FUTEBOL BRASILEIRO
Por trás da demissão de Filipe Luís: o Flamengo tomou a decisão certa?
Em 101 jogos, treinador teve 64 vitórias, 15 derrotas e títulos importantes
Um dia, isso virará uma pergunta de quiz. Qual técnico foi demitido logo após sua equipe vencer por 8 a 0? A resposta é Filipe Luís, demitido pelo Flamengo na madrugada de 4 de março, momentos depois de sua equipe ter completado uma goleada por 11 a 0 no placar agregado contra o Madureira nas semifinais do Campeonato Carioca.
Para quem fizer uma aposta esportiva no futebol brasileiro em 2026, poucas histórias foram mais desconcertantes do que esta. Um técnico que conquistou quatro títulos em sua primeira temporada completa, incluindo a Copa Libertadores, recebeu uma conversa de 30 segundos no vestiário e foi informado de que seus serviços não eram mais necessários.
O que Filipe Luís conquistou
Para entender por que a demissão soou tão chocante, é preciso compreender a magnitude do que Luís construiu. Quando assumiu o time principal do Flamengo em setembro de 2024, após a saída de Tite, ele era um técnico inexperiente assumindo um dos cargos mais pressionados do futebol sul-americano.
Ele vinha comandando as categorias sub-17 e sub-20 apenas alguns meses antes. O que se seguiu foi notável. Em 101 jogos, ele registrou 64 vitórias e apenas 15 derrotas, conquistando a Copa do Brasil, o Brasileirão, a Copa Libertadores e muito mais.
Ele se tornou a nona pessoa a vencer a Libertadores tanto como jogador quanto como técnico, tendo levantado o troféu duas vezes durante sua carreira de jogador no clube. Seu histórico o colocou entre os treinadores de maior sucesso da história do Flamengo.
Por que o Flamengo tomou essa decisão
A versão oficial do presidente Luiz Eduardo Baptista, conhecido como Bap, foi que a decisão foi tomada por motivos esportivos, baseada inteiramente em fatos, e não foi nem individual nem impulsiva. A realidade era mais complicada.
A temporada de 2026 havia começado mal. O Flamengo perdeu a Supercopa para o Corinthians e a Recopa da CONMEBOL para o Lanús e, apesar dos placares enfáticos no Campeonato Carioca, parte da própria torcida gritava “vergonha” para os jogadores durante aquela vitória por 8 a 0. O clima havia azedado, e a paciência da diretoria já estava no limite quando uma questão separada e mais prejudicial veio à tona.
Durante as negociações para a renovação do contrato no final de 2025, Luís ficou três dias sem dar notícias ao Flamengo enquanto avaliava o que acreditava ser uma proposta do Chelsea, seu antigo clube, após a demissão de Enzo Maresca.
Reportagens em diversos veículos de comunicação brasileiros e internacionais confirmaram o detalhe, e a fonte é confiável: Luís descobriu mais tarde que as negociações estavam, na verdade, relacionadas ao Strasbourg, o clube francês sob o mesmo grupo de propriedade BlueCo que o Chelsea.
A vaga no Chelsea acabou indo para Liam Rosenior. Mas o dano já estava feito. Bap viu o episódio como uma profunda quebra de confiança. O fato de Luís ter voltado para assinar um novo contrato até 2027 em 29 de dezembro não foi suficiente para reparar a fratura. O contrato foi assinado, mas a relação estava rompida.
O contexto mais amplo
A decisão do Flamengo precisa ser interpretada através das lentes de um clube com uma intolerância quase patológica por qualquer coisa que não seja o domínio absoluto. Eles contrataram Lucas Paquetá do West Ham na janela de inverno, uma demonstração de ambição. Esperavam um time que começasse com tudo em 2026. Quando isso não aconteceu e surgiram os rumores em torno das negociações com o Chelsea, a combinação se mostrou fatal.
Para quem acompanha suas apostas Brasileirão, a nomeação de Leonardo Jardim como sucessor traz suas próprias dúvidas. O técnico português chegou com uma sólida reputação de sua passagem pelo Mônaco e pelo Cruzeiro, e sua primeira ação foi levar o Flamengo ao título do Campeonato Carioca, derrotando o arquirrival Fluminense por 5 a 4 nos pênaltis na final.
Esse título precoce gerou boa vontade, mas o campeonato é a verdadeira prova de fogo. Após cinco jogos, o Flamengo venceu três, empatou um e perdeu um, ficando a seis pontos da liderança da tabela. Dois jogos a menos são motivo de otimismo, mas diminuir essa diferença de forma consistente ao longo de uma temporada inteira é um desafio totalmente diferente.
Será que tomaram a decisão certa?
Visto isoladamente, demitir um técnico após uma vitória por 8 a 0 parece absurdo. Visto em todo o contexto, parece o ápice de uma relação que já havia desmoronado nos bastidores. Os resultados esportivos em 2026 deram a Bap a justificativa; as negociações com o Chelsea lhe deram a motivação.
Se foi a decisão certa depende do que o Flamengo conquistar este ano. Se Jardim conquistar o Brasileirão e chegar longe na Libertadores, a narrativa será de que a diretoria agiu com determinação quando o vestiário precisava de um novo impulso. Se a temporada der errado, a questão de por que um dos jovens treinadores mais promissores do futebol brasileiro foi dispensado após um histórico de 64 vitórias perseguirá a liderança do clube por anos.
Luís, por sua vez, saiu com dignidade. “Não tenho dúvidas de que vivi os melhores anos da minha vida aqui”, disse ele antes do anúncio ser divulgado. O Flamengo, um clube que nunca teve falta de drama, terá que decidir se concorda com esse sentimento ou se o jogou fora.



