cultura
MPF e MPAL celebram entrega de acervo dos bairros atingidos pela Braskem
Inventário reúne histórias de 330 fazedores de cultura e 75 expressões culturais
A desocupação dos bairros atingidos pela mineração da Braskem, em Maceió, provocou não apenas o deslocamento de moradores, mas também a dispersão de tradições e manifestações culturais. Um levantamento realizado pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal) identificou que agentes culturais de Bebedouro, Bom Parto, Farol, Mutange e Pinheiro passaram a viver em 61 localidades, dentro e fora da capital alagoana.
Os dados integram o Inventário Participativo do Patrimônio Cultural Imaterial (IPCI Maceió), apresentado no último dia 7, no Museu Théo Brandão. A pesquisa identificou 330 fazedores de cultura e 75 expressões culturais relacionadas aos cinco bairros afetados pelo afundamento do solo.
O trabalho reuniu aproximadamente cinco terabytes de informações, incluindo entrevistas, mapas, registros audiovisuais e relatos de antigos moradores. O material foi disponibilizado na plataforma do Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC), vinculada ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Coordenado pelas professoras Josemary Ferrare e Adriana Guimarães, o levantamento enfrentou o desafio de localizar pessoas que deixaram suas comunidades após a desocupação. A pesquisa foi desenvolvida pela Ufal, por meio da Fundação Universitária de Desenvolvimento de Extensão e Pesquisa (Fundepes), com participação dos próprios agentes culturais.
A iniciativa faz parte do Plano de Ações Sociourbanísticas (PAS), estabelecido no âmbito das medidas de reparação pelos danos provocados pela mineração da Braskem, com acompanhamento do Ministério Público Federal (MPF) e do Ministério Público de Alagoas (MPAL).
Durante a apresentação, a procuradora da República Roberta Bomfim destacou que a preservação das memórias também representa uma forma de reparação às comunidades atingidas. Segundo ela, o reconhecimento das histórias individuais e coletivas permite valorizar experiências que poderiam desaparecer com a perda dos territórios.
A procuradora Juliana Câmara ressaltou que a preocupação com a preservação cultural partiu dos próprios moradores durante as discussões sobre o acordo de reparação. “A cultura é aquilo que dá identidade, dá uma sensação de pertencimento. Em momentos difíceis como esse, também é um remédio para uma dor que machuca”, afirmou.
O promotor de Justiça Jorge Dória, representante do MPAL, destacou que o inventário poderá orientar novas iniciativas de valorização cultural, políticas públicas e projetos destinados às comunidades atingidas.
O levantamento foi financiado com recursos provenientes das obrigações assumidas pela Braskem no acordo socioambiental. Além de preservar registros históricos, o acervo poderá subsidiar editais culturais, ações de salvaguarda e outras medidas de reparação, buscando garantir a continuidade das tradições que perderam seus espaços de origem.



