DIVERSIDADE
Dia do Orgulho LGBTQI+: uma história de luta contra o preconceito

O Dia do Orgulho LGBT é celebrado no dia 28 de junho. A data, instituída em 1970, nasceu para marcar a luta de pessoas LGBT contra o preconceito e a violência, além de reforçar o orgulho que sentem por serem exatamente como são.
A história por trás do Dia do Orgulho LGBT
De acordo com Fernandes, o termo homossexualidade é uma invenção do final do século XIX. “Isso não quer dizer que a homossexualidade, as práticas sexuais e afetivas entre pessoas do mesmo sexo surgiram nessa época”, comenta.
No entanto, foi justamente nesse período que a medicina decidiu dar um nome a essas afetividades. “A homossexualidade não recebeu um nome porque era vista como algo legal. Ele recebeu um nome porque era vista como uma doença, uma patologia”, explica.
A partir dessa nomeação, a homossexualidade, então, começou a ser tratada a partir de três matrizes principais nas diferentes sociedades: como uma doença, um pecado ou um crime. E essas três matrizes podem existir em diferentes formatos e combinações. “No Brasil, por exemplo, a homossexualidade nunca foi um crime, mas ela foi vista como pecado e como doença”, aponta Fernandes.
“Então a história da homossexualidade é marcada por esses três fantasmas: o fantasma da medicina, o fantasma da justiça e o fantasma da religião - principalmente das religiões cristãs”.
Perseguição e violência
Por causa desses fatores, as pessoas LGBT eram constantemente perseguidas em diversas sociedades. Nos final dos anos 1950 nos Estados Unidos, por exemplo, criaram uma lei em que as pessoas eram obrigadas a usar pelo menos três itens em conformidade com o seu sexo.
“Se eu fosse uma travesti, ou um gay que se veste de mulher, ou uma pessoa trans, e fosse parado pela polícia, eu tinha que seguir a regra dos três itens. Meia masculina? Ok. Cueca? Ok. Camiseta masculina? Ok. Se eu não estivesse usando os três itens, com certeza me daria mal”, explica Fernandes.
O início da luta
Existia um bar em Nova York chamado Stonewall Inn, que hoje é considerado um dos principais lugares que deram origem aos chamados bares ou boates gay. “Bares gays, GLS ou LGBT. Geralmente usamos a sigla GLS para coisas do mercado, e as siglas LGBT ou LGBTQI+ para assuntos do movimento social”, pondera o professor.
Ao contrário de quase todos os outros bares da época, em Stonewall as pessoas LGBT podiam dançar juntas e aproveitar juntas ali mesmo. Em outros lugares, gays, lésbicas e pessoas trans precisavam manter distância e, caso se interessassem por alguém, só poderiam namorar em casa, longe do olhar dos outros.
O Stonewall se localizava no Village, um lugar de transgressão de gênero, onde toda a dissidência de gênero e sexualidade poderia frequentar. “Lembra do Village People? A banda vem de lá”, comenta Fernandes. “Então o Stonewall era muito transgressor nesse sentido. As pessoas dançavam, beijavam na boca, bebia, curtiam. Havia pessoas trans, travestis, drag queens, toda a subcultura LGBT. Era a semente do vivemos hoje”.
Por causa disso, as batidas policiais se tornaram constantes e os policiais sempre apareciam para pedir propina. No entanto, em 1969, essas aparições começaram a aumentar e a ficar mais violentas. Até que, no dia 28 de junho desse mesmo ano, os policiais fizeram uma batida extremamente violenta. “Arrancavam as perucas das pessoas trans, batiam nos gays mais afeminados, nas lésbicas mais masculinizadas e pediram uma propina muito alta”.
Foi nesse dia, então, que um grupo de pessoas LGBT, inspirado nos movimentos civis dos negros, no movimento hippie e no movimento de libertação das mulheres, se uniu para lutar por seus direitos. “Por que é o dia do orgulho? Porque esse foi o momento em que essa população se percebeu sujeita de direitos. Eu tenho que ser respeitado, eu tenho que ser respeitada, eu tenho que ter direito de ser quem eu sou”, explica Fernandes.
