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Kleber Bene

Jornalista e gestor público

Conteúdo Opinativo

A Corte de Joelhos: recado de 132 anos e captura do Judiciário

30/04/2026 - 09:31
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A rejeição histórica de Jorge Messias pelo Senado Federal, algo que não ocorria há 132 anos, não é apenas uma derrota imposta ao Governo Lula. É um alerta ensurdecedor de que a política e o Judiciário atingiram um nível de promiscuidade insustentável. O fato evoca o fantasma de 1894, quando o Senado barrou Barata Ribeiro, indicado pelo Marechal Floriano Peixoto para blindar seu governo. Hoje, a história se repete como farsa: a rejeição não nasce de princípios morais, mas de uma disputa bruta por espólio político entre os Poderes.

No fundo, o que assistimos não é mais uma crise de reputação, é uma captura silenciosa. O Legislativo não apenas trava o Executivo; envia um recado direto ao Supremo Tribunal Federal (STF): “Ou vocês nos protegem, ou o cargo de vocês entra no balcão de negócios”. Esse balcão, aliás, parece ter filiais operando a todo vapor em Alagoas, onde a sombra da "venda de sentenças" e as recentes correições extraordinárias do CNJ sobre desembargadores locais reforçam a percepção de que a toga, por vezes, se curva aos interesses do capital e da influência política.

Do Mensalão ao Orçamento Secreto: A Mudança de Postura

A fragilidade da Corte fica clara quando comparamos eras. Em 2005, o STF agiu com rigor no julgamento do Mensalão. Hoje, diante do Orçamento Secreto, o maior esquema de corrupção institucionalizada da nossa história recente, e de escândalos financeiros como o do Banco Master, a postura é de hesitação. Enquanto as Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) tramitam em passos de tartaruga, parlamentares envolvidos seguem em jatos particulares e sacolas e bagagens não fiscalizadas ditando o ritmo do país.

Essa autocensura jurisdicional cria um risco real: o STF virar refém de corruptos. Se políticos ditam quem pode ou não ser investigado, um ministro que ousa desafiar um cacique sabe que seu cargo está em jogo. O resultado é a banalização do “processo pendurado” e a anulação de provas que deveriam ser irrefutáveis.

O Pós-8 de Janeiro e a Traição das Sombras

O cenário se agrava neste ciclo eleitoral de 2026. Com nomes de peso do governo anterior lançando candidaturas ao Senado em todo o Brasil, a busca por uma cadeira na Casa deixou de ser um projeto legislativo para virar um salvo-conduto. O objetivo é claro: conquistar foro e poder para emparedar ministros da Suprema Corte.
A autonomia do STF, nesse cenário, beira a ficção. Relatórios de órgãos de controle sobre emendas de relator dormem em gabinetes de ministros que devem suas sabatinas ao Parlamento. Magistrados acabam descartados como seringas velhas que, outrora, injetaram o antídoto que salvou esses mesmos políticos de investigações mortais. Agora, os “parceiros” de ontem aguardam a oportunidade de transformar a Casa mais respeitada do país em um puxadinho do Congresso, onde a impunidade é a regra.

Conclusão: O Despertar ou o Rebaixamento

A lição dos 132 anos é brutal: quando o Senado com a ajuda da oposição humilha uma nomeação, ele está testando os limites do Judiciário. Se os ministros do STF não devolverem o gesto com uma agenda enérgica, pautando imediatamente os inquéritos contra chefes do Legislativo e retirando das gavetas o que realmente importa, assinarão seu próprio rebaixamento a cartório político.

O jogo foi jogado, e a traição está às claras. É hora da Suprema Corte decidir se retomará sua liberdade de decidir ou se continuará o beija-mão aos caciques que trabalham, nas sombras, contra a nação. De joelhos, não haverá decisão justa que os salve, pois quem toma uma corte como refém não a liberta por generosidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do EXTRA


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