Jogo do Poder
Lira se encontra com donos de autoescola contrários à proposta de Renan Filho para CNH
Reunião aconteceu após deputado perder protagonismo para Renan pai na isenção do Imposto de Renda
A guerra política entre o senador Renan Calheiros (MDB) e o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP), pelos ânimos dos rivais, vai se intensificar. Depois do embate em torno do projeto que elevou para R$ 5 mil mensais a faixa de isenção do Imposto de Renda, um novo campo de disputa se desenha: o projeto do governo federal que propõe o fim da obrigatoriedade das aulas em autoescolas para obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). O tema, que tem apelo popular, está sob o comando do ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB), filho do senador, e pode se tornar o próximo front político entre as famílias Calheiros e Lira.
A vitória de Calheiros no episódio do Imposto de Renda foi clara. O Governo Lula havia confiado a Arthur Lira a missão de relatar o Projeto de Lei 1.087/2025, que “altera a legislação do Imposto sobre a Renda e institui redução do imposto devido nas bases de cálculo mensal e anual, além de uma tributação mínima para as altas rendas”. O plano era que a aprovação do texto fosse um trunfo político do Palácio do Planalto e de Lira, fortalecendo ambos para 2026. Mas a tramitação paralisada por sete meses na Câmara – orquestrada supostamente por Lira a fim de conquistar mais benesses do governo petista – abriu espaço para o senador emedebista, um velho cacique da política alagoana, agir com sorriso de canto de boca.
Em 24 de setembro, Calheiros, na presidência da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, aprovou um projeto praticamente idêntico, pressionando o avanço da proposta. Uma semana depois, em 1º de outubro, os deputados (ou melhor, Arthur Lira) foram forçados a aprovar o texto original do Governo Lula. O mérito político, antes reservado a Lira, terminou no colo de Renan, que relatou o projeto no Senado e manteve seu conteúdo integral para garantir celeridade. O texto foi aprovado por unanimidade no plenário do Senado na quarta-feira, 5. O governo projeta que as novas regras passem a valer a partir de 2026, beneficiando cerca de 16 milhões de contribuintes.
Após a votação, Renan Calheiros provocou: “O projeto dormitou na Câmara durante atípicos sete meses, indicando uma inapetência política para aprová-lo”. Lira reagiu com nota oficial, afirmando que o projeto “foi alvo de politicagem” no Senado.
“O relatório construído na Câmara foi resultado de um trabalho sério e responsável”, disse o deputado, acrescentando que as críticas de impacto fiscal eram “infundadas”. O embate consolidou o contraste entre os dois principais líderes políticos de Alagoas, que devem se enfrentar nas urnas em 2026 pelas duas vagas ao Senado.
A disputa eleitoral, segundo pesquisas recentes, tende a ser acirrada. Renan aparece com vantagem, em primeiro ou em segunda colocação, enquanto Lira enfrenta dificuldades com a possível entrada de nomes como do ex-deputado estadual Davi Davino Filho (PP), do deputado federal Alfredo Gaspar (União) e da primeira-dama de Maceió, Marina Candia, situação que está disseminando o eleitorado.
O episódio do Imposto de Renda fragilizou o emocional de Lira, que chegou a espalhar outdoors em Alagoas destacando sua relatoria do projeto, numa tentativa de reverter o desgaste.
Agora, a nova batalha entre Renan e Lira pode se desenhar em torno da proposta de CNH sem autoescola, uma pauta liderada por Renan Filho que conta com o aval do presidente Lula desde 1º de outubro. O projeto pretende acabar com a obrigatoriedade das aulas presenciais em Centros de Formação de Condutores (CFCs), permitindo que o candidato escolha como deseja aprender a dirigir — presencialmente, online ou de forma híbrida — e elimina a carga horária mínima de 45 horas teóricas e 20 práticas. O objetivo, segundo o governo, é reduzir o custo para tirar a CNH, que em alguns estados fica em torno de R$ 5 mil, valor equivalente à nova faixa de isenção do Imposto de Renda. O Palácio do Planalto vê na medida uma forma de facilitar o acesso à habilitação, especialmente entre jovens e trabalhadores de baixa renda, ampliando a base eleitoral de Lula, que tentará a reeleição presidencial, e de Renan Filho, que sairá para governador de Alagoas, em 2026.
Mas a proposta encontra resistência do setor de autoescolas. A Associação Brasileira de Autoescolas (Abrauto) promoveu também na quarta-feira, 5, uma manifestação em Brasília contra o projeto e divulgou fotos de um encontro com Arthur Lira. “A Abrauto e associações de diversos estados estiveram com o deputado Arthur Lira para tratar sobre a formação de condutores. Seguimos fortes na luta pelos CFCs e pela segurança no trânsito”, diz a legenda da publicação.
Nos comentários, empresários e instrutores de trânsito demonstraram confiança no apoio do deputado. “Arthur Lira, precisamos de sua ajuda!”, escreveu um deles. “Enfim um político honesto em nossa causa”, comentou outro. O lema da entidade é “Pelas vidas, pelos empregos e pelas autoescolas”.
Entretanto, o movimento também recebeu críticas de profissionais da área. “Na hora de dar aumento aos funcionários, não aparece um para defender os trabalhadores. Agora estão preocupados em perder mão de obra barata”, escreveu um internauta, acusando as autoescolas de defenderem seus próprios interesses.
O impasse coloca Arthur Lira diante de uma escolha política difícil. De um lado, o apoio à Abrauto garante respaldo de empresários e instrutores de trânsito em todo o país, mas que não renderia votos diretamente ao “progressista” em Alagoas, que é a moeda que realmente vale em tempos de eleição. De outro, o alinhamento com o Governo Lula e Renan Filho poderia fortalecer o apelo popular do projeto em Alagoas, onde boa parte da população veria com bons olhos a possibilidade de tirar a CNH pagando menos.
Ao que tudo indica, a política alagoana ao mesmo tempo em que testemunha o fim da “guerra do Imposto de Renda” vê o nascimento da “batalha da CNH”.