A rebelião de Stonewall
“Muita gente acha que a Parada Gay é só festa e alegria. Realmente é tudo isso, porque é assim que nos manifestamos; mas é mais que isso”, argumenta o professor.
E a rebelião que se deu em Stonewall no dia 28 de junho de 1969 foi o começo de tudo isso: um movimento em um bar de Nova York contra a repressão e a violência policial. “Então nós, pessoas LGBT, lutamos contra a violência policial desde a nossa gênese”.
A rebelião de Stonewall durou três dias e foi muito violenta. Houve fogo e as ruas próximas tiveram que ser fechadas. Um ano depois, no dia 28 de 1970, todos aqueles que participaram do conflito ocuparam a Sétima Avenida (localizada próxima ao bar) e fizeram uma marcha em memória do que aconteceu em Stonewall.
A partir de então, a população LGBT de Nova York sobe anualmente a Sétima Avenida para relembrar o que aconteceu no dia 28 de 1969, quando um grupo de pessoas LGBT se levantaram contra a opressão.
“Essa é a gênese do Dia do Orgulho LGBT. Toda vez que chega o dia 28 de junho, lembramos o orgulho de sermos quem somos e a necessidade de lutarmos contra o Estado, contra a violência policial e contra as concepções de homosexualidade como pecado, doença ou crime”, reflete Fernandes.
Por que precisamos falar sobre o Dia do Orgulho LBGT?
“Porque nós, pessoas LGBT, somos um grupo extremamente violentado e extremamente carente de direitos em nossas sociedades”. Fernandes explica que, mesmo hoje, é extremamente perigoso para um casal homossexual sair de mãos dadas na rua. Até mesmo acessar serviços públicos, como de saúde, pode representar um perigo. “Viver é um perigo para a população LGBT”.
Para o professor, é necessário desenvolver ações de educação à população. “Aqui na minha cidade na Bahia, por exemplo, nós tivemos o assassinato da nossa grande liderança trans, Lili. Ela foi morta numa praça pública em uma cidade de 30 mil habitantes. Todo mundo tem mil explicações, mas ninguém presta atenção que, nos últimos 20 anos, o único assassinato na praça pública da cidade foi de uma travesti presidenta da Associação LGBT de Cachoeira, em São Félix”.
De acordo com Fernandes, existe um termo para explicar o que a população LGBT vive em sociedade: evitação. “As pessoas nos evitam na família”. Por exemplo, quando ocorre um evento social, como um casamento, existe sempre aquele pedido: “Não faz escândalo”, ou “Venha arrumado”, ou “Não traga seu namorado/sua namorada”. Isso quando são convidados.
“Então temos que ter orgulho de quem somos para conseguir enfrentar uma sociedade que nos odeia”, completa o professor.
Longevidade para a população LGBT
Para Fernandes, é preciso considerar muita coisa ao falar de longevidade para a população LGBT. Por exemplo, existem poucas pessoas trans que conseguem passar dos 60 anos. “Tenho pouquíssimos exemplos para citar”. A violência, as barreiras impostas pela sociedade e a falta de acesso aos serviços públicos de saúde fazem com que essas pessoas tenham baixa longevidade.
“Em relação aos gays, eu conheço muitos que chegam a idades bem avançadas, como 80 ou 90 anos. Mas sempre com muita solidão”, afirma. “Nós temos que lembrar que as concepções de crime, doença e pecado circundam a homossexualidade”. Por isso, muitas vezes essas pessoas são evitadas pela própria família e acabam vivendo em solidão.
De acordo com o professor, ainda faltam espaços de sociabilidade para pessoas mais velhas que sejam LGBT. “Falando como alguém que já viveu em outros países, a nossa sociedade brasileira é muito centrada na juventude”. Ou seja, pessoas mais idosas podem acabar sofrendo preconceito de pessoas mais novas, mesmo quando inseridas na mesma comunidade.
“Eu acho que há pouca empatia dos jovens LGBT com as pessoas mais velhas LGBT. Então acho que, para aumentar a longevidade, precisamos de estratégias intragrupos, dentro da população LGBT. Temos que ter mais empatia e mais solidariedade com os nossos integrantes que envelhecem. Temos que acolher as pessoas mais velhas”, conclui.
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