vice Antônio Cunha Rêgo (1905-1906), esquentando o lugar para a volta de Euclides (1906-1909), novamente escolhido pelas urnas, reelegendo-se pela 3ª vez (1909-1912), quando a oposição virou o jogo, promoveu um banho de sangue em Alagoas – incluindo o massacre nos terreiros de matriz africana em Maceió por acreditar que Euclides tinha um pacto com o Diabo e se garantir para sempre no poder.
Clodoaldo da Fonseca (1912-1915) foi eleito, apoiou o aliado (vitorioso) João Batista Accioli Jr (1915-1918), que, por sua vez fez campanha para Fernandes Lima (1918-1921) passando o poder para Manoel Capitolino da Rocha (1921), preparando o retorno de Fernandes Lima (1921-1924).
As eleições de 1950 também vinham na esteira de aliados eleitos pelos governadores. Silvestre Péricles de Góis Monteiro (1947-1951) teve o irmãos Edgar (1945) no governo, Ismar (1941-1945) e, lá atrás, Edgar (1935).
Silvestre foi derrotado por Arnon de Mello (1951-1956), por sua vez derrotado por Muniz Falcão (1956-1961), perdendo para Luiz Cavalcante (1961-1966) que apoiou Rui Palmeira disputando com Muniz (foi o mais votado), mas os militares impediram a posse e o presidente da ditadura Castelo Branco nomeou para interventor João José Batista Tubino, entregando o poder para a Arena, em votação indireta (via Assembleia Legislativa), ou seja, Lamenha Filho (1966-1971).
Ainda na ditadura, com Divaldo Suruagy (biônico nomeado de 1975 a 1978) surgiu Guilherme Palmeira, outro biônico de 1979 a 1982, renunciando para disputar mandato, assumindo, de novo, Divaldo Suruagy (1983-1986), já por votação direta. Era o período do governo “a quatro mãos”.
A oposição a este grupo conseguiu chegar ao poder com Ronaldo Lessa (1999-2003 e reeleito 2003-2006), que apoiou para a sucessão Teotonio Vilela Filho (2007-2011 e reeleito 2011-2015) e abrindo os caminhos para a vitória de Renan Filho (2015-2019 e reeleito 2019-2022).



