Conteúdo do impresso Edição 1350

ENTREVISTA

Ronaldo Lessa questiona bancada federal, critica bolsonarismo e condiciona futuro político a Paulo Dantas

Vice-governador afirma que não pretende ficar sem atuação política e confirma desejo de disputar Senado nas eleições de outubro
Por JOSÉ FERNANDO MARTINS 31/01/2026 - 06:00
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ERROL FLINN
Ronaldo Lessa criticou voto de parte da bancada na PEC da Impunidade
Ronaldo Lessa criticou voto de parte da bancada na PEC da Impunidade

Em entrevista exclusiva ao EXTRA, esta semana, o vice-governador de Alagoas, Ronaldo Lessa (PDT), tratou de temas relacionados ao cenário político do estado e às eleições de 2026.

Durante a conversa, Lessa falou sobre seus planos para o pleito de outubro, analisou o contexto político atual em Alagoas e comentou a atuação de partidos e lideranças no momento pré-eleitoral. E afirmou que uma eventual candidatura sua em 2026 está diretamente condicionada à decisão do governador Paulo Dantas (MDB) de permanecer ou não no cargo até o fim do mandato. Conforme
o vice-governador, apenas nesse cenário ele se sentiria politicamente liberado para disputar outro posto.

“Só vou para essa expectativa de ser candidato se o Paulo realmente ficar. Se o governador Paulo Dantas continuar com essa posição
que ele tem dito em todo canto que chega, de que pretende ficar até o último dia de mandato, aí ele me libera”, declarou.

Lessa disse que, caso haja essa definição, avalia a possibilidade de disputar o Senado Federal, cargo que ainda não exerceu.
“Onde é que eu ainda não servi? Senado”, afirmou, ao justificar o interesse pela vaga. O vice-governador destacou ainda que não
pretende permanecer sem atuação política efetiva e defendeu o papel institucional do Senado no processo legislativo. “O Senado é
uma Casa maior. A Câmara aprova, mas o Senado pode bloquear”, disse, ao citar exemplos de propostas barradas pela Casa.

Segundo Lessa, no entanto, a decisão final não será tomada de forma isolada. “Candidatura não se impõe. Você visualiza, justifica e vê se, dentro do momento que está vivendo, aquilo lhe cabe”, afirmou.

Ele reforçou que a definição dependerá, além da posição de Paulo Dantas, da correlação de forças políticas.

Congresso Nacional

Ao avaliar a atuação da bancada federal de Alagoas no Senado e na Câmara dos Deputados, Ronaldo Lessa afirmou que o desempenho, de forma geral, não é satisfatório. Para o vice-governador, votações recentes expuseram fragilidades na atuação conjunta dos parlamentares do estado.

“Não é tão boa, não. Repare que, quando foi para votar aquela PEC terrível [da Impunidade], muita gente de Alagoas votou, lamentavelmente, a favor”, afirmou. Para Lessa, esse comportamento impede que a bancada seja considerada forte em temas centrais do país. “Não podemos dizer que temos uma bancada forte, votando as questões mais importantes do país, como eu imagino que seria”, completou. Lessa ponderou, no entanto, que há parlamentares que se destacam individualmente. “Claro que tem pessoas que estão se destacando”.

Lira progressista?

Ao comentar a atuação do deputado federal Arthur Lira (PP), Ronaldo Lessa afirmou que o parlamentar mantém uma postura política que evita alinhamentos fixos, adaptando-se às circunstâncias do momento. Segundo o vice-governador, essa estratégia impede que Lira seja identificado de forma clara como oposição ou como integrante de um campo político específico.

“O Arthur Lira é um dançarino, ele não fecha com ninguém. Ele vê o momento adequado”, afirmou Lessa. Para ele, essa postura ficou evidente ao longo dos últimos anos. “Você nunca viu o Arthur batendo no Bolsonaro, de forma nenhuma”, disse, “mesmo hoje dividindo o palanque com o presidente Lula (PT)”.

Lessa fez questão de registrar que não se trata de um julgamento pessoal. “Eu não quero fazer julgamento, porque não me cabe”, afirmou. Ainda assim, avaliou que, apesar de o Progressistas ser formalmente o partido de Arthur Lira, sua atuação não tem se caracterizado nem como oposição ao bolsonarismo nem como alinhada a uma agenda progressista.

JHC x Paulo Dantas

Ao comparar as experiências como vice-prefeito de Maceió, ao lado de JHC (PL), e como vice-governador de Alagoas, junto a Paulo Dantas, Ronaldo Lessa apontou diferenças de estilo, prioridades e espaço institucional concedido em cada gestão.

Sobre JHC, Lessa destacou a habilidade na comunicação, mas apontou limitações administrativas e de articulação interna. “O JHC é uma águia em termos de comunicação, rápido, muito centrado”, afirmou. Segundo ele, por se tratar da primeira experiência no Executivo, o prefeito ainda precisa avançar em alguns aspectos. “Ele precisa de equipe. Isso ele vai ter que aprender mais”, disse.

