colunista

Alari Romariz

Atuou por vários anos no Sindicato dos Servidores da Assembleia Legislativa e ganhou notoriedade ao denunciar esquemas de corrupção na folha de pagamento da casa em 1986

Conteúdo Opinativo

O sofrimento da velha guerreira

25/04/2026 - 06:00
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Passei o fim de semana pensando: do que vale a criatura lutar tanto e terminar sendo perseguida?

Trabalhei desde os 12 anos estudando pela manhã e indo pela tarde, segurando na mão de meu pai, trabalhar com ele no seu escritório.

Aprendi a redigir documentos oficiais, contabilidade, ajudei a meu pai a equilibrar as finanças do escritório e da nossa casa. Foi um tempo construtivo, quando entendi o tipo de trabalho que gostaria de fazer.

Aos 18 anos, fui nomeada como interina, bibliotecária da Casa de Tavares Bastos.

Apareceu um concurso. Prestei provas. Fui aprovada e bem aprovada. Mas fui nomeada para um cargo isolado de Auxiliar de Bibliotecária. Esta foi a primeira perseguição.

Casei com um militar e fui andando pelo Brasil afora sempre trabalhando. Tive quatro filhos, morei em vários estados. Fui assessora de Marco Maciel em Pernambuco.

Fui chefe de Gabinete do Incra no Nordeste, trabalhei na Febem, em Garanhus, trabalhei em um projeto do Governo de Pernambuco, financiado pela Sudene. Enquanto meu marido fazia o curso do Estado Maior na Praia Vermelha, no Rio, prestei serviços ao escritório do Estado de Pernambuco, ainda no Rio de Janeiro.

Fiquei fora da Assembleia por conta da profissão do marido, mas sempre trabalhando em órgãos federais, estaduais e municipais.

Voltei para o Legislativo alagoano em 1985 e fui trabalhar na Sala das Comissões.

Enfrentei problemas de colegas que não me davam serviço. Venci e comecei a ficar conhecida.

Fui nomeada auditora Financeira da Casa. Dois anos depois fui rebaixada para assessora Financeira. Não baixei a cabeça e continuei lutando.

Com a Constituição de 1989, os servidores fundaram o Sindicato do Poder Legislativo. Fui vice-presidente e presidente. Junto com alguns companheiros, deixamos um belo patrimônio para ativos e inativos da Casa de Tavares Bastos, inclusive um bom plano de saúde elogiado pela sociedade alagoana.

Por conta das minhas lutas, nunca fui querida pelas Mesas Diretoras. Acho que a razão é fria: deixei para os servidores a sede do Sindicato, a Copamedh, o Clube Legislativo. Nada disso veio dos dirigentes, veio do Velho Sindicato.

Meu salário virou brinquedo de criança. Quando penso que tudo está bem vem um susto, isto é, corte salarial. Recorro à Justiça, ganho, mas nunca recebo o que tiraram de mim. Já entrei na Justiça várias vezes e nunca perdi uma só. Pena que demore um pouco.

Sou uma mulher honesta, trabalhadora. Criei meus filhos respeitando as leis de Deus e a lei dos homens. Minhas críticas aos dirigentes são funcionais. Não faço críticas à vida pessoal de ninguém.

Talvez meu defeito seja não bajular os chefes, sempre falar a verdade e a verdade dói.

Aposentei-me e pensei que ia descansar e aproveitar os meus últimos anos de vida, ao lado de meus familiares, na minha rústica casa em Paripueira. Ledo engano! Continuo sendo perseguida e desrespeitada.

Pergunto aos dirigentes do Poder Legislativo: o que fiz de tão errado para que não me deixem em paz?

Pergunto aos meus colegas dos três sindicatos: vocês acham certo tudo o que aconteceu?

Para os meus algozes desejo que percam noites de sono, consumidos pelo remorso.

E a velha guerreira está nas mãos de Deus. Ele existe. Não duvidem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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