NA MIRA DO LEÃO
Mais de 200 mil declarações seguem na malha fina após novo cruzamento de dados da Receita
Fiscalização automatizada acha divergências em rendimentos, despesas médicas e movimentações bancárias
Mais de 200 mil declarações do Imposto de Renda ainda permanecem retidas em análise pela Receita Federal após a adoção de um novo sistema de cruzamento de dados fiscais. Segundo informações da Receita, cerca de 70 mil contribuintes já foram liberados da malha fina após reprocessamento das informações e envio de declarações retificadoras. Mesmo com o aumento no volume de fiscalizações, o índice de retenção caiu para 6,08% em 2026, apenas 1,09% acima do registrado no ano anterior.
A principal mudança ocorreu após a substituição da antiga DIRF pelas declarações mensais e Social e EFD-Reinf, utilizadas agora como base para conferência das informações fiscais. De acordo com o contador Charles Gularte, o novo modelo ampliou a capacidade de cruzamento automático de dados e tornou o sistema mais rigoroso e rápido na identificação de inconsistências.
“Como as informações passaram a ser enviadas mensalmente pelas empresas, aumentaram também as chances de divergências temporárias entre os informes de rendimentos e os dados que já constam na base da Receita Federal”, explica.
Na prática, o sistema cruza automaticamente informações declaradas pelos contribuintes com dados enviados por empresas, bancos, cartórios, planos de saúde e instituições médicas. A Receita consegue verificar movimentações financeiras, operações imobiliárias, despesas médicas, rendimentos, retenções na fonte e transações via PIX.
As despesas médicas lideram os motivos de retenção, representando 32,6% dos casos de malha fina. Já as omissões de rendimentos correspondem a 30,8% das retenções, enquanto divergências relacionadas ao imposto retido na fonte somam 15,1%.
Segundo o especialista, muitos contribuintes ainda acreditam que apenas grandes omissões chamam atenção do fisco, mas pequenos erros também geram bloqueios automáticos. “Um valor digitado incorretamente, a inversão de números ou até uma data errada podem fazer a declaração cair na malha fina”, alerta.
Entre os grupos mais vulneráveis às inconsistências fiscais estão MEIs, profissionais autônomos e pequenos empresários, principalmente por possuírem múltiplas fontes de renda e maior volume de movimentações financeiras.
O uso frequente de PIX também passou a integrar os mecanismos de fiscalização. Bancos informam à Receita movimentações acima de R$ 5 mil mensais para pessoas físicas e R$ 15 mil para empresas. Quando os valores movimentados são incompatíveis com a renda declarada, o sistema aponta possível omissão de rendimentos.
Outra situação que exige atenção envolve contribuintes que mudaram de emprego, passaram a atuar como pessoa jurídica ou tiveram mais de uma fonte pagadora no mesmo ano. Nesses casos, a consolidação das rendas pode gerar imposto adicional a pagar e aumentar o risco de inconsistências.
Charles Gularte reforça que a declaração pré-preenchida ajuda a reduzir erros, mas não elimina a necessidade de conferência manual. “O contribuinte continua sendo responsável por revisar todas as informações antes do envio”, afirma.
A recomendação é guardar recibos, informes de rendimentos, notas fiscais e comprovantes por pelo menos cinco anos. Caso identifique erro após o envio, o ideal é retificar a declaração antes de qualquer intimação da Receita, evitando multas e penalidades mais severas.
Segundo o especialista, a tendência é de uma fiscalização cada vez mais automatizada nos próximos anos, especialmente com o avanço da digitalização tributária e da Reforma Tributária.