Lessa também avaliou que a atuação de JHC no campo social foi limitada. “Acho que ele atua pouco no campo social”, declarou. O vice-governador citou obras herdadas de gestões anteriores e executadas pela atual administração municipal, reconhecendo a condução técnica. “Ele teve a oportunidade e está fazendo com competência. Isso não se pode negar”, afirmou. No entanto, fez críticas à condução inicial da política cultural. “No começo, parecia um desrespeito à cultura local. Trazer certos artistas para o São João não cabia”, disse.

Lessa também afirmou que teve pouco espaço de atuação na vice-prefeitura. “Eu não conseguia trabalhar muito com ele, porque ele não dava espaço”, relatou. Segundo ele, a saída do cargo ocorreu sem conflito. “Não saí brigado. Disse que seria mais útil ao Estado como vice-governador”, afirmou.

Atuação do governador

Ao falar sobre Paulo Dantas, Lessa destacou a abertura para delegar funções e a afinidade em temas sociais. “Aqui o Paulo deixa eu trabalhar. Muitas vezes ele não vai e manda eu ir”, disse. Para ele, essa postura demonstra reconhecimento de limites. “Isso é sabedoria: superar a própria limitação e deixar quem pode fazer melhor atuar”, avaliou.

Lessa afirmou que o governador tem uma visão mais voltada para políticas sociais, ainda que não o classifique ideologicamente como de esquerda. “Não considero o Paulo um homem de esquerda nem de direita. Ele está no centro, mas com uma visão mais social”, disse. Ele citou ações voltadas a populações vulneráveis, indígenas e quilombolas, além da ampliação do acesso ao ensino superior. “A Uneal formou mais de 200 indígenas. Isso é um orgulho”, afirmou.

Sobre as limitações de Paulo Dantas, Lessa afirmou que elas existem, mas vêm sendo enfrentadas. “Todo mundo tem limitação. O importante é ter humildade para saber que não sabe tudo”, disse. Segundo ele, apesar de ter chegado ao governo como um nome pouco conhecido fora do interior, Paulo Dantas superou as expectativas. “Muita gente não achava que ele faria o que está fazendo, mas ele superou”, concluiu.

Reeleição de Paulo Dantas

Questionado sobre a possibilidade de Paulo Dantas disputar a reeleição como governador, em razão de ter exercido inicialmente um mandato tampão antes de ser eleito pelo voto popular em 2022, Lessa afirmou que o tema já circulou nos bastidores. “Eu já ouvi essa discussão. Pelo menos a informação que eu tive, de um amigo advogado, é que isso é muito difícil”, afirmou. Segundo ele, apesar de ter assumido o governo de forma indireta, Paulo Dantas exerceu o cargo de maneira efetiva antes da eleição. “Ele foi governador efetivo. Depois veio o segundo mandato”, disse. Na avaliação do vice-governador, a legislação atual impede uma nova candidatura ao Executivo estadual. “Hoje, a legislação impede dele ser candidato à recondução no governo. Até onde eu sei, ele não pode ser mais candidato a governador neste momento”, concluiu.

Pautas sociais

Ao avaliar sua atuação como vice-governador, Ronaldo Lessa afirmou que tem conseguido exercer o cargo com autonomia e foco em pautas sociais, especialmente voltadas à população negra, comunidades quilombolas e ao resgate histórico do estado. “Paulo me dá espaço e eu tenho trabalhado”, disse. Segundo Lessa, uma das frentes centrais de sua atuação tem sido o enfrentamento do que considera uma dívida histórica com os afrodescendentes. “É uma dívida enorme que a gente tem com os nossos afrodescendentes”, afirmou.

Lessa destacou ações voltadas a comunidades quilombolas, como acesso à água, melhoria de estradas e apoio à produção local. “Ainda temos quilombos que precisam de água, outros de estrada, de acesso para escoar a produção”, relatou. O vice-governador também defendeu políticas de ação afirmativa. “O pessoal critica cota, mas tem que ter”, afirmou. Para ele, esse processo passa pelo resgate da memória. “A história que a gente aprende é a história dos vencedores. Não se conta o que foi feito com os índios e com os negros”, disse.

Lessa citou iniciativas ligadas à educação superior, destacando a Uneal. “A Uneal formou mais de 200 indígenas. Isso é um orgulho”, afirmou. Na área de políticas públicas, mencionou a participação em debates nacionais sobre mobilidade urbana e transporte. “Estamos numa luta nacional pela passagem de custo zero”, disse. Sobre o funcionamento da Vice-Governadoria, afirmou que o espaço tem sido utilizado como equipamento público. “Isso aqui é uma casa pública. Todo mundo pode usar”, disse.

