É professor adjunto da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e cirurgião especializado em cirurgia digestiva. Graduou-se em medicina pela Ufal (1980) e é mestre em gastroenterologia cirúrgica pela Escola Paulista de Medicina/Unifesp. Atua como docente e cirurgião na área de cirurgia digestiva da Ufal.

Conteúdo Opinativo

Wild Silva: A Suavidade do Aço em Tempos de Chumbo


Em 1974, ao cruzar os portões da Faculdade de Medicina da Ufal, o Brasil que nos recebia era um país de silêncios impostos e olhares esquivos. Vivíamos os estertores do governo Médici, um período em que a esperança parecia um artigo de luxo confiscado nos porões da ditadura. Na clandestinidade acadêmica, devorávamos o jornal Movimento, buscando nas entrelinhas de Raimundo Rodrigues Pereira e nas metáforas de Chico Buarque o oxigênio que nos faltava. O medo era um companheiro de banco: cada sussurro no corredor poderia ser o prelúdio de uma delação.

Foi nesse cenário de asfixia, onde o Estado de S. Paulo publicava receitas de bolo para preencher o vazio deixado pela censura, que a figura do Dr. Wild Silva se agigantou. Como diretor da Faculdade de Odontologia, ele era o contraponto exato ao reitor Nabuco Lopes, um entusiasta do militarismo que via na universidade um quartel, exigindo o hino nacional e o rigor cego do relógio de ponto.

Wild, um liberal de alma cristã-democrata, operava sob uma lógica que os tiranos jamais compreenderiam: a confiança. Para ele, a gestão não era o chicote da fiscalização burocrática, mas a colheita dos resultados. Quando admoestado por inspetores sobre sua flexibilidade com os horários dos docentes, Wild não recuou. Defendeu com elegância que a excelência acadêmica não se mede em minutos assinados, mas no brilho nos olhos dos alunos em sala de aula. Sua dignidade era sua armadura.

Mais tarde, como pró-reitor estudantil, Wild transformou seu gabinete num oásis de sanidade. Enquanto o regime impunha o isolamento, sua gestão era um porto seguro para as angústias da moradia, do transporte e da saúde. Sua serenidade, contudo, incomodava os áulicos do regime. Aqueles que não conseguiam entender tamanha retidão tentavam diminuí-lo chamando-o de "simplório". Mal sabiam eles que a simplicidade de Wild era o ápice de sua sofisticada humanidade.

O ápice de nossa relação ocorreu em 1980. Concluímos o curso em maio, mas o sistema nos prendia a uma formatura burocrática e impessoal no estádio "Trapichão", meses depois. Precisávamos dos diplomas para trabalhar, para viver. Wild, com sua diplomacia silenciosa, articulou uma colação de grau antecipada e discreta. Longe dos holofotes, mas carregada de significado, a cerimônia no gabinete do Reitor foi o verdadeiro rito de passagem. A consagração espiritual veio na Catedral Metropolitana, sob a voz de Dom Miguel Câmara e a oração inesquecível do cônego Hélio Lessa: "Se queres a paz, defende a vida". Anos depois, quando retornei à Ufal como professor de cirurgia digestiva, Wild continuou sendo a minha bússola. Sua prontidão em me apoiar na busca por bibliografia clínica despertou ciúmes em estruturas arcaicas do departamento, mas isso pouco importava. Wild Silva não foi apenas um administrador; foi um mestre da resistência ética. Em um tempo que exigia a desumanidade como prova de lealdade ao poder, ele escolheu ser, enfim, humano. Sua luz permanece como um lembrete de que a integridade é o único antídoto duradouro contra a escuridão.

Dr. Wild Silva (1925/2026): 101 anos! Teve uma família feliz com Maria, sua ‘salva-vidas’, a esposa e os três descendentes: Manoel Calheiros, Rosa Alice e Maria Alice. A imortalidade prosseguiu nos netos: José Jr., Cleantho, Manoela, Sônia Luisa e Wild e a dança das gerações nos bisnetos.

Wild Silva, Humano, Demasiado Humano(Nietzche).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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