SAÚDE
Canetas emagrecedoras: Brasil tem 6 mortes suspeitas por pancreatite
Anvisa reúne mais de 200 notificações de pancreatite associadas aos medicamentos
O Brasil registrou seis mortes suspeitas e 225 casos de pancreatite possivelmente associados ao uso de canetas emagrecedoras, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). As informações constam no sistema VigiMed e em relatos de pesquisas clínicas com esses medicamentos desde 2018.
As notificações envolvem fármacos da classe dos agonistas do GLP-1, como semaglutida, liraglutida, lixisenatida, tirzepatida e dulaglutida, utilizados no tratamento de diabetes e obesidade.
O tema ganhou destaque internacional no início deste mês, após um alerta divulgado no Reino Unido sobre casos de pancreatite em usuários desses medicamentos. No país europeu, foram registradas 19 mortes relacionadas.
De acordo com a Anvisa, os 225 casos suspeitos ocorreram em pacientes de São Paulo, Paraná, Bahia e Distrito Federal. Já as seis mortes não tiveram os estados informados. A agência ressalta que todos os registros passam por análise técnica antes de qualquer confirmação.
Especialistas alertam, no entanto, que os números podem ser maiores, já que a notificação desses casos não é obrigatória. Assim, médicos e hospitais não são compelidos a comunicar à Anvisa episódios de pancreatite em pacientes que usam esse tipo de medicamento.
Na base de dados do VigiMed, os registros aparecem associados a marcas como Wegovy, Victoza, Trulicity, Saxenda, Xultophy, Ozempic, Rybelsus e Mounjaro. A agência afirma, porém, que não é possível estabelecer relação direta em todos os casos, já que há relatos de uso de produtos falsificados, irregulares ou manipulados.
A Anvisa informou que todas as ocorrências estão em investigação.
Risco já consta na bula
Segundo especialistas, o risco de pancreatite é conhecido e consta nas bulas de alguns desses medicamentos. No caso do Mounjaro, por exemplo, o documento aponta a inflamação do pâncreas como uma reação adversa incomum, mas possível.
Além disso, ainda não há confirmação de que os episódios tenham sido causados diretamente pelas canetas emagrecedoras. Muitos pacientes que utilizam esses medicamentos já pertencem a grupos de risco, como pessoas com obesidade e diabetes.
O endocrinologista Alexandre Hohl, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), destaca a importância do acompanhamento médico. Segundo ele, pacientes em tratamento devem passar por monitoramento regular da saúde do pâncreas, conforme os protocolos clínicos.
Outro fator de alerta é o uso sem prescrição médica, especialmente de versões manipuladas. Nesses casos, não há controle de dose nem avaliação do histórico do paciente, o que pode retardar o diagnóstico de complicações.
Estimativas indicam que o mercado ilegal desses medicamentos movimente cerca de R$ 600 milhões por ano no Brasil. Em nível mundial, há 14.530 notificações de pancreatite associadas a esses remédios, além de 378 mortes.
No Brasil, não existe um alerta específico adicional para pancreatite, e os médicos ouvidos afirmam que o uso segue sendo considerado seguro, desde que haja indicação adequada e acompanhamento profissional.
Medidas da Anvisa
A Anvisa informou que os dados contribuíram para a decisão de restringir a venda dos medicamentos com retenção de receita médica, medida adotada em abril de 2025. O objetivo é garantir que os pacientes sejam avaliados antes de iniciar o tratamento.
Segundo a agência, a exigência tem se mostrado adequada, mas novas medidas podem ser adotadas caso sejam identificados outros riscos.
O que dizem as empresas
A farmacêutica Eli Lilly afirmou que monitora os registros e ressaltou que a pancreatite é uma reação descrita na bula de seus produtos.
A Novo Nordisk também informou que há advertência de classe para terapias baseadas em incretina, incluindo medicamentos como Ozempic, Rybelsus, Wegovy, Victoza e Saxenda.
As empresas orientam que os pacientes sejam informados sobre os sintomas da pancreatite e suspendam o uso do medicamento em caso de suspeita, buscando atendimento médico imediato.



