FIM DA LINHA
Braskem encerra produção de cloro e soda em Alagoas
Planta do Pontal será desativada após 49 anos em operação e culminar na maior tragédia ambiental da história do estado
A Braskem desativou a terceiro e última célula eletrolítica utilizada na produção de cloro, soda cáustica e dicloretano na fábrica do Pontal da Barra, em Maceió. Com quase meio século de atividades no estado, a petroquímica encerrou, definitivamente, a mineração de sal-gema depois da tragédia ambiental que destruiu cinco bairros da cidade e provocou o deslocamento de 15 mil famílias forçadas a abandonar suas casas, seus negócios e suas memórias afetivas. No total, 60 mil pessoas foram afetadas pelo afundamento do solo.
Após decretar o fim das atividades de mineração, a Braskem decidiu abastecer as unidades de PVC e MVC no Polo Cloroquímico de Marechal Deodoro com dicloretano importado dos Estados Unidos e China, com previsão de 500 mil toneladas/ano. O produto será armazenado nas instalações da fábrica do Pontal, que será usada para estocar o produto importado, antes produzido pela própria empresa. O sal-gema era a matéria-prima essencial para a produção de PVC e soda cáustica na unidade de Maceió e na planta de em
Marechal Deodoro.
A Braskem ainda não decidiu pela desativação total da planta do Pontal nem o destino das instalações industriais, sucateadas ao longo das décadas. Vale lembrar que mesmo fora de operação a fábrica oferece risco potencial de acidentes provocados pela tricloramina, presente nos equipamentos paralisados. Trata-se do tricloreto de nitro gênio, composto químico oleoso e explosivo pela reação de cloro e amônia.
A empresa tem informado aos sindicatos que demitirá ao menos metade dos 300 trabalhadores ligados diretamente à planta do Pontal, afora os 600 terceirizados, já afastados. Mas os dirigentes sindicais acreditam que poucos ficarão para operar os serviços de armazenagem e que a maioria será demitida nos meses seguintes, como ocorreu na fábrica de cloro e soda de Camaçari (BA) após esta ser desativada.
“A política da Braskem é transferir parte dos funcionários para outras unidades no país e logo depois demiti-los, o que deve ocorrer agora com o fechamento da fábrica de Maceió”, afirma o dirigente sindical Antônio Freitas da Silva, do Sindipetro, ao contestar
informações da petroquímica de que estaria preocupada em manter o emprego dos trabalhadores.
Segundo Freitas, a transferência de trabalhadores para outras fábricas da Braskem é uma forma de burlar a legislação e reduzir os custos das demissões em caso de encerramento de atividades. “Até agora foram transferidos 76 funcionários para o Polo de Marechal e para fábricas em outros estados, onde os custos das demissões são menores”, diz o sindicalista, que propôs um plano de estabilidade temporária até final do prazo do acordo coletivo de trabalho em agosto de 2027.
Antônio Freitas foi informado pela empresa de que só 90 dos cerca de 300 empregados ficarão na fábrica do Pontal para cuidar dos serviços de armazenagem e transporte do dicloretano para a planta de Marechal Deodoro. O sindicalista destaca que a maior parte dos trabalhadores será demitida e uns poucos transferidos.
“Se não houver acordo, vamos questionar as demissões no Tribunal Regional do Trabalho”, destacou o sindicalista.
Lyra não acredita em fechamento da fábrica
Segundo a Federação das Indústrias de Alagoas, a Braskem está realizando uma adequação tecnológica na unidade industrial localizada no Pontal da Barra, em Maceió.
“A planta, que antes se dedicava à produção de cloro soda, passa agora a processar dicloretano, composto químico utilizado como insumo fundamental na fabricação do PVC (policloreto de vinila). O investimento é estimado em R$ 100 milhões e garante a continuidade das operações industriais no local”, informou ao jornal EXTRA o presidente da Fiea, José Carlos Lyra de Andrade. Ele explicou que a transformação da unidade não representa o fechamento da fábrica, mas sim uma mudança de perfil produtivo.
“A informação que recebemos é que a operação no Pontal continua, com parte dos profissionais realocados para a unidade de PVC em Marechal Deodoro. A Braskem realizou um processo de modernização para que a antiga planta de cloro soda passasse a atuar como processadora de dicloretano, mantendo suas atividades e empregos”, afirmou.
De acordo com o líder industrial, não há até agora informações de impacto relevante na arrecadação estadual de ICMS, uma vez que eventuais reduções pontuais tendem a ser compensadas pelo aumento da produção e da movimentação econômica da unidade de Marechal Deodoro, que vem ampliando a fabricação de PVC.
Lyra destacou ainda que a Braskem segue com investimentos importantes em Alagoas, inclusive na área de sustentabilidade. “Além dessa conversão no Pontal, está em implantação um complexo de biomassa fruto da parceria da Braskem com a empresa francesa Veolia e a alagoana Grune, voltado à produção de energia renovável. É um projeto que reforça a presença da companhia e o papel do estado como polo de referência na química e no plástico”, pontuou.
Sobre o problema geológico nos bairros de Maceió, o presidente da Fiea ressaltou que a empresa reafirma o cumprimento integral dos acordos firmados com o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público Estadual (MPAL), a Defensoria Pública da União (DPU) e a Defensoria Pública do Estado (DPE), mantendo as ações de reparação e compensação em andamento.
“A Braskem é parte de uma cadeia industrial que se consolidou em Alagoas e que continua contribuindo para o desenvolvimento do estado. Cabe a nós, enquanto Federação das Indústrias, reconhecer a importância dessa atividade e acompanhar de forma responsável sua evolução”, concluiu José Carlos Lyra.



