MEMÓRIA
A trajetória de um homem chamado Coronel José Otávio Moreira
No dia 31 de março de 1895, nas terras férteis de Capela, em Alagoas, nasceu um menino que o tempo moldaria em ferro e luz
No dia 31 de março de 1895, nas terras férteis de Capela, em Alagoas, nasceu um menino que o tempo moldaria em ferro e luz. Filho do major João de Deus Moreira e Silva — o conhecido Major Deusinho — e de Balbina de Almeida Moreira, ele trazia sangue de engenho. Cresceu ao cheiro da cana-de-açúcar e com a honra como herança, passada geração após geração.
Mas o destino, que não escolhe hora para ferir, marcou sua alma cedo. Aos 12 anos, sentado na varanda da casa-grande, assistiu, sem compreender, a uma cena que jamais se apagaria da memória: sua mãe em chamas correndo em desespero pelo terreiro, seguida por uma empregada tentando apagar o fogo com um cobertor. Ambas morreram.
Foi o trágico fim de um sofrimento silencioso. Foi o último gesto de uma alma ferida. Um suicídio brutal, presenciado em silêncio por um menino que, ali mesmo, naquele instante cruel, perdeu a mãe — e a infância.
E foi assim, entre o luto e a terra, que nasceu o homem. Aos 14 anos, já maduro além da idade, foi emancipado por um juiz para assumir a administração do engenho do pai, então adoentado. Cuidou do canavial, dos irmãos, da família — e se tornou senhor de engenho quando muitos da sua idade ainda aprendiam a assinar o nome. O tempo não o quebrou. O tempo o forjou.
Rapidamente, seu nome ganhou respeito em toda a região. Era conhecido como homem de palavra — e de honra. Pagava suas dívidas como quem agradece à vida pela oportunidade de lutar. Assim nasceu o nome: Coronel José Otávio Moreira. E o nome cresceu até se tornar sinônimo de retidão.
A LUTA PARA CONSTRUIR A USINA JOÃO DE DEUS
Aos 20 anos, levou o pai debilitado para conhecer uma nova propriedade às margens do Rio Paraíba. Apontando para o horizonte, disse: “Aqui construirei uma usina de açúcar. Ela terá o seu nome: João de Deus”.
Era 1915. Em todo o estado de Alagoas existiam apenas três usinas. Mas aquele jovem, com espírito de aço e coragem de desbravador, decidiu que faria nascer a quarta. E fez. Em cinco anos, ergueu a Usina João de Deus — tijolo por tijolo, engrenagem por engrenagem — mas, acima de tudo, com palavra e honra.
Nessa época, um industrial alemão, fabricante de ferragens para usinas, veio até ele para vender equipamentos. Analisando os custos, o coronel disse com firmeza: “Não posso comprar agora”.
O industrial, sensibilizado com sua honestidade, propôs: “E se eu financiar para o senhor?”
A resposta veio sem hesitação: — Assim, eu posso.
E assim foi feito o negócio. E, centavo por centavo, o coronel pagou. Fez questão. Para ele, dívida era questão de honra.
Anos depois, com a eclosão da Segunda Guerra Mundial e o rompimento das relações entre Brasil e Alemanha, muitos empresários suspenderam os pagamentos aos credores alemães e usufruíram do chamado “perdão de guerra”. Mas meu avô não era como os outros. Foi pessoalmente ao consulado alemão, no Recife, e pediu que enviassem um telegrama ao industrial: “Eu quero pagar.”
Essa frase se ergue até hoje como um monumento invisível à sua integridade. Enquanto tantos se esquivavam, ele seguia firme. Porque, para o coronel, pagar não era obrigação — era princípio. Honrou a própria palavra até o último centavo. Compromisso era sua verdadeira riqueza; dignidade, seu maior patrimônio. Honra e palavra para ele valiam mais do que ouro.
Meu avô teve sete filhos. Dois nasceram do primeiro casamento com sua prima, a quem a vida levou cedo demais. O primogênito, José — a quem todos chamavam carinhosamente de Zezito — era uma criança brilhante, mas partiu aos 12 anos, deixando um vazio imenso no coração do pai.
A segunda filha, Julieta, nasceu sob o luto da perda da mãe, que faleceu no parto.
Dois anos após essa tragédia, ele casou-se com sua outra prima — e então cunhada — Alcides, a querida Voinha, como era chamada por todos os netos. Com ela, construiu uma nova família e teve mais cinco filhos: Dilma, Diva, Napoleão (meu pai), Antônio e José Otávio. Além dos filhos, meu avô e minha avó criaram como filha a sobrinha deles, a Tia Dadá. Juntos, formaram um núcleo forte, sustentado pela firmeza do patriarca e pela doçura da matriarca.
AMIGO DE GÓES MONTEIRO E DE KUBITSCHEK
Na década de 1950, aos 55 anos, meu avô já era um dos homens mais prósperos de Alagoas. Amigo próximo do general Góes Monteiro, influente durante a era Vargas, e do então governador Silvestre Péricles, teve papel relevante na política estadual.
Mais tarde, foi o único usineiro a apoiar a candidatura de Muniz Falcão ao governo; era admirador e correligionário do presidente Juscelino Kubitschek com quem também dialogava.
