CULTURA E INOVAÇÃO
A poesia que atravessa os palcos com Bráulio Bessa
Poeta cearense destaca inovação, cultura nordestina e temas que levará ao Neon 2026
A poesia de Bráulio Bessa circula diariamente pelas redes sociais, onde são compartilhados por milhares de usuários. Com linguagem acessível e forte conexão com as vivências do povo nordestino, seus versos abordam temas como identidade, superação e afeto, transformando o cordel em um fenômeno que ultrapassa os limites das feiras e dos livros para conquistar as telas dos celulares.
Báulio queria consumir o mundo e hoje nós é que o consumimos. Essa trajetória será compartilhada com o público durante o NEON Alagoas 2026, maior evento de inovação, empreendedorismo e negócios do Nordeste, que acontece entre os dias 11 e 13 de junho, no Centro de Convenções de Maceió. Confirmado na programação com a palestra "Poesia que transforma".
Em entrevista ao jornal, o poeta e escritor falou sobre sua trajetória, a força da cultura nordestina, o empreendedorismo criativo e o papel da poesia em um mundo cada vez mais tecnológico.
EXTRA: O que significa empreender através da poesia?
B.B: Empreender através da poesia é acreditar que a sensibilidade também pode gerar oportunidade. Durante muito tempo, disseram que poesia era bonita, mas não dava futuro. Eu resolvi provar que ela podia transformar vidas, inclusive a minha.
Empreender, para mim, foi encontrar maneiras de fazer a palavra chegar onde ela nunca tinha chegado. Foi levar o cordel para a televisão, para as redes sociais, para os palcos, para as empresas, para as escolas e para os livros. Não mudei a essência da poesia. Apenas encontrei novos caminhos para ela caminhar. No fim das contas, empreender é isso: transformar um propósito em trabalho sem perder a alma no processo.
EXTRA: Em que momento percebeu que preservar a tradição e inovar não eram caminhos opostos, mas complementares?
B.B: Eu nunca enxerguei inovação como ameaça à tradição. Sempre pensei que tradição não é manter as cinzas acesas, mas passar o fogo adiante.
Quando comecei a publicar vídeos na internet, muita gente dizia que cordel era coisa de papel, de feira, de bancada. Eu discordava. O que faz do cordel um cordel não é o lugar onde ele está, mas a verdade que ele carrega. Percebi que as pessoas não rejeitam a cultura popular. Elas apenas precisam de uma ponte para chegar até ela. A tecnologia virou essa ponte. E, graças a ela, milhões de brasileiros tiveram o primeiro contato com o cordel justamente pela tela de um celular.
EXTRA: No seu ponto de vista artístico, o que a tecnologia com o uso de IA nunca vai conseguir replicar na poesia, inclusive de cordel?
B.B: A inteligência artificial consegue organizar palavras. O ser humano organiza sentimentos. Ela pode aprender estilos, estruturas e métricas, mas ainda não sabe o que é sentir saudade da casa onde nasceu, perder alguém que ama ou vencer uma batalha que parecia impossível. Ela não tem memória afetiva nem cicatriz. A poesia nasce justamente desse encontro entre linguagem e experiência. A técnica pode ser reproduzida. A vivência, não.
EXTRA: Muitos jovens presentes no NEON desejam viver daquilo que amam fazer. Na sua experiência, qual é o maior desafio entre reconhecer um talento e transformá-lo em uma carreira sustentável?
B.B: Ter talento é importante. Mas disciplina costuma decidir muito mais do que dom. Existe uma ideia romantizada de que basta fazer o que ama e tudo vai acontecer naturalmente. Não é assim. É preciso estudar, trabalhar, entender de gestão, aprender a se comunicar e aceitar que construir uma carreira é um projeto de longo prazo. Eu costumo dizer que o talento abre a porta, mas é a constância que faz você permanecer dentro da sala. Quando paixão e profissionalismo caminham juntos, aumentam muito as chances de um sonho virar profissão.
EXTRA: Seu livro mais recente chamado Serena passa também poesia para crianças. Qual foi sua motivação em publicar seu primeiro livro infantil?
B.B: A chegada das minhas filhas mudou completamente a forma como eu enxergo o mundo. Passei a prestar atenção em pequenos detalhes que antes passavam despercebidos e redescobri a beleza das perguntas simples. Escrever para crianças nasceu desse desejo de conversar com elas sem subestimar sua inteligência e sua sensibilidade. A infância é um território fértil para a poesia porque nela ainda existe encantamento.
Também acredito que aproximar uma criança dos livros é oferecer a ela uma possibilidade de futuro. Quem cresce convivendo com histórias costuma aprender mais cedo a imaginar outros caminhos para a própria vida.
EXTRA: Como você pretende abordar no Neon temas de suas obras que tratam tanto do preconceito nordestino quanto das vivências reais e do poder das palavras para transformar a vida de qualquer pessoa?
B.B: Minha palestra parte da minha própria história. Eu falo de um menino do interior do Ceará que cresceu ouvindo que seu sotaque precisava ser corrigido e que seus sonhos eram grandes demais para o lugar onde nasceu. Mas também mostro que aquilo que muitos enxergavam como limitação acabou se tornando exatamente o meu maior diferencial.
Quando abordo o preconceito contra o Nordeste, não faço isso para alimentar divisões. Faço para mostrar que nenhum povo deve sentir vergonha das próprias raízes.
E quando falo sobre o poder das palavras, não é apenas porque escrevo poesia. É porque fui transformado por elas. A palavra certa pode devolver esperança, mudar uma decisão, reconstruir uma autoestima e até alterar o rumo de uma vida inteira. Essa é a principal mensagem que quero compartilhar com quem estiver me ouvindo.



