Conteúdo do impresso Edição 1364

NA MIRA DO LEÃO

Mais de 200 mil declarações seguem na malha fina após novo cruzamento de dados da Receita

Fiscalização automatizada acha divergências em rendimentos, despesas médicas e movimentações bancárias
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Charles Gularte recomenda conferência manual para evitar erros
Charles Gularte recomenda conferência manual para evitar erros

Mais de 200 mil declarações do Imposto de Renda ainda permanecem retidas em análise pela Receita Federal após a adoção de um novo sistema de cruzamento de dados fiscais. Segundo informações da Receita, cerca de 70 mil contribuintes já foram liberados da malha fina após reprocessamento das informações e envio de declarações retificadoras. Mesmo com o aumento no volume de fiscalizações, o índice de retenção caiu para 6,08% em 2026, apenas 1,09% acima do registrado no ano anterior.

A principal mudança ocorreu após a substituição da antiga DIRF pelas declarações mensais e Social e EFD-Reinf, utilizadas agora como base para conferência das informações fiscais. De acordo com o contador Charles Gularte, o novo modelo ampliou a capacidade de cruzamento automático de dados e tornou o sistema mais rigoroso e rápido na identificação de inconsistências.

“Como as informações passaram a ser enviadas mensalmente pelas empresas, aumentaram também as chances de divergências temporárias entre os informes de rendimentos e os dados que já constam na base da Receita Federal”, explica.

Na prática, o sistema cruza automaticamente informações declaradas pelos contribuintes com dados enviados por empresas, bancos, cartórios, planos de saúde e instituições médicas. A Receita consegue verificar movimentações financeiras, operações imobiliárias, despesas médicas, rendimentos, retenções na fonte e transações via PIX.

As despesas médicas lideram os motivos de retenção, representando 32,6% dos casos de malha fina. Já as omissões de rendimentos correspondem a 30,8% das retenções, enquanto divergências relacionadas ao imposto retido na fonte somam 15,1%.

Segundo o especialista, muitos contribuintes ainda acreditam que apenas grandes omissões chamam atenção do fisco, mas pequenos erros também geram bloqueios automáticos. “Um valor digitado incorretamente, a inversão de números ou até uma data errada podem fazer a declaração cair na malha fina”, alerta.

Entre os grupos mais vulneráveis às inconsistências fiscais estão MEIs, profissionais autônomos e pequenos empresários, principalmente por possuírem múltiplas fontes de renda e maior volume de movimentações financeiras.

O uso frequente de PIX também passou a integrar os mecanismos de fiscalização. Bancos informam à Receita movimentações acima de R$ 5 mil mensais para pessoas físicas e R$ 15 mil para empresas. Quando os valores movimentados são incompatíveis com a renda declarada, o sistema aponta possível omissão de rendimentos.

Outra situação que exige atenção envolve contribuintes que mudaram de emprego, passaram a atuar como pessoa jurídica ou tiveram mais de uma fonte pagadora no mesmo ano. Nesses casos, a consolidação das rendas pode gerar imposto adicional a pagar e aumentar o risco de inconsistências.

Charles Gularte reforça que a declaração pré-preenchida ajuda a reduzir erros, mas não elimina a necessidade de conferência manual. “O contribuinte continua sendo responsável por revisar todas as informações antes do envio”, afirma.

A recomendação é guardar recibos, informes de rendimentos, notas fiscais e comprovantes por pelo menos cinco anos. Caso identifique erro após o envio, o ideal é retificar a declaração antes de qualquer intimação da Receita, evitando multas e penalidades mais severas.

Segundo o especialista, a tendência é de uma fiscalização cada vez mais automatizada nos próximos anos, especialmente com o avanço da digitalização tributária e da Reforma Tributária.


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