Lançou-se candidato ao Senado, com o apoio de Falcão e de JK, mas a vitória não veio. Sobre isso, escreveu o deputado federal Medeiros Neto — seu amigo e admirador sincero: “Foi candidato a senador, porém o momento hostil, então dominante, não lhe permitiu vencer o pleito. Depois disso, procurou isolar-se nos canaviais que continuam cercando a mordomia da sua usina principal. Viveu os últimos 20 anos como o solitário dos campos que fertilizou, transformando-os em celeiros da indústria do açúcar”.
Nos anos seguintes, a vida continuaria a testar sua resiliência. Em 1969, perdeu sua amada esposa Alcides. No ano seguinte, faleceu tragicamente seu genro Rubens Canuto — deputado estadual, casado com sua filha, a Tia Dilma — então em plena campanha ao Senado. Era considerado favorito nas eleições e seria, muito provavelmente, o mais votado. Meu avô o tinha como um filho, e essa perda o abalou profundamente. Pouco depois, também perdeu outro genro, Abdón de Paula Gomes, marido de sua filha, a Tia Diva.
Em 1972 veio a dor maior: a morte precoce de seu querido filho Napoleão — meu pai — aos 41 anos. Lembro com emoção do dia em que, ainda criança, com apenas 12 anos, ele me chamou, segurou meus ombros, olhou profundamente nos meus olhos com firmeza e serenidade, e disse: “De hoje em diante, seu avô será seu pai e seu avô. Entendeu?”
Naquele momento de dor, suas palavras foram abrigo. Foi ali que encontrei forças para continuar.
Ele ainda viveria para enterrar outros entes queridos, entre eles mais um genro, Horácio Gomes de Melo — marido de sua filha, a Tia Julieta —, e seu primeiro neto, Roberto, filho de sua filha, a Tia Diva.
Mas nem mesmo o luto recorrente o abalou por completo. Como uma fortaleza no meio da tempestade, permaneceu de pé: lúcido, firme e digno até o fim. Faleceu em 1979, aos 85 anos, deixando um legado de coragem, seriedade e amor pela terra que tanto trabalhou e honrou.
ÚLTIMO CORONEL DA CASA GRANDE SEM SENZALA
Volto às palavras de Medeiros Neto, que o conheceu de perto e o descreveu com precisão comovente:
“Foi, sem dúvida, um cérebro de administrador. Seus negócios revestiam-se da seriedade das contas sem manchas ou mazelas. Criou filhos e netos para sucedê-lo, se assim o quiserem. Nunca é fácil uma sucessão sem atropelos, ou uma mudança sem alternativas. Mas, quem não crê no valor da herança espiritual que prepondera sempre sobre a alma da maioria dos descendentes? O pranteado comendador José Otávio Moreira, último dos coronéis da casa grande, sem senzala, deverá perenizar-se na sua tarefa de reconstrução econômica do estado.
Os filósofos condenam as riquezas, porém os homens públicos as aplaudem, quando criadas como fortunas lícitas, sérias e justas. O ouro — já dizia alguém — é o sangue do corpo social. Sem ele, lamentavelmente, nada se constrói de material. As riquezas, assim como a glória e a saúde, têm o valor de quem as formou. Para a alma do Coronel José Otávio Moreira, a riqueza não será obstáculo para entrar no reino dos céus, onde desfrutará de uma eternidade feliz”.
Meu avô, Coronel José Otávio Moreira, foi um homem de muita força e resiliência. Para mim, ele é exemplo de fibra, administrador nato e patriarca exemplar.
A vida dele foi marcada por grandes conquistas e perdas dolorosas, mas nada jamais conseguiu tirar a dignidade e a coragem que ele carregava. Mais do que um empresário, mais do que um usineiro, foi um homem de palavra — e de alma. Enfrentou dores que poderiam destruir qualquer um, mas ergueu-se maior do que todas elas.
Tinha uma fé inabalável em Deus. Acreditava, com convicção serena, que Deus dá provas fortes a homens fortes — e ele as enfrentou com coragem, fé e cabeça erguida. Sua espiritualidade não era feita de palavras, mas de atitudes silenciosas, de uma confiança inquebrantável mesmo nos momentos mais sombrios.
Hoje, ao olhar para trás, vejo esse gigante com os olhos de neto, mas também com a admiração de quem compreende que há homens que não passam. Eles permanecem.
LEGADO QUE TRANSCENDE TEMPO E ESPAÇO
Seu legado transcende o tempo e o espaço. Ele foi, acima de tudo, um homem que soube transformar tragédias em força, que construiu sua vida e sua família sobre os alicerces sólidos da integridade, do trabalho árduo e da fé. Sua história é um testemunho de que a verdadeira grandeza não está apenas nas riquezas materiais, mas na capacidade de resistir às tempestades da vida e de semear esperança no solo fértil da perseverança.
Meu avô já não está entre nós, mas seu nome ecoa na história de Alagoas e na memória da família. Permanece no solo onde a cana ainda cresce, nos valores que plantou e na alma de todos que tiveram o privilégio de viver sob sua sombra.
Era um homem temido e admirado. Para mim, um farol. Uma árvore de raízes fundas que sustenta a terra ao redor. Passou por tragédias, resistiu ao impossível, construiu com as próprias mãos um legado.
Hoje, lembramos com carinho e respeito o legado de um homem cuja vida foi marcada pela luta, pela fé, pela retidão — e, sobretudo, pelo amor incondicional à família e à terra.
Coronel José Otávio Moreira não foi apenas um homem do seu tempo. Foi um homem que fez o tempo respeitá-lo. E, enquanto houver memória, haverá eco para sua voz: “Eu quero pagar”.



