ESCÂNDALO INTERNACIONAL
Arquivos do Caso Epstein citam Alagoas e outros estados do Nordeste
Documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA mencionam Maceió e Maragogi
A nova leva de documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos no âmbito da investigação sobre o financista Jeffrey Epstein amplia o alcance geográfico do caso ao revelar referências recorrentes ao Brasil, com menções a Alagoas e outros estados do Nordeste, registradas em e-mails, mensagens informais e agendas de viagem ao longo de mais de uma década.
Os arquivos incluem trocas de mensagens datadas de dezembro de 2006 entre Epstein e o ex-agente francês de modelos Jean-Luc Brunel, apontado por investigadores e denunciantes como um dos principais operadores de sua rede de contatos. Em uma dessas mensagens, Epstein afirma que poderia se encontrar com Brunel em São Paulo. Na resposta, o francês sugere hotéis de luxo na capital paulista e lista destinos turísticos brasileiros que recomendaria visitar.
Nesse mesmo e-mail, Brunel cita Trancoso, no sul da Bahia, Fernando de Noronha e, de forma explícita, Maceió e um hotel de luxo em Maragogi, descritas como áreas de canaviais cercadas por praias. As mensagens indicam familiaridade com o território brasileiro. Outros documentos reforçam a presença recorrente do Nordeste nos registros.
Em novembro de 2010, um interlocutor não identificado informa a Epstein que estava “dirigindo de Recife para Natal”, prevendo uma breve permanência na capital potiguar antes de seguir para São Paulo. No mesmo período, Brunel relata, em mensagem separada uma sequência de conexões aéreas que incluía Brasília e Recife, com chegada prevista para a madrugada, descrevendo o itinerário como exaustivo.
Há ainda registros de que em janeiro de 2018 Epstein anotou em sua própria agenda eletrônica um voo com destino a Recife, marcado para o dia 18 daquele mês. O dado indica que o financista manteve viagens internacionais ao Brasil mesmo após sua primeira condenação nos Estados Unidos, em 2008.
Entre os e-mails divulgados, um dos mais controversos é atribuído a Epstein e foi enviado durante um período de deslocamentos pelo Nordeste. Na mensagem, um amigo do financista relata dificuldades de acesso à internet no hotel, comenta ter conseguido “uma garota”, mencionando que ela viajaria acompanhada da mãe, e descreve um roteiro que incluía João Pessoa, Recife, Natal e São Paulo. No mesmo texto, faz um comentário depreciativo sobre mulheres da região ao afirmar que o “Norte do Brasil tem as mulheres mais feias do mundo”.
As referências ao Brasil surgem no contexto de uma investigação mais ampla sobre a atuação internacional de Epstein e de seus associados. Jean-Luc Brunel, citado em mais de cinco mil documentos, foi preso em 2020 na França sob acusações – que sempre negou – de estupro, agressão sexual e aliciamento de menores. Em 2022, foi encontrado morto em sua cela na prisão de La Santé, em Paris, em um caso oficialmente tratado como suicídio. Investigações apontam que ele teria usado sua posição no mercado internacional de modelos para recrutar jovens mulheres para o círculo de Epstein.
Os arquivos divulgados também incluem um e-mail enviado em 26 de dezembro de 2009 por Jes Staley, então alto executivo do setor financeiro, a um endereço eletrônico associado a Epstein. Na mensagem, Staley relata estar “perto de Salvador, no Brasil”, onde teria chegado naquela manhã, descrevendo o local como “muito agradável, em frente à praia”. Ele informa que permaneceria cerca de uma semana na região, dedicada aodescanso e à leitura.
No mesmo texto, Staley menciona ter passado um dia com o bilionário Joe Lewis em Bariloche, na Argentina, afirmando não saber exatamente “o que pensar” sobre ele. A mensagem, escrita em tom informal, também faz referência à leitura de um livro sobre o genocídio de Ruanda, compondo um retrato de deslocamentos internacionais frequentes pela América do Sul.
O Caso Epstein
Epstein foi investigado pela primeira vez no início dos anos 2000 e condenado em 2008 por crimes sexuais na Flórida, após um acordo judicial que lhe garantiu pena reduzida. Em 2019, voltou a ser preso, desta vez por acusações federais de tráfico sexual. Pouco depois, foi encontrado morto em sua cela, em Nova York. A morte foi oficialmente classificada como suicídio, mas permanece cercada de controvérsias.
Desde janeiro de 2026 o Departamento de Justiça dos EUA passou a divulgar milhões de documentos relacionados ao caso, incluindo e-mails, mensagens, fotos, agendas de viagem e registros financeiros. O material cita empresários, diplomatas, políticos e celebridades, embora as autoridades ressaltem que a simples menção a nomes ou locais não implica, automaticamente, a prática de crimes.



