Conteúdo do impresso Edição 1350

TRAGÉDIA AMBIENTAL

Defensoria pede suspensão da venda da Braskem até que passivo de Alagoas seja resolvido

Órgão aponta irregularidades em acordo entre Novonor e IG4 Capital
Por TAMARA ALBUQUERQUE 31/01/2026 - 06:00
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ROQUE DE SÁ/AGÊNCIA SENADO
Elias Fragoso: reparação ambiental é prioritária e imprescritível
Elias Fragoso: reparação ambiental é prioritária e imprescritível

As vítimas da tragédia socioambiental da Braskem em Maceió estão sob forte ameaça de novo golpe que pode consolidar, definitivamente, a perda dos seus direitos a um ressarcimento justo pela destruição à qual foram submetidas em decorrência do crime socioambiental decorrente da extração de sal-gema em Alagoas.

A ameaça chegou com o acordo que a Novonor (ex- Odebrecht) está finalizando para a venda de sua participação de controle na Braskem – de 50,1% do capital votante –, para a gestora de investimentos IG4 Capital, que representa bancos credores da petroquímica (BNDES, BB, Caixa, Itaú e Bradesco). O acordo, que já está sob avaliação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), avança sem contemplar o passivo socioambiental decorrente do desastre em Maceió.

Na avaliação do diretor-executivo do Instituto Nordeste, economista Elias Fragoso, o passivo socioambiental de Maceió é a maior obrigação financeira da Braskem, superando o valor contábil provisionado.
“Qualquer operação que busque privilegiar instituições bancárias, isolando o passivo de Alagoas em estruturas sem liquidez, afronta normas de ordem pública e compromete a função social da empresa. A reparação ambiental é prioritária e imprescritível, não podendo ser afastada em operações societárias”, esclarece o economista.

Diante desse fato prestes a ser efetivado, a Defensoria Pública de Alagoas (DPEAL), através da iniciativa do defensor Ricardo Antunes Melro, está recorrendo ao Cade, à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda, e à
Controladoria-Geral da União (CGU) solicitando a interrupção do acordo até que se comprove o lastro real de solvência ou que haja entendimento em relação a uma proposta “ganha-ganha” que leve ao encerramento definitivo do passivo de Alagoas.

A Defensoria tem sido o bastião de apoio para a sociedade alagoana neste complexo processo, visando garantir que os direitos dos atingidos permaneçam no centro da agenda pública, na avaliação do diretor do Instituto Nordeste.

Junto à CVM, a solicitação é para suspender a negociação das ações da Braskem até que o passivo de Alagoas seja integralmente confessado - já que a petroquímica nunca esclareceu valores - e provisionado nos balanços. Por fim, a Defensoria recorre à CGU para que haja a nulidade de atos administrativos que permitam a participação da Petrobras na transferência de controle da Braskem sem
a devida garantia da resolução do passivo socioambiental de Alagoas.

Entendendo o processo

O acordo entre a IG4 Capital e a Novonor vai viabilizar a transferência das ações da empresa em poder dos bancos credores para
um Fundo de Investimento em Participações (FIP) Multiestratégia, que passará a deter o “valor” e o poder político na Braskem.
Porém, essa alternativa onde os bancos credores buscam garantir a sua saída financeira através da valorização futura e dos dividendos da Braskem “saneada” ou na venda da empresa é altamente prejudicial às vítimas da empresa em Alagoas.

Na representação consta que, ao desconsiderar o passivo de Alagoas, omitido em balanços, a operação entre Novonor e IG4
Capital cria um Fundo de Provisão residual — um verdadeiro fundo sem fundos — para enterrar o direito das vítimas de Alagoas no longuíssimo prazo. “Tal arranjo foi consolidado ignorando-se deliberadamente a proposta ‘ganha-ganha’, cuja tentativa
de interlocução técnica junto à IG4 Capital foi sumariamente desconsiderada pelos estruturadores do negócio”, considera.

Segundo a Defensoria Pública, “ainda que se alegue a criação de um fundo destinado à reparação socioambiental, trata-se de mecanismo meramente formal, destituído de recursos suficientes e incapaz de assegurar a efetiva reparação exigida pela legislação”. A representação explicita que em termos práticos, o fundo não cumpre a função de garantir a prioridade legal dos credores socioambientais, funcionando apenas como instrumento de aparência para viabilizar a negociação societária.

Alerta, ainda, sobre a participação da Petrobras nessa manobra, a qual, na condição de protagonista relevante na Braskem
e tendo o governo federal como seu maior acionista, não poderia anuir com um modelo de negócio que mascara obrigações bilionárias que infringem a lei.


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