Conteúdo do impresso Edição 1371

INEXPLICÁVEL

Coruripe paga R$ 22 milhões para escritório particular defender interesses da prefeitura

Serviços jurídicos são de competência de Procuradoria do Município que conta com seis procuradores
Divulgação
Escritório, que já havia sido contratado no ano passado pelo mesmo valor, tem um segundo contrato no valor de quase R$ 2,8 milhões
Escritório, que já havia sido contratado no ano passado pelo mesmo valor, tem um segundo contrato no valor de quase R$ 2,8 milhões

A Prefeitura de Coruripe, no Litoral Sul de Alagoas, firmou dois contratos que somam R$ 22.792.528 com o escritório Helder Lima Sociedade Individual de Advocacia para a prestação de serviços jurídicos especializados na área tributária, embora mantenha uma Procuradoria-Geral do Município composta por cinco procuradores efetivos e um ocupante de cargos de direção. Os contratos foram celebrados por inexigibilidade de licitação e têm como objeto, de acordo com sua descrição, a recuperação de créditos tributários, a revisão de passivos fiscais e a atuação administrativa e judicial em favor do município.

O maior contrato é no valor de R$ 20 milhões e foi assinado para a prestação de serviços especializados em Direito Tributário relacionados ao Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR). O instrumento prevê auditoria, revisão e recuperação de passivos fiscais federais, recuperação de créditos tributários, análise de créditos constituídos ou passíveis de constituição, acompanhamento de processos administrativos e judiciais, defesa em autos de infração e adoção de medidas destinadas ao incremento da arrecadação municipal. 

Assinado no ano passado e com vigência de 12 meses, o contrato milionário foi renovado nos mesmos termos e valor no dia 14 de janeiro de acordo com o Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP). Cinco dias depois, o Município renovou um segundo contrato com o mesmo escritório, desta vez no valor de R$ 2.792.528, para serviços de auditoria e revisão de passivos fiscais federais relacionados a programas de parcelamento e transação tributária, como REFIS, PAES, PAEX e PERT, além da recuperação de créditos tributários e da adoção de medidas administrativas e judiciais voltadas à regularização ou extinção de débitos fiscais.

Os dois contratos estabelecem que a remuneração da banca será condicionada ao êxito das medidas adotadas. Conforme as cláusulas contratuais, os honorários correspondem a 20% do crédito fiscal efetivamente reconhecido ou do valor do passivo reduzido ou extinto, sendo o valor global registrado apenas como estimativo para f ins de empenho.

Prefeitura paga mais de R$ 935 mil por ano a procuradores

O Portal da Transparência da Prefeitura de Coruripe mostra que a Procuradoria-Geral do Município é composta por Maycon Victor Gomes dos Santos, procurador-geral do Município; Carla Beltrão Siqueira Wanderley Veríssimo, subprocuradora--geral; os procuradores Carlos Henrique Costa Mousinho e Valério José Barreto Beltrão; Jorge Silvio Luengo Galvão, ocupante do cargo de procurador jurídico; e Ricardo Alexandre de Araújo Porfírio, chefe da Divisão de Procuradoria. 

A folha de pagamento referente ao mês de maio de 2026, por exemplo, registra remuneração bruta de R$ 29.975,44 para Maycon Victor Gomes dos Santos, R$ 26.950 para a subprocuradora--geral Carla Beltrão Siqueira, R$ 25.784 para Ricardo Alexandre de Araújo, R$ 11.588,89 para Carlos Henrique Costa Mousinho, R$ 8 mil para Valério José Barreto Beltrão e R$ 4 mil para Jorge Silvio Luengo Galvão. Valores que, somados ao 13º salário, totalizam gasto anual de R$ 935.978,29 somente com os seis procuradores.

Os contratos milionários firmados com o escritório de Helder Gonçalves Lima – cujas atividades tiveram início há quase seis anos, em agosto de 2018 – não fazem referência à inexistência da Procuradoria-Geral nem à ausência de procuradores municipais que justificasse a contratação de escritório particular para defesa de interesses do Município. Também não apontam que a estrutura jurídica do município tenha sido desativada. Os documentos disponíveis apenas registram a contratação do escritório para prestação de serviços considerados especializados na área tributária, paralelamente à manutenção da Procuradoria própria. As duas contratações foram formalizadas por meio de inexigibilidade de licitação, modalidade prevista na Lei nº 14.133/2021 para hipóteses de inviabilidade de competição na contratação de serviços técnicos especializados. Nos instrumentos contratuais, o município fundamenta a contratação nos dispositivos da nova Lei de Licitações e do Estatuto da Advocacia.

A Procuradoria-Geral do Município é o órgão responsável pela representação judicial e extrajudicial da administração municipal, pela defesa dos interesses do ente público perante o Poder Judiciário e os órgãos administrativos, além da emissão de pareceres jurídicos e do assessoramento legal aos gestores municipais. Também atua na cobrança da dívida ativa, na análise da legalidade de atos administrativos, na elaboração e revisão de contratos, convênios e projetos de lei, bem como na defesa do patrimônio e do interesse público municipal. Em Coruripe, documentos do Portal da Transparência mostram que a estrutura da Procuradoria permanece em funcionamento, contando com procurador-geral, subprocuradora-geral, procuradores e cargos de chefia vinculados ao órgão.

O EXTRA procurou a Prefeitura de Coruripe para que explicasse a contratação milionária, mas não obtve resposta até o fechamento desta edição, na quinta, 2.


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