68º Prêmio Jabuti
Jabuti escolhe Lygia Bojunga como Personalidade Literária de 2026
Autora será homenageada no ano em que “A Bolsa Amarela”, livro já alvo de censura, completa 50 anos
Uma das escritoras mais importantes da literatura infantil brasileira, Lygia Bojunga, de 94 anos, foi escolhida como Personalidade Literária da 68ª edição do Prêmio Jabuti, conforme anunciado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), organizadora da premiação. A homenagem ocorre no ano em que A bolsa amarela, um dos maiores clássicos da autora, completa 50 anos de publicação. A obra também já foi alvo de uma tentativa de censura.
Para Hubert Alquéres, curador do Prêmio Jabuti, a escolha reconhece uma autora que transformou a maneira como a literatura brasileira retrata a infância. “Lygia Bojunga mudou a maneira como a literatura brasileira olha para a infância. Seus livros confiam na inteligência, na imaginação e na sensibilidade de crianças e jovens para lidar com questões complexas. Homenageá-la nos 50 anos de ‘A bolsa amarela’ é celebrar uma obra que permanece viva e continua conquistando leitores”, afirmou.
Caso no DF relembra tentativa de censura a "A Bolsa Amarela"
Em maio desse ano, em uma escola no Distrito Federal, uma mãe acusou o livro de incentivar a “ideologia de gênero” e pediu que a obra fosse retirada da biblioteca. O caso ocorreu no Colégio Militar Dom Pedro II, gerido pelo Corpo de Bombeiros do DF, onde um grupo de pais e responsáveis protestou contra a inclusão do livro na lista de leitura das turmas do 4º ano. As críticas circularam em um grupo de WhatsApp das famílias e apontavam uma suposta incompatibilidade da narrativa com a idade das crianças e com os valores da família e da escola.
Na ocasião, a CBL e outras autoras de livros infantis, como Ana Maria Machado e Ruth Rocha, se posicionaram em defesa de Lygia. A escola, de caráter militar, decidiu retirar o livro da biblioteca. Não foi a primeira tentativa de censura à obra, que já havia sido alvo de um movimento semelhante em 2019.
Trajetória premiada
Nascida em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 1932, Lygia estreou na literatura em 1972, com “Os colegas”, história de um grupo de animais que se une pela amizade e pelo desejo de liberdade. O livro lhe rendeu o primeiro Jabuti, em 1973. A escritora voltaria a conquistar a estatueta em 1993, com “Fazendo Ana Paz”, e em 1997, com “Seis vezes Lucas”.
Em 1982, tornou-se a primeira escritora de fora do eixo Europa-Estados Unidos a receber o Prêmio Hans Christian Andersen, concedido pelo International Board on Books for Young People (IBBY) e considerado o “Nobel da literatura infantil”. Em 2004, conquistou o Prêmio Memorial Astrid Lindgren, criado pelo governo sueco em homenagem à autora de “Píppi Meialonga”.
Em 2002, criou a própria editora, a Casa Lygia Bojunga, inaugurada com a publicação de “Retratos de Carolina”. Desde então, passou a lançar seus livros pelo selo. Posteriormente, fundou a Fundação Cultural Casa Lygia Bojunga, dedicada a iniciativas de incentivo à leitura e à formação de leitores.
A escritora agradeceu a homenagem por meio de uma carta manuscrita enviada à entidade e de uma mensagem gravada. “Que belo incentivo este!”, escreveu.
A homenagem será realizada durante a cerimônia de premiação do 68º Jabuti, marcada para 27 de outubro, na Sala São Paulo, na capital paulista, onde serão anunciados os vencedores das 23 categorias, além do Livro do Ano, principal distinção do concurso. O evento terá transmissão ao vivo pelo canal da CBL no YouTube.