Por fim, afirmou que seu papel também tem sido o de auxiliar o governador na gestão cotidiana. “O que eu puder fazer para aliviar a carga do governador e dar mais agilidade às demandas sociais, eu faço”, declarou. Segundo ele, apesar de diferenças pontuais de visão, não houve conflitos relevantes na relação institucional. “Nunca tivemos nenhuma divergência grave. Às vezes é de pensamento, o que é natural”, concluiu.

Bolsonarismo em queda

Quanto à existência de um “antídoto político” contra o bolsonarismo, Ronaldo Lessa afirmou que há caminhos para enfrentá-lo, e fez críticas diretas à postura e ao discurso do ex-presidente Jair Bolsonaro, especialmente durante a pandemia da covid-19. “Eu não posso concordar com o bolsonarismo”, afirmou. Ele citou perdas pessoais e profissionais durante a pandemia. “Perdi dois amigos em um mês por causa da covid. Perdi alunos. E via o presidente debochar, dizer que era frescura, que vacina virava jacaré”, disse. Para Lessa, esse tipo de discurso ultrapassou limites. “Há coisas que não cabem mais”, completou.

Na avaliação do vice-governador, o apoio eleitoral a Bolsonaro não reflete uma adesão majoritária da sociedade brasileira a uma agenda de direita. “Eu não creio que o povo brasileiro seja de direita”, afirmou. Conforme ele, o bolsonarismo se sustentou em fatores conjunturais, como o antipetismo.

Ao comentar a presença de nomes ligados à extrema-direita, Lessa avaliou que o discurso desse campo encontra eco, sobretudo, em sentimentos de revolta. “Às vezes é a revolta. O sujeito pobre vota na direita porque está revoltado com o sistema”, afirmou. Conforme ele, esse movimento leva eleitores a votarem contra os próprios interesses. “Pobre votar na direita é uma coisa esdrúxula”, declarou.

Lessa também comentou a contradição entre o perfil do governo federal e a composição do Congresso Nacional. “O povo votou em um presidente de centro-esquerda e em um Congresso majoritariamente de direita. Essa conta não fecha”, disse. “O Lula não pode fazer tudo o que gostaria porque o Congresso não permite”, avaliou.

Ciro Gomes, uma decepção

Ao ser questionado sobre o desempenho de Ciro Gomes, ex-candidato à Presidência pelo PDT, Lessa afirmou que houve frustração. “Decepcionou. Nós apostávamos muito nele”, disse. Apesar disso, ressaltou contribuições passadas. “O Brasil tem uma dívida com Ciro, e Alagoas também, pelo Canal do Sertão”, afirmou. Lessa avaliou que Ciro possui preparo técnico e propostas, mas lamentou o rumo adotado nos últimos anos. “É um cara preparado, tem projetos, mas eu não entendo direito o caminho que ele tomou”, disse. “Lamento porque acho que ele não vai ser aproveitado como deveria na política”, concluiu.

Lessa socialista

Ao tratar de sua trajetória política e ideológica, Lessa afirmou que sua prisão durante a ditadura militar, em 1969, não esteve vinculada a filiação partidária ou organização formal. “Fui preso sem pertencer a nada, graças a Deus, porque aí consegui ser absolvido”, afirmou. Segundo ele, a detenção ocorreu em razão de denúncias de tortura feitas por estudantes e militantes. “O que a gente fazia era denunciar pessoas que estavam sendo torturadas. Era tortura mesmo”, disse.

Após esse período, passou a ser procurado por organizações de esquerda. “O PCB, o PCR e outros partidos começaram a tentar me trazer”, afirmou. Disse que passou a estudar teoria política e optou pelo Partido Comunista Revolucionário (PCR). “O grande líder daqui era Manoel Lisboa”, disse, ressaltando que sua permanência foi curta. “Eu saí com dois anos. Não fiquei muito tempo”, relatou.

De acordo com Lessa, a saída envolveu fatores pessoais e discordância com a luta armada. “Eles queriam que eu fosse para a luta armada, e eu não era favorável a isso”, afirmou. Para ele, a militância urbana teve resultados mais concretos. Apesar disso, disse que continuou ajudando famílias de presos políticos. “Nunca me afastei disso”, declarou.

Ao refletir sobre sistemas políticos, afirmou não identificar exemplos de comunismo aplicados com resultados adequados. “Não conheço nenhum país com comunismo que eu possa me espelhar”, disse. Para ele, a China representa um capitalismo de Estado. Lessa afirmou, no entanto, que mantém sua identidade socialista. “Eu continuo socialista”, declarou. Para ele, o socialismo está ligado à redução das desigualdades. “Por que um nasce com tudo e outro nasce sem nada? A sociedade tem o compromisso de ajudar esse outro a chegar lá”, concluiu.


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