Conteúdo do impresso Edição 1366

HOMENAGEM

Pinacoteca da Ufal reabre celebrando o legado de Pierre Chalita

Mostra reúne principais obras do maior nome da pintura alagoana do século XX e segue aberta ao público até agosto
Luisa Farias
Exposição de Pierre Chalita reúne obras da série Brasil 500 anos, Paraíso e Do Baile
Exposição de Pierre Chalita reúne obras da série Brasil 500 anos, Paraíso e Do Baile

Após sete anos fechada para reformas, a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) reabriu a Pinacoteca Universitária com uma grande homenagem ao mestre Pierre Chalita, considerado um dos maiores nomes das artes visuais de Alagoas e referência da pintura brasileira no século XX. A exposição segue aberta ao público até o dia 21 de agosto, no Espaço Cultural da Ufal, na Praça Sinimbu, no Centro de Maceió, com entrada gratuita.

A reabertura marca a retomada de um dos mais importantes espaços culturais do estado e devolve à capital alagoana um ambiente dedicado à arte, à pesquisa e à formação cultural. A visitação acontece de terça a sexta-feira, das 9h às 17h. O agendamento para grupos pode ser feito pelo site da Pinacoteca Universitária da Ufal ou pelas redes sociais da Pinacoteca.

A exposição reúne obras emblemáticas de Pierre Chalita e revisita diferentes fases da trajetória do artista, que também teve forte atuação como professor, incentivador cultural e colecionador de arte sacra. O diretor da Pinacoteca da Ufal, Victor Sarto, afirma que a escolha do artista para marcar a reabertura do espaço foi simbólica.

“Pierre Chalita, além de grande pintor e artista, foi também um grande mestre e professor de inúmeros artistas alagoanos. Ele deixou uma geração de alunos que hoje influencia a arte contemporânea, a arte visual alagoana e a arte brasileira”, destacou.

Segundo Souto, o legado de Chalita ultrapassa os limites da pintura. “Ele também ficou conhecido nacionalmente como colecionador de arte sacra. Isso o transformou não apenas em referência em Alagoas como pintor e professor, mas como colecionador em todo o país”, afirmou.

Para o diretor, a homenagem representa também uma celebração da própria arte contemporânea produzida em Alagoas. “A escolha do Chalita para essa reabertura foi devido à sua importância para a arte contemporânea alagoana e por ele ter sido um grande mestre. Com essa homenagem, celebramos toda a arte visual contemporânea do estado”.

A mostra foi organizada em três coleções: “Paraíso”, “Brasil 500 Anos” e “Do Baile”. A curadoria é assinada pela museóloga Hildelina Oliveira, que possui longa relação com a obra do artista. O espaço conta ainda com uma área dedicada à memória de Pierre Chalita, aproximando o visitante de sua história e personalidade.

Para a museóloga Carmen Dantas, a reabertura da Pinacoteca representa mais que a entrega de um espaço físico reformado. Segundo ela, o local reforça o papel da arte e da educação na transformação social.

“A reabertura da Pinacoteca Universitária levanta o ânimo de todos nós que sabemos da importância da arte e da educação na formação da nossa sociedade. Além do estímulo ao fazer artístico contemporâneo, a Pinacoteca tem na pesquisa uma ferramenta de conhecimento e protagonismo na renovação do pensamento crítico da juventude universitária”, afirmou.

A Fundação Pierre Chalita, entidade privada sem fins lucrativos, segue em trabalho de conservação e organização do acervo do artista, ainda sem exposição aberta ao público. De acordo com a conselheira da instituição e viúva de Chalita, a artista plástica Solange Lages Bernard Chalita, o intercâmbio das obras com a Pinacoteca da Ufal ocorreu em função da reinauguração do equipamento cultural.

“Esperamos reabrir o Museu Pierre Chalita em 2027”, afirmou.

O expressionismo na pintura de Pierre Chalita

Para a galerista e especialista na obra de Pierre Chalita, Rosana Carnielli, da Galeria Lenach (SP), a série “500 Anos do Descobrimento do Brasil” revela um dos momentos mais profundos da produção do artista alagoano, ao transformar episódios históricos em reflexões visuais sobre identidade, colonização e espiritualidade brasileira.

Segundo ela, Chalita não tratava a chegada dos portugueses como uma celebração oficial, mas como um encontro dramático entre culturas, marcado por tensões, fé e conflitos civilizatórios.

Dentro desse universo simbólico, Rosana destaca “A Morte do Primeiro Bispo do Brasil” como uma das obras mais emblemáticas da arte alagoana contemporânea. Inspirada no episódio envolvendo Dom Pero Fernandes Sardinha, morto após um naufrágio no litoral sul de Alagoas em 1556, a pintura vai além da narrativa histórica literal.

“Chalita transforma o episódio em uma grande alegoria sobre violência, colonização, poder religioso e choque cultural. Não é uma pintura documental. É uma cena quase teatral, carregada de tensão emocional e simbolismo”, afirma.

Segundo a especialista, a força da obra também está na linguagem expressionista do artista, marcada por figuras distorcidas, sombras profundas, cores quentes e movimentos dramáticos. A mitra episcopal, símbolo da autoridade da Igreja Católica, ganha destaque visual e surge, em algumas leituras, quase deslocada do corpo religioso, sugerindo a fragilidade do poder europeu diante do território desconhecido e das forças locais.

“Ao mesmo tempo, Chalita evita simplificações. Ele não reduz os indígenas a figuras violentas. Há ambiguidades humanas, conflito espiritual e uma sensação permanente de ruptura civilizatória”, analisa Rosana.

Ela ressalta ainda que a obra reposiciona Alagoas dentro da narrativa da formação do Brasil.

“Esse episódio aparece muitas vezes como uma nota marginal da história colonial, mas Chalita o transforma em um acontecimento épico e simbólico, quase um mito fundador das tensões brasileiras entre Europa, Igreja, povos originários e território colonial”, destaca.

Para Rosana Carnielli, “A Morte do Primeiro Bispo do Brasil” sintetiza uma das maiores marcas da trajetória do artista: transformar memória histórica em reflexão humana universal.


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