BIENAL
Livro resgata trajetória do fundador da primeira usina de cana de Alagoas
William Edmundson fala sobre o legado do francês Félix Eugène Vandesmet
O pesquisador e escritor William Edmundson lançou neste ano a biografia de Félix Eugène Vandesmet, francês que, ao lado do irmão Gustave, implantou em 1891 a Usina Brasileiro, próxima a Atalaia, considerada a primeira usina de cana-de-açúcar de Alagoas e uma das primeiras do Brasil.
A obra, intitulada “Barão Félix Vandesmet: Biografia de um Pioneiro Francês no Brasil”, será apresentada na Bienal Internacional do Livro de Maceió, em novembro, resgata a trajetória de Vandesmet como figura central na modernização do setor açucareiro e no desenvolvimento econômico do estado. Em entrevista ao EXTRA, Edmundson fala sobre os bastidores das descobertas, desafios e a importância histórica do pioneiro francês.
JORNAL EXTRA - O que te motivou a escrever sobre Félix Eugène Vandesmet e a história da cana-de-açúcar em Alagoas?
William Edmjundson- Meu interesse por Félix Vandesmet surgiu em janeiro, quando vi no Facebook uma foto de uma loco motiva a vapor acompanhada de um pedido de ajuda para identificar o modelo e o fabricante. A imagem mostrava uma máquina que teria pertencido à antiga Usina Brasileiro, em Atalaia. Como pesquisador da história das “maria-fumaças” no Nordeste e por acreditar que se tratava de uma locomotiva inglesa, iniciei uma investigação com apoio de colegas da Inglaterra. Até então eu não conhecia Félix Vandesmet, o francês que, junto ao irmão Gustave, fundou a usina no fim do século XIX e teve papel relevante no desenvolvimento de Alagoas. Esse novo interesse soma-se à minha trajetória de estudos sobre o estado, que já incluiu a biografia de Delmiro Gouveia e pesquisas sobre antigas usinas e locomotivas.
JE- Qual foi a importância da Usina Brasileiro para o desenvol vimento econômico de Alagoas e do Brasil?
WE- Félix Vandesmet foi um pioneiro da modernização do se tor açucareiro em Alagoas. Em 1891, fundou a Usina Brasileiro, próxima a Atalaia, considerada a primeira usina de cana-de-açúcar do estado e uma das primeiras do Nordeste e do Brasil. A iniciativa marcou o auge de um ciclo inicia do no século XVII, que evoluiu dos engenhos tradicionais até as usinas movidas a vapor. Com esse conhecimento, ele impulsionou uma nova fase da indústria açucareira, importando mudas de cana de Barbados, promovendo irrigação, uso de adubos e diversificação agrícola. Propôs ainda a criação de laboratórios finan ciados por taxas sobre engenhos, ideia que apresentou em conferências nacionais. Os irmãos também implantaram o primeiro ramal ferroviário particular de Alagoas para transporte interno de cana e açúcar.
JE- Como a história de Van desmet pode ajudar a compreen der a identidade econômica e cultural de Alagoas até os dias atuais?
WE- Félix Vandesmet construiu a primeira usina açucarei ra em Alagoas, o que favoreceu o desenvolvimento econômico do estado por ter aumentado a produção de açúcar exportado para o exterior. Além disso, Félix tomou outras iniciativas realmente inéditas para a época, quando não existia nenhuma legislação trabalhista consolidada. Félix ofereceu aos seus trabalhadores serviços médicos e farmacêuticos, até com remédios trazidos diretamente da França. Também, e por iniciativa própria, ele instalou uma escola e uma capela, e introduziu um sistema de previdência para aposentadoria.
JE - Quais foram as maiores dificuldades em reconstruir a trajetória de Félix?
WE- Nas pesquisas, encontrei vinte variações para soletrar o nome de Félix. Encontrei outras inconsistências que deixam o pesquisador confuso. Numerosas vezes, as fontes referem-se a Félix como ‘cônsul’ da França, ou ‘vice-cônsul’, quando em realidade ele era um ‘agente consular’ daquele país, embora seja louvável que ele tenha exercido estas funções durante duas décadas e meia. Não foi fácil, também, desven dar as distinções entre os termos ‘banguê’, ‘engenho’, ‘engenho central’, ‘fábrica central’, e ‘usina’, tão essencial para compreender as transições sutis na indústria açucareira através dos séculos até a chegada dos frutos da Revolução Industrial. Curiosamente, outra dificuldade que me tirou o sono por muitas semanas foi onde encontrar os restos mortais de Félix. Finalmente, seu túmulo foi localizado em Maceió, mas sem nenhum registro visível por fora do nome dele.
JE - Foram utilizados docu mentos de arquivos europeus ou apenas brasileiros para contar essa história?
WE- Ambos. A pesquisa en volveu consultas a diversos acervos em Maceió, como a Fototeca do Museu da Imagem e do Som, o Arquivo da Cúria Metropolitana e o Arquivo Público de Alagoas. No Recife, foram encontradas obras importantes na Biblioteca Blanche Knopf, da Fundação Joaquim Nabuco. Além disso, várias fontes digitais, como a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, foram estudadas em detalhe, junto à leitura de livros fundamentais, entre eles Contribuição à História do Açúcar em Alagoas, de Moacir Medeiros de Sant’Ana. No exterior, destacou-se a obra Lettres d’exil, de Patrick Caba nel, que revelou cartas inéditas entre Félix Vandesmet e autoridades da Igreja. Descobriu-se que Félix acolheu freiras francesas na usina e fundou uma escola local. Para identificar a locomotiva inglesa preservada em Atalaia, contou-se ainda com a colabora ção de especialistas britânicos e documentos históricos inéditos.



