CRISE
Bailarina Eliana Cavalcanti desabafa sobre situação do Pinheiro durante pandemia

Não é novidade que os moradores do Pinheiro, Bebedouro, Mutange e Bom Parto têm passado por situações difíceis nos últimos três anos. Com o afundamento do solo dos bairros ocasionado pela mineração da petroquímica Braskem, famílias tiveram que sair de suas casas e empresas fecharam suas portas.
Eliana Cavalcanti, bailarina e proprietária de uma escola de dança do Pinheiro, usou as redes sociais para desabafar sobre o que os moradores da região estão passando também com a pandemia da Covid-19: "Como se não bastasse o duro golpe desferido contra todos os empreendedores dos quatro bairros citados, agora fomos atingidos pela necessidade de fechar as nossas empresas por causa da Covid-19".
"Desculpem-me tratar aqui apenas dos empreendedores, quando sabemos da dor de cada um dos moradores desses bairros. Não estamos, em absoluto, menosprezando toda a angústia da população (minha filha está incluída nessa população, assim como muitos amigos), mas temos de pensar nos empreendedores pelo fato de se tratar do ganha-pão de cada um. A situação dos empreendedores é prioridade emergencial", pontuou.
A empresária relatou ainda que na última semana foi necessário fazer uma cota para garantir alimentos para alguns dos empresários que já começaram a passar fome. Ela afirmou que não há mais como esperar. "Estamos clamando por uma ação mais efetiva por parte da Braskem. Lamentamos a omissão dos governantes e autoridades que, simplesmente, nos abandonaram. Até a sociedade, quase de maneira geral, está acomodada".
Ela questionou ainda se todo esse problema não atingirá também outros pontos da capital. "É bem possível. Ao alagoano falta amor à sua terra (com exceções, é claro). Aqui é a terra da boca miúda. Todos querem estar bem na foto. Conheço uma penca de pessoas que fica sempre em cima do muro e não bota fogo na lenha com receio de se queimar. Outros recebem vantagens em troca do silêncio. É tudo muito revoltante".
A escola de dança Ballet Eliana Cavalcanti, com 47 anos de história, começou a decair com o processo de desocupação do bairro. "Escola pioneira no estado de Alagoas e que recebeu milhares de alunos nos seus 47 anos de uma bela e honrosa história, bem como formou bailarinos e professores, hoje, espalhados pelo mundo afora, passa por uma situação dificílima. Alugamos duas salas da Escola Monteiro Lobato. Gastamos dinheiro com adaptação do espaço e pagamos dez meses de aluguel. Em dezembro, encontramos um espaço mais adequado para uma escola de balé, porém, com um aluguel muito superior".
Por fim, ela questionou quando todos afetados pela situações de instabilidade do solo e agora pela pandemia serão indenizados. "Nosso prédio foi construído especialmente para dança e com um ótimo apartamento no andar superior, onde nossa família morou por vinte anos. Hoje mora a nossa filha, Ilana. Perdemos, portanto, a sede da nossa escola e um apartamento. Quando seremos indenizados, e pelo valor justo, diga-se de passagem?".
"Na última mudança gastamos o que tínhamos e o que não tínhamos. E do lucro cessante, pois, quando nos mudamos para a Gruta, muitos dos nossos alunos, moradores do Pinheiro, não nos acompanharam, porque haviam se mudado para bairros distantes". Ao fim de seu desabafo, a empresária reivindicou: "E os danos morais? Perdemos a segurança, destruíram nossos sonhos, abalaram nossa saúde, arranharam a nossa dignidade".
"Nunca me achei importante, a despeito de todos os prêmios, medalhas, títulos e comendas que recebi ao longo da minha trajetória pelos serviços prestados a Alagoas. Do mesmo modo, tenho consciência de que a Braskem tem muito dinheiro, poderosos advogados, prestígio, e muitos “amigos”. De que adiantará este meu brado? O tempo dirá. No mínimo, servirá para um livro com todos os textos que venho escrevendo há mais de um ano, registro de um capítulo cruel da história de uma cidade chamada Maceió. Socorro! Temos pressa!"
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