colunista

Alari Romariz

Atuou por vários anos no Sindicato dos Servidores da Assembleia Legislativa e ganhou notoriedade ao denunciar esquemas de corrupção na folha de pagamento da casa em 1986

Conteúdo Opinativo

A Justiça Humana

06/06/2026 - 06:00
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Desde que comecei minha vida como sindicalista já fui processada várias vezes.

Logo que comecei a falar da divisão de dinheiro entre os deputados, o presidente da Casa me processou. Segundo a justiça, não consegui provar concretamente a existência dos fatos.

Apesar de tudo ser público e notório, perdi a causa. Paguei onze prestações de mil e poucos reais, isto é, uma a mais do que devia. Meu advogado solicitou a devolução da 11ª prestação. Nunca recebi.

Depois, eu e meu marido sofremos um acidente de carro perto do Dia das Mães. Fomos encaminhados para um hospital da cidade. Lá fomos maltratados por um médico recém-formado. Ele entrou com dois processos contra mim. Perdeu o primeiro, ganhou o segundo.

No primeiro, o juiz foi um senhor gentil e educado. Houve um erro por parte da advogada do médico. O processo foi arquivado. O juiz me viu muito sofrida, porque eu tinha acabado de perder meu terceiro filho. Abraçou-me com força e disse emocionado: “Vá em paz, Dona Alari. Deus a acompanhe”. Não gravei o nome do juiz, mas fiquei grata a ele.

Na segunda audiência, outro juiz encontrou-me na recepção e disse: “O que a senhora está fazendo aqui? Já arquivei seu processo”. E os olhos verdes falavam, como se lamentassem a situação. Lembro-me do nome dele, mas não direi. Só sei que é apaixonado por cachorros. Deus o proteja.

De outra vez, fui processada pelo presidente do Legislativo. Na primeira audiência, estavam um promotor e um juiz. O segundo tinha a fama de severo e tinha os olhos verdes, como os meus. Senti que lamentava a minha situação.

Daí em diante, houve uma série de processos contra mim, porque falo o que percebo na Casa de Tavares Bastos. São coisas erradas que ninguém corrige, mas nenhuma pessoa prova. Os protegidos chegam nas audiências acompanhados de advogados jovens e ficam calados. Os poderosos nem comparecem às audiências.

Sempre que sou chamada para uma sala onde há um juiz e um promotor, minha pressão sobe, a cabeça dói. Por que estou aqui? Não cometi crime nenhum, apenas vejo coisas erradas e denuncio. Venci poucas vezes. Vejo estourar escândalos nas Assembleias Legislativas do Brasil todo e poucas pessoas são punidas.

O que falta à justiça dos homens é o olhar que vai além das leis; ela vê, humildemente, uma pobre mulher lutando por dias melhores, onde não haja perseguição, injustiças.

O juiz da minha primeira causa do hospital deixou-me satisfeita pelo brilho que vi em seu olhar. Era como se procurasse saber por que a pobre sofrida mulher estava diante dele para ser julgada, se a vítima era ela.

Diante de tudo isso, o hospital onde fui atendida mandou em minha casa um mensageiro com um pedido de desculpas por escrito.

Tenho uma filha que é promotora e sempre digo a ela: “Quando for defender o Estado, seja generosa com as vítimas, estude o caso pelo lado humano e não só pelo lado legal”.

Não pretendo criticar a justiça dos homens. Quero, apenas, lembrar aos juízes e promotores que a luta das formiguinhas contra os elefantes é desigual. No Brasil, o poder e o dinheiro são fortes. Os pequeninos não podem pagar caro aos advogados e os poderosos nem pagam, têm as verbas públicas em mãos.

Senhores juízes, julguem com as leis e com o coração.

Deus os abençoe.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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