ANOS 60
Vacinas contra coronavírus já são estudadas desde antes da pandemia

A desconfiança de uma grande parcela da população na velocidade em que vacinas contra a covid-19 parecem ter surgido se espalha nos comentários em redes sociais. Comparativos com o tempo de desenvolvimento de outros imunizantes são usados para justificar o receio. De fato, as vacinas contra a covid-19 devem ser as mais rápidas da história a ficarem prontas, principalmente porque a tecnologia e o conhecimento avançaram o suficiente para que isso seja possível. Uma vacina contra a bactéria Haemophilus influenzae, que causa a meningite, demorou 92 anos para surgir, desde o descobrimento do patógeno. A de poliomielite, 47 anos; a do sarampo, dez anos.
Portanto, para quem está dentro dos laboratórios, não se trata de um vírus novo, apenas uma variante daquilo que já se estuda há muitos anos. A Universidade de Oxford, no Reino Unido, já tinha à disposição uma plataforma vacinal que pode ser adaptada em um curto espaço de tempo para novos vírus, chamada ChAdOx (abreviação de chimpanzé adenovírus Oxford).
Como o próprio nome diz, o veículo é um adenovírus de chimpanzés. Este é um tipo de vírus inofensivo e enfraquecido que geralmente causa resfriado comum nos primatas. "As equipes já haviam usado a tecnologia de vacina ChAdOx1 para produzir vacinas candidatas contra vários patógenos, incluindo gripe, zika e síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS), outro coronavírus. Eles já haviam começado a trabalhar na preparação para uma pandemia com a tecnologia por trás do ChAdOx, em preparação para 'Doença X'. Quando a doença surgiu na China, eles se moveram rapidamente", explica a Universidade de Oxford.
Os cientistas, então, acoplaram a esse adenovírus partes do novo coronavírus que julgavam ser interessantes para produzir uma resposta imunológica satisfatória.
BioNTech/Pfizer
A alemã BioNTech já trabalha há mais de uma década com a tecnologia de RNAm (ácido ribonucleico mensageiro) para o tratamento de câncer, por meio de imunoterapia. Desde 2018, tem parceria com gigante norte-americana Pfizer para o desenvolvimento de vacinas da gripe também baseadas em RNAm.
Quando surgiu a covid-19, a empresa fechou um acordo com a chinesa Fosun Pharmaceutical para a criação de uma vacina naquele país. Posteriormente, a Pfizer também entrou no negócio, mas para produzir e distribuir a vacina nos resto do mundo.
Tudo isso só é possível graças a ferramentas que não existiam há 20 anos para o desenvolvimento de vacinas — a engenharia genética é uma delas. A capacidade de sequenciar genomas e manipular nanopartículas deve revolucionar ainda mais as imunizações daqui para a frente, e a estreia dessa nova era será com as vacinas contra a covid-19.Só é possível ter vacinas quase sendo lançadas hoje porque anos de estudos já estavam disponíveis para os cientistas quando o SARS-CoV-2 surgiu, em dezembro de 2019, na cidade chinesa de Wuhan.
A vacina da Sinovac Biotech, testada também no Brasil por meio de uma parceria com o Instituto Butantan, em São Paulo, usa uma tecnologia tradicional, de vírus inativado, a mesma das vacinas da gripe oferecidas todos os anos no SUS. A empresa chinesa começou a partir de 2003 os primeiros estudos para uma vacina contra o primeiro coronavírus SARS-CoV-1, que provocou uma epidemia naquela época na Ásia.
Em 2004, a Sinovac já havia feito os primeiros testes clínicos em humanos. Ou seja, os chineses já têm tecnologia para o desenvolvimento de imunizantes contra o coronavírus há 16 anos. Logo que o SARS-CoV-2 emergiu, o laboratório direcionou a linha de pesquisa para esse vírus, cujo genoma tem 80% de semelhança com o SARS-CoV-2